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Simples tuítes podem revelar situação da economia de um país

Saijel Kishan e Jeff Kearns

25/03/2019 13h37

(Bloomberg) -- Apurv Jain usou alguns dados não convencionais para prever o rumo da taxa de emprego dos EUA: 1,2 bilhão de tuítes e 830 milhões de buscas na internet.

Como pesquisador da Microsoft em 2014, ele se inspirou em um comentário da ex-presidente do Federal Reserve, Janet Yellen, de que as condições do mercado de trabalho poderiam estar piores do que as estatísticas oficiais indicavam. Então ele começou a buscar fontes não oficiais.

Ele analisou os tuítes de 230.000 usuários do Twitter que perderam ou conseguiram trabalho para entender o sentimento por trás dos números. Ele também descobriu que vasculhar seis anos de pesquisas na internet lhe permitiu prever alterações em um dos indicadores mais importantes do mundo: o relatório mensal do Departamento de Trabalho dos EUA sobre dados do mercado de trabalho.

Tudo faz parte de um mundo que cresce rapidamente: o dos dados alternativos, que "conseguem fornecer detalhes sobre a narrativa econômica de nosso país que os dados existentes do governo simplesmente não conseguem", disse Jain, 41, que agora é pesquisador visitante na Faculdade de Administração de Harvard. Ele apresentou suas descobertas na semana passada em uma conferência em Nova York sobre inteligência artificial e ciência de dados no trading.

Há anos os grandes bancos, fundos de hedge e outros agentes financeiros têm corrido para coletar e analisar todos os tipos de dados estatísticos a fim de obter vantagem nos mercados. Agora a concorrência está aumentando: os gastos no campo excederão US$ 7 bilhões no próximo ano, em comparação com US$ 4,3 bilhões em 2017, segundo estimativas da consultora do setor financeiro Opimas.

Os provedores também estão se proliferando e já somam mais de 400, de acordo com o grupo do setor AlternativeData.org. Um dos participantes do evento em Nova York foi Thasos Group, que vende análises de localização de telefones celulares para fundos de hedge que monitoram a saúde de redes de varejo e shoppings.

"Os shoppings acabaram se tornando um bom indicador para as vendas no varejo", disse o fundador Greg Skibiski, que observou que a informação previu a queda inesperada de dezembro, para o valor mais baixo em nove anos, e a recuperação de janeiro.

Fidelity Investments, Point72 Asset Management e Neuberger Berman estão entre as gestoras de recursos que compram dados alternativos e empregam cientistas de dados e quantitativos com o intuito de obter vantagem na previsão de movimentos do mercado.

Longe de Wall Street, as autoridades em Washington tentam acompanhar o ritmo. Historicamente, as agências governamentais dependeram de pesquisas com empresas e famílias para elaborar indicadores importantes. Mas algumas "não gostam de preencher pesquisas", disse Jain. "Então, simplesmente não respondem."

Fontes complementares

Outras fontes podem complementar os relatórios oficiais, que continuam sendo a base da medição econômica, embora as novas informações precisem ser cuidadosamente verificadas para garantir a continuidade.

"Os métodos tradicionais para coletar dados de empresas e famílias enfrentam desafios crescentes", segundo um relatório de coautoria do vice-diretor do Departamento de Censo dos EUA, Ron Jarmin, apresentado em uma reunião do Escritório Nacional de Pesquisa Econômica. "Alguns desses desafios são a queda das taxas de resposta para pesquisas, os custos crescentes dos modos tradicionais de coleta de dados e a dificuldade de acompanhar as rápidas mudanças na economia. A digitalização de praticamente todas as transações do mercado oferece o potencial de reelaborar os principais indicadores econômicos nacionais."

Repórteres da matéria original: Saijel Kishan em N York, skishan@bloomberg.net;Jeff Kearns em Washington, jkearns3@bloomberg.net