Tensões na Opep e crise chinesa intensificam queda de preço do petróleo

Guillermo Ximenis.

Londres, 10 jan (EFE).- As crescentes tensões dentro da Opep, que dificultam um corte na produção no curto prazo, e as turbulências da economia chinesa, que dispararam os temores sobre o futuro da demanda, intensificaram uma sangria nos preços do petróleo, queda que os analistas ainda não veem fim.

O confronto diplomático entre Arábia Saudita e Irã, principais poderes sunita e xiita no Oriente Médio, respectivamente, e dois dos maiores produtores da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), desencadeou esta semana uma nova queda nos preços, acelerada pelo caos nas bolsas chinesas, cujas negociações foram suspendidas duas vezes.

A conjunção desses dois fatores colocou o petróleo em níveis vistos pela última vez em meados de 2004, com uma queda de perto de 11% entre segunda e sexta-feira, e somou -70% no último ano e meio.

A execução de um clérigo xiita na Arábia Saudita, que acendeu de novo o conflito no Oriente Médio, coincide com os planos do Irã para voltar a exportar petróleo e gás quando forem levantadas as sanções por seu programa nuclear, nos próximos meses.

Grande parte do um milhão de barris diários que o Irã deve acrescentar à oferta global estará dirigida à Ásia, mercado dominado até há pouco tempo pela Arábia Saudita, mas onde produtores como Iraque e Rússia começam a ganhar terreno.

Com um novo concorrente dentro da Opep, e diante do possível arrefecimento da economia chinesa, que ameaça reduzir a demanda, a Arábia Saudita dificilmente aceitará uma redução do teto de produção, o que aumentaria os preços, mas poria em risco sua fração de mercado.

Ao contrário, alguns analistas acreditam que a Arábia Saudita poderia inclusive utilizar a oferta de petróleo como mais uma arma contra o Irã, e voltar a ampliar seu bombeamento para que os baixos preços diminuam a atração dos campos de petróleo iranianos para as petrolíferas estrangeiras.

"Nenhuma das partes vai querer ceder", disse à Agência Efe Michael Hewson, analista chefe da consultoria CMC Markets, para quem "neste momento não há apetite algum para cortar a produção". Ele acredita que os preços podem continuar caindo a curto prazo até níveis próximos aos US$ 25 o barril.

Só se as tensões entre esses países derivarem em um - improvável - conflito militar, os analistas veem possibilidades de os preços serem jogados para o alto.

"Se o conflito chegasse a conter fisicamente a produção, isso poderia levar a uma alta dos preços. No entanto, neste momento há um enorme excesso de oferta nos mercados, por isso o conflito entre Arábia Saudita e Irã teria que ser mais grave do que os de ocasiões anteriores para que chegar a influenciar dessa forma", assinalou David Elmes, chefe da Rede de Pesquisa Global em Energia da Universidade britânica de Warwick.

Além desse cenário hipotético, o retorno do Irã aos mercados contribuirá no curto prazo para manter os preços baixos, mas com o tempo servirá para separar do mercado produtores externos à Opep, cuja produção é cara demais na conjuntura atual, o que, paradoxalmente, poderia beneficiar tanto Arábia Saudita quanto Irã.

A queda de braço até agora dentro da Opep, liderada pela Arábia Saudita, e com a oposição de seus membros mais modestos, como Venezuela, Equador, Nigéria, serviu para pôr em dificuldades a nascente indústria do xisto americano, que ameaçava fazer sombra aos cartéis tradicionais do petróleo.

O auge do "fracking" (hidrofraturação) e de outras técnicas de extração não tradicionais deram entrada na última década para várias companhias de tamanho modesto para o mercado do petróleo, principalmente nos Estados Unidos.

Essas empresas, sustentadas em sua maior parte por créditos assinados quando os preços estavam altos, passam agora por graves dificuldades, enquanto as grandes petrolíferas, ainda sem tanto aperto, se viram obrigadas a reduzir drasticamente seus investimentos.

Esse cenário ajudará em algum momento a reduzir a oferta global sem necessidade de a Opep dar o braço a torcer reduzindo seu bombeamento, o que começaria a elevar os preços, que podem levar anos para se recuperar, segundo os especialistas.

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