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Argentina se divide ao analisar efeitos do acordo entre Mercosul e UE

29/06/2019 18h27

Buenos Aires, 29 jun (EFE).- Diferentes vozes empresariais e econômicas da Argentina se dividiram neste sábado ao avaliar o acordo de livre-comércio firmado ontem por Mercosul e União Europeia (UE) após quase 20 anos de negociações.

Enquanto o presidente da Argentina, Mauricio Macri, compartilhava um áudio emocionado enviado pelo chanceler Jorge Faurie para informá-lo sobre o acordo, representantes da indústria criticaram o governo e temem pelo futuro do país após a entrada em vigor das medidas anunciadas pelos dois blocos.

É o caso da Associação Nacional de Pequenos e Grandes Empresários, que usou as redes sociais para expressar que o acordo é mais um motivo para "se chorar de tristeza" na Argentina.

"As pequenas e médias empresas são as que receberão um golpe de misericórdia com essas políticas e ficarão de fora do mercado, inclusive no âmbito de compras públicas. As únicas beneficiadas são as grandes multinacionais e o complexo agroexportador, em detrimento do trabalho e da índustria local", disse a entidade.

Por outro lado, o dirigente da União Industrial da Argentina, José Urtubey, elogiou o acordo e pediu para que o governo esclareça pontos do pacto e combata a desinformação que está sendo divulgada pela oposição, já visando as eleições presidenciais de outubro.

"Em termos geopolíticos, falar de acordos entre diferentes mercados é algo positivo. Mas devo dizer que carecemos de todas as informações e por isso não conhecemos a letra miúda do acordo. Nós não estarmos informados já é um problema. Não sabemos a posição do governo a respeito das políticas tarifárias", disse Urtubey.

O presidente da Coordenação das Indústrias de Produtos Alimentícios, Daniel Funes de Rioja, também comemorou o acordo, mas fez a mesma ressalva que Urtubey. Quer ver os detalhes do acordo para saber como seu setor será impactado pela abertura comercial.

"A UE tem muita estabilidade, com uma moeda única e baixos níveis de inflação, de gasto público e de pressão fiscal. Partimos de uma assimetria. É preciso estabilidade macroeconômica e previsibilidade sobre as regras do jogo para corrigir isso", analisou.

Já o secretário de Comércio Exterior da Confederação da Argentina das Médias Empresas, José Luis Lopetegui, disse que o pacto com os europeus tem pontos positivos e negativos. De qualquer forma, ele avalia que a aproximação servirá para tirar a região do isolamento.

"Poderemos negociar com 30% do PIB mundial, uma alta de 20% em relação a antes, mas ainda é pouco se compararmos ao Chile, que tem acordos com 80% (da economia global)", ressaltou.

O presidente da Sociedade Rural da Argentina, Daniel Pelegrina, destacou a necessidade de os produtores sul-americanos e europeus estarem em igualdades de condições.

"O produtor europeu recebe subsídios para poder continuar produzindo, o contrário do que ocorre com o produtor argentino, que é cobrado pelos direitos de exploração e sofre com retenções. Isso vai ter que ser equilibrado", explicou Pelegrina.

Por sua vez, o diretor do Centro de Ciências Econômicas da Argentina, Hernán Letcher, previu que o acordo promoverá a desindustrialização do país.

"O acordo comercial vai debilitar o tecido industrial da região. A Argentina se limitará a ser um fornecedor internacional de matérias-primas, sem a possibilidade de diversificar suas exportações", disse o especialista.

No entanto, para o economista Claudio Zuchovicki, o acordou deu "nova vida" ao Mercosul. "O bloco já não fazia sentido", disse. EFE