PUBLICIDADE
IPCA
0,86 Out.2020
Topo

Petróleo a US$ 100 negativos não é impossível com tanques cheios

Plataforma de petróleo na Baía de Guanabara, Rio de Janeiro - Pilar Olivares
Plataforma de petróleo na Baía de Guanabara, Rio de Janeiro Imagem: Pilar Olivares

Javier Blas

22/04/2020 09h31

Em órbita a centenas de quilômetros acima da Terra, os satélites Sentinel-1 mostram por que a cotação do petróleo nos EUA caiu abaixo de zero e por que grande parte do mundo pode ir pelo mesmo caminho.

O satélite recebe sinais de radar vindos dos enormes tanques de metal que armazenam petróleo, e esses dados são usados para calcular a quantidade de petróleo bruto estocado. A mensagem que retorna é alarmante: a capacidade de armazenamento de petróleo está quase esgotada.

É algo inédito, e o mercado apenas começa a avaliar o significado disso. Especialistas dizem que o espaço para armazenar petróleo pode acabar em questão de semanas. Como resultado, a cotação do petróleo pode cair para perto de zero em muitas partes do mundo e, em alguns casos, os preços poderiam se tornar negativos.

Florian Thaler, da Oilx, empresa de pesquisa que usa dados de satélite, diz que a capacidade global de armazenamento dos tanques pode se esgotar "no fim de maio ou começo de junho".

O caos no mercado de petróleo dos EUA na segunda-feira pode dar pistas sobre o cenário global, caso outros tanques comecem a encher. Também mostra que o mercado deve antecipar o pico de armazenamento, em vez de esperar para despencar quando o limite for ultrapassado. Alguns produtores de petróleo reformularam contratos para impedir que os preços entrem em território negativo.

Na terça-feira, a onda de vendas continuou. Os contratos futuros do petróleo tipo Brent para entrega em junho perderam 15%, sendo negociados perto de US$ 16 o barril, o menor nível em quase 21 anos. Os principais fluxos de petróleo da Europa e da África, que são negociados com desconto em relação à referência Brent, serão vendidos abaixo de US$ 10 e até por menos de US 5 em alguns casos.

"Claramente, passamos por uma crise de gestão de mercado em larga escala e diária", disse Paul Sankey, um analista de petróleo veterano do Mizuho Bank, que acertou a previsão sobre preços negativos do petróleo feita em março. Ele foi ainda mais longe na terça-feira: "Atingiremos US$ 100 o barril negativos no próximo mês? É bem possível".

O mercado dos preços negativos não tem piso e, depois desta semana, tudo é possível. Uma certeza é que os dados de satélite mais recentes mostram uma enorme saturação. Cerca de 50 milhões de barris de petróleo são armazenados semanalmente, o suficiente para abastecer Alemanha, França, Itália, Espanha e Reino Unido juntos.

Na Índia, a capacidade de armazenamento de combustível das refinarias atingiu 95%, de acordo com autoridades de três processadoras estatais. A Nigéria cortará a produção porque não tem onde guardar petróleo, disse Mele Kyari, responsável pela estatal de petróleo NNPC, em entrevista a um jornal local.

As refinarias de petróleo não têm comprado petróleo bruto porque não há demanda por gasolina. Alguns produtores têm reduzido a produção, mas outros continuam bombeando. Mesmo alguns dólares são melhores do que nenhum para empresas endividadas. O petróleo não tem para onde ir, exceto para o armazenamento.

Os dados de satélites podem até estar subestimando a quantidade de armazenamento realmente disponível. Muito espaço vazio já foi alugado por traders.