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Inflação e escassez: o saldo do fechamento da fronteira Venezuela-Colômbia

Gonzalo Domínguez Loeda.

San Antonio del Táchira (Venezuela), 16 ago (EFE).- Inflação, escassez de produtos e quedas nas vendas: esse é o saldo do fechamento das fronteiras entre Venezuela e Colômbia, que foram reabertas neste final de semana.

"Por um xarope cheguei a pagar 2 mil bolívares (cerca de US$ 630), antes não chegava a 300 bolívares (cerca de US$ 95), mas eu precisava", disse à Agência Efe Robinson Pérez.

Esse aumento dos preços começou em 19 de agosto do ano passado, quando o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, ordenou o fechamento da fronteira entre San Antonio del Táchira com a cidade colombiana de Cúcuta, uma das mais ativas do continente, para combater supostos grupos paramilitares que operam na região.

Em seguida foi fechado o restante dos 2.219 quilômetros de fronteira comum, o que cerceou a vida cotidiana de uma região na qual a fronteira não é mais que um traço no mapa, alheio à realidade de seus habitantes, que desenvolvem sua vida em ambos os países.

A situação piorou devido à escassez que, segundo pôde constatar a Efe, continua nos supermercados venezuelanos, onde encontrar alimentos básicos como açúcar, azeite, farinha ou leite é uma missão impossível.

Em um desses supermercados, Pérez confessou que eles buscam "os caminhos verdes", trilhas irregulares pelas quais se pode atravessar à Colômbia, para comprar esses alimentos "porque temos uma família e temos que zelar pelo seu bem-estar".

Se não há esta possibilidade, Pérez explicou que devem recorrer aos produtos colombianos trazidos por aqueles que conseguiram atravessar o rio Táchira, que separa os dois países de fato.

Diante desta situação, cerca de 60 mil pessoas aproveitaram o primeiro dia de abertura da fronteira para ir à Colômbia comprar os bens de primeira necessidade, o que gerou longas filas em San Antônio.

Uma das mulheres que viajou à Cúcuta foi Yirley Cordero, que tendo um filho estudando na Colômbia viu as dificuldades de sua vida cotidiana se multiplicarem.

"Foi um ano muito feio (...) já que quando eles tiveram que ir a alguma atividade no fim de semana não puderam", lamentou Cordero.

Para permitir a passagem dos estudantes, os dois países concordaram com a abertura de um corredor humanitário que aliviou parte das necessidades das duas cidades, San Antonio e Cúcuta, que vivem como uma só.

Essa relação tão fraternal faz com que muitos dos cidadãos tenham parentes do outro lado da fronteira, que neste ano foram impedidos de se encontrar.

A situação mais dramática vivida durante este ano, no entanto, foi a dos cidadãos que viram os remédios que necessitavam desaparecer das prateleiras das farmácias venezuelanas e não puderam recorrer às farmácias colombianas.

"Sou diabético e não tenho os remédios, nada disso é possível encontrar. Tenho que ir à Cúcuta para poder me sustentar", declarou à Efe Ángel Enrique Borrego, morador da cidade de San Cristóbal, que também aproveitou o primeiro dia para ir à Colômbia.

A situação que viveram durante este ano na região foi de "emergência humanitária" para Borrego, que classificou os últimos 12 meses como "um ano muito crítico" no qual os venezuelanos têm "passado fome e necessidades".

A situação para o comércio, alimentado em boa medida pelos cidadãos colombianos que chegam à região, também foi crítica.

Apesar de os comerciantes estarem reticentes em falar com a imprensa e rejeitarem fazê-lo quando há uma câmera ligada, eles afirmam que houve entre 50 e 60% de queda no volume das vendas.

Com a reabertura, a rua onde se inicia a passagem fronteiriça de San Antonio, totalmente cheia de lojas de todo tipo, pareceu readquirir parte de seu brilho e esperança.

O ano que fica para trás representou um problema especial para conseguir autopeças, tanto que algumas lojas dedicadas à venda desses produtos em San Antonio permanecem ainda fechadas.

Alfonso Martínez, um dos taxistas da cidade, explicou que os cidadãos se viram obrigados a ir à Colômbia em muitas ocasiões cruzando de maneira irregular a fronteira.

Após o primeiro fim de semana de reabertura progressiva da fronteira, que por enquanto só permite pedestres, San Antonio e as cidades próximas começam a readquirir sua cor e sua vida habitual, mas seguem à expectativa e com a sombra sobre suas cabeças do ano mais difícil de suas vidas.

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