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Para a Boeing, 737 Max 8 "não é adequado" para certos aeroportos

Anita Sharpe

11/04/2019 15h48

(Bloomberg) -- Antes do acidente com o avião que partiu da Etiópia no mês passado, a Boeing já havia declarado em um documento jurídico que a versão maior e mais atual do 737 não poderia ser usada "em aeroportos em locais considerados 'altos/quentes'".

Localizado a uma altitude de 2.333 metros, o Aeroporto Internacional Bole, emAdis Abeba, se encaixa nessa categoria. Em lugares altos, os aviões precisam de pistas mais longas e velocidades maiores para decolar. A altitude do aeroporto na Etiópia não foi mencionada como fator que contribuiu para a queda do voo 302 e é provável que não tenha causado a tragédia, mas pode ter agravado a situação porque o desempenho das aeronaves piora em altitudes maiores, explicou um piloto de 737 que trabalha em aeroportos com essa característica, como o de Denver, nos EUA. Ele não tem autorização para falar com a imprensa e pediu anonimato.

Informações divulgadas na semana passada sobre o voo da Ethiopian Airlines indicaram que os pilotos não reduziram a velocidade do 737 Max 8 após a decolagem, o que deveriam ter feito. O relatório preliminar afirma que o sistema de proteção contra estol (perda de sustentação) empurrou a parte dianteira do avião para baixo após dois minutos de voo por causa do mau funcionamento de um sensor. Os pilotos tentaram controlar a aeronave, que se dirigiu ao solo a uma velocidade de 925 km/h.

"Quanto mais rápido o avião se move, o ar faz mais força sobre as asas e superfícies de controle, o que exige mais força por parte dos pilotos" para puxar a coluna de controle, disse Robert Mark, piloto comercial e editor sênior da Flying Magazine.

A Boeing citou o desempenho do 737 Max 8 em um caso apresentado à Comissão Internacional de Comércio dos EUA em 2017. A Boeing argumentou que a concorrência desleal da Bombardier - que derrotou a Boeing na disputa por uma grande encomenda de aeronaves pela Delta Air Lines - ameaçava o 737-700 e o Max 7, que são seus menores jatos de um corredor. A fabricante de aviões tentou preservar o mercado para as linhas 700 e Max 7 usando como argumento as limitações do Max 8.

Um porta-voz da Boeing afirmou que Adis Abeba pode receber grandes aviões porque tem pistas compridas.

'Aeroportos desafiadores'

A Boeing declarou em um documento apresentado durante o litígio que o "737 Max 7 tem recursos melhores de performance em aeroportos desafiadores. Em especial, o 737 Max 7 pode servir determinados aeroportos 'quentes/altos' e tem maior flexibilidade para operar em aeródromos restritos".

Trechos do documento que citam diversos aeroportos dessa categoria foram cobertos para preservar a confidencialidade. Porém, o texto afirma que o Max 7 pode trabalhar neles e as versões Max "8, 9 e 10 não podem".

"Versões maiores do 737 não podem ser usadas em aeroportos em locais considerados 'altos/quentes'", afirmou o documento. Determinados aeroportos nos EUA não são adequados ao Max 8 "devido a uma combinação de pistas curtas, elevação, temperatura, umidade e outras condições ambientais".

Segundo o consultor de aviação Bob Mann, as companhias aéreas geralmente usam uma versão menor e mais antiga do jato da Boeing, o 737-700, em altitudes maiores porque esse avião costuma subir de modo mais eficaz que o Max 8.

O desempenho de qualquer aeronave se deteriora em altitudes altas ou no calor e todos os pilotos levam isso em conta antes da decolagem, disse Steve Wallace, ex-diretor da divisão de investigação de acidentes do órgão federal de aviação do governo americano (FAA).

--Com a colaboração de Michael Sasso e Margaret Newkirk.