Canal do Panamá disputa água com urbanismo e mudança climática

Elisa Vásquez.

Cidade do Panamá, 24 jun (EFE).- A mudança climática e o rápido e desordenado crescimento urbano do Panamá disputam com o Canal interoceânico seu recurso mais precioso, a água, cuja demanda aumenta com a ampliação da rota que será inaugurada no domingo que vem.

Além de servir para a passagem de navios, a bacia do Canal deve abastecer 55% da população do país, uma tarefa que em 2015 se transformou em um verdadeiro desafio, quando a pior seca registrada pela Autoridade do Canal do Panamá (ACP) em um século chegou ao seu auge. Os baixos níveis dos lagos artificiais que concentram a água levaram à restrição dos navios que passaram pela via centenária em maio, e obrigarão a inaugurar a ampliação, no próximo domingo, com um nível de profundidade menor do que será oferecido normalmente.

A dilatação da via precisaria de 97% mais água que o Canal centenário, e nos próximos 35 anos os moradores da área metropolitana, que hoje somam 1,7 milhão, aumentarão em 1 milhão, de acordo com um estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O crescimento demográfico da região foi tão rápido que a projeção que a ACP esperava em 2025 já tinha sido alcançada em 2012, afirmou à Agência Efe o vice-presidente executivo de Ambiente, Água e Energia da ACP, Carlos Vargas.

Mas, a expansão desordenada da capital, epicentro de um país com o maior crescimento econômico da América Latina na última década - uma média anual de 8%, impulsionado em grande parte pelo setor da construção -, fez com que, por exemplo, 50% da água que saia do aqueduto se perca no caminho.

"O desenvolvimento urbano não planejado ou mal planejado é a potencial ameaça ao Canal, porque a região interoceânica continuará crescendo e demandando água", adverte a diretora da Associação Nacional para a Conservação da Natureza (Ancon), Rita Spadafora.

De fato, o Instituto de Aquedutos e Esgotos (Idaan) está licitando três novas estações potabilizadoras da mesma fonte, que se somarão às nove existentes.

"Isso nos preocupa", admite Vargas, que assegura que duas destas estações poderiam não ser necessárias caso os vazamentos fossem reduzidos em 10%, de acordo com uma consultoria feita para o IDAAN.

Ciente destes desafios, desde que o Canal passou para as mãos panamenhas, em 2000, a ACP iniciou seus esforços para evitar a escassez. A profundidade de toda a rota aumentou para permitir uma passagem maior de carga, foram elevados os níveis do Lago Gatún, que abastece às vertentes do Caribe e do Pacífico e o reuso de água nos compartimentos de embarque através das tinas de reutilização foi defendido.

O tamanho da ampliação demandaria usar até 2,4 vezes mais água do que no Canal centenário, mas as 18 tinas (nove em cada setor) permitem economizar 60% dessa foz, o que significa que os novos compartimentos de embarque utilizarão apenas 97% do que usam as atuais, explica Vargas.

"Todos estes projetos garantem água para o Canal, a ampliação, a produção de energia e o consumo humano", garante o especialista, sem menosprezar a mudança climática, que trará fenômenos "mais frequentes e mais intensos".

Para se precaver, a ACP realiza uma série de programas de incentivos para que o uso das terras da bacia seja otimizado.

"A conservação do ecossistema e a recuperação de áreas degradas são vitais para garantir a água", lembra Rita Spadafora, que defende a articulação de diferentes organismos de Estado em uma estratégia de preservação dos recursos do Canal, entendida como a isca da economia panamenha.

Nesse espírito, as autoridades que trabalham em um plano de segurança hídrica para 2050, entre elas a ACP, irão propor o desenvolvimento de fontes de água alternativas para a capital e o resto do país, adianta Vargas à Efe.

De toda a água que passou pelo Panamá em 2014, só 25,8% foi usada, e dessa porção, 1,9% foi para o transporte - onde se inclui o Canal -, enquanto 0,33% foi destinada aos consumos humano e industrial, segundo dados oficiais.

O ano de 2016 trouxe fortes chuvas que anunciaram o fim de um prolongado El Niño, suficientes para que em junho fossem eliminadas as restrições no Canal. Em três ou quatro meses, conforme a previsão de Vargas, se oferecerá a água ideal na ampliação (50 pés), e as previsões hidrometeorológicas da ACP indicam que os fluxos crescerão em abundância.

Mas os panamenhos não poderão fiar-se a esta etapa, que será mais uma entre os ciclos radicais que tem preparados a mudança climática. EFE

ev/cdr

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