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Guerra comercial agrava crise financeira de agricultores dos EUA

Mike Dorning

14/05/2019 08h17

(Bloomberg) -- Agricultores americanos, que estão entre os defensores mais leais de Donald Trump, enfrentam um crescente problema financeiro diante da guerra comercial do presidente com a China e o risco de que o prejuízo dure mais do que o conflito.

O impasse comercial com a China aumenta a pressão causada por cinco anos de desvalorização dos preços das commodities e perdas trazidas pelas enchentes na primavera. E, enquanto a disputa se arrasta, a China fortalece relações com fornecedores concorrentes, e agricultores de outros países reorientam as operações para atender aos mercados chineses.

Entre os mais atingidos e mais vulneráveis à contínua tensão estão os produtores de soja em todo o cinturão de grãos dos Estados Unidos. Os contratos futuros de soja caíram na segunda-feira para o nível mais baixo em mais de uma década e acumulam queda de 20% nos últimos 12 meses.

É um duro golpe para os eleitores do campo que votaram em Trump. Na eleição de 2016, Trump venceu em oito dos dez estados com a maior produção de soja, todos na região Centro-Oeste. Iowa, o segundo maior produtor de soja do país depois de Illinois e antes um reduto eleitoral do Partido Democrata, deu mais votos aos republicanos em 2016, mas a preferência poderia ser facilmente revertida.

Alguns líderes do setor agrícola criticaram duramente a mais recente escalada tarifária, embora associações rurais tenham sido cautelosas em culpar Trump diretamente, devido à sua popularidade entre a população do campo.

"Washington fez outro erro de cálculo, e a subsistência de agricultores e comunidades que o governo apoia está ameaçada", disse Lynn Rohrscheib, presidente da Illinois Soybean Growers, que representa 43 mil agricultores no estado, em comunicado na segunda-feira. "Os produtores de soja de Illinois enfrentam desafios cada vez maiores sem um acordo. Não vemos um ponto final."

A sensação de perigo ficou evidente no anúncio do presidente na sexta-feira, em conjunto com novas tarifas sobre produtos chineses em um plano pouco detalhado para ajudar os agricultores, com um pacote de US$ 15 bilhões além dos US$ 12 bilhões de ajuda anunciados no ano passado. O secretário de Agricultura dos EUA, Sonny Perdue, disse que está elaborando um plano que deve ser apresentado ao presidente dentro de "alguns dias a algumas semanas".

Republicanos da bancada rural alertam que a paciência está acabando, embora evitem críticas ao presidente.

"Eu diria que a comunidade rural está no limite da solidariedade antes de uma mudança de postura", disse Roy Blunt, senador do Partido Republicano em Missouri. "Mas esperamos que o presidente chegue a uma conclusão em breve."

No entanto, na visão de alguns especialistas, Trump não deve perder o apoio dos fazendeiros tão cedo. "Poderia haver alguma erosão do apoio de Trump na base rural do eleitorado", mas a maior parte deles vai "ficar com Trump", disse Mack Shelley, professor de ciência política da Universidade Estadual de Iowa.

A guerra comercial já repercute no setor agrícola dos EUA: as exportações do segmento para a China caíram de US$ 19,6 bilhões em 2017 para US$ 9,2 bilhões no ano passado. No geral, a renda agrícola dos EUA encolheu 16% no ano passado, para US$ 63 bilhões, cerca de metade do valor visto em 2013.

--Com a colaboração de Lydia Mulvany, Isis Almeida, Mario Parker e Steven T. Dennis.

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