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Mudança climática é difícil de precificar em mercado de dívida

Ruth Liew

18/05/2020 15h08

(Bloomberg) -- Quando vinhedos ingleses começaram a produzir espumante que aficionados elogiavam como rival do champanhe, Jack McIntyre tomou nota.

"De repente, a Inglaterra cultivava uvas que normalmente crescem em climas mais quentes", disse McIntyre, investidor veterano há três décadas que trabalha na Brandywine Global Investment Management, em Filadélfia. "Sem dúvida, as temperaturas estão subindo. Como você precifica adequadamente mudanças climáticas nos mercados de juros, ainda não tenho resposta."

Ele não está sozinho.

Em todos os continentes, investidores de títulos tentam responder o que estrategistas do Deutsche Bank chamaram de "questão da nossa era": quanto as sociedades estão dispostas a sacrificar de crescimento econômico para combater a mudança climática e o que isso significa para o mercado global de US$ 31 trilhões de dívida soberana.

"É, francamente, muito difícil responder", disse Shamik Dhar, economista-chefe do BNY Mellon Investment Management, com sede em Londres. "Alguns dos piores aspectos da mudança climática não foram precificados."

As apostas nunca foram tão altas. Governos vendem dívida a um ritmo vertiginoso para financiar estímulos titânicos, enquanto investidores estão desesperados por retorno em um mercado onde quase US$ 12 trilhões de dívidas possuem rendimento negativo. Isso significa que mesmo países com nota de crédito mais baixa podem vender títulos com vencimento em um século, um prazo muito além de qualquer modelo testado de risco climático.

Mesmo a Argentina, com classificação junk e foco de mudança climática, conseguiu vender títulos de um século nos últimos anos.

Embora alguns investidores tenham conseguido refletir a mudança climática em ações e títulos corporativos, os efeitos a longo prazo do aquecimento global e outros fatores na economia dificultam a aplicação dos mesmos modelos em títulos públicos.

"Não temos dados suficientes para avaliar o risco no nível macro em um horizonte de longo prazo", disse Shaun Roache, economista-chefe para Ásia-Pacífico na S&P Global Ratings. "Não sabemos a magnitude do próximo choque, nem quão grande será o próximo incêndio florestal ou seu impacto na economia", disse Roache, que anteriormente era macroestrategista do fundo soberano de Cingapura Temasek Holdings. "Quando os mercados acham difícil precificar o risco, eles simplesmente não precificam."

Especialistas apontam para títulos verdes - dívida levantada por empresas e governos especificamente para projetos ambientalmente conscientes - ou títulos climáticos como formas de mitigar o risco de catástrofe climática.

Mas, mesmo diante do crescimento recorde em 2019, com vendas de títulos verdes acima de US$ 217 bilhões, o valor é uma gota no oceano no mercado de dívida global. Está muito aquém de atender às necessidades atuais de investidores e não os ajuda a precificar o risco climático em títulos soberanos.

A mudança climática está no radar dos maiores bancos centrais do mundo, embora nem todos concordem em abordá-la. A pandemia de coronavírus também adiou as tentativas de enfrentar a mudança climática: o Banco da Inglaterra disse neste mês que vai adiar testes de estresse climático em instituições financeiras para focar no surto.

©2020 Bloomberg L.P.

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