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Iata: Indústria aérea deve 'queimar' US$ 77 bi de caixa no segundo semestre

Segundo trimestre foi o mais grave para o setor, que "queimou" US$ 51 bilhões para manter negócio funcionando - Hakan Nural/Anadolu Agency via Getty Images
Segundo trimestre foi o mais grave para o setor, que "queimou" US$ 51 bilhões para manter negócio funcionando Imagem: Hakan Nural/Anadolu Agency via Getty Images

Cristian Favaro

São Paulo

06/10/2020 10h56

Diante da grave crise provocada pela pandemia de covid-19, o setor aéreo deve "queimar" um total de US$ 77 bilhões do caixa no segundo semestre de 2020, estimou a Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata, na sigla em inglês). "Infelizmente, as aéreas não conseguiram reduzir os custos na mesma velocidade em que as receitas caíram", disse Brian Pearce, economista-chefe da Iata, a jornalistas, na manhã de hoje.

O economista explicou que a projeção de "queima" de caixa vem com a recuperação menos rápida esperada para o fim deste ano. A Iata estima que a demanda global (medida pela relação passageiro-quilômetro transportados, ou RPK, no jargão do setor) deve apresentar queda de 68% em dezembro na comparação anual, contra uma projeção de queda de 55% feita em julho para o último mês deste ano.

O segundo trimestre foi o mais grave para o setor, que "queimou" US$ 51 bilhões para manter o negócio funcionando. "No trimestre, a queda nas receitas foi de cerca de 80%, infelizmente os custos caíram na casa dos 50%", disse. Ele destacou que alguns custos caíram de forma mais rápida, como os de combustível, mas o gasto com pessoal, por exemplo, é mais resiliente.

Segundo a associação, o setor tem em média 8,5 meses de caixa para "queimar" diante do cenário projetado para o segundo semestre. O calculo levou em consideração a posição de liquidez média das companhias no fim do segundo trimestre. "Com isso, as empresas teriam recursos para se sustentar até o final do primeiro trimestre de 2021", explicou o economista.

O cenário para 2021 não é tão melhor e o setor espera fechar o ano que vem com uma "queima" de recursos entre US$ 50 bilhões e US$ 70 bilhões. Em termos de geração de caixa, as aéreas devem voltar para o azul apenas em 2022. "Isso dá uma escala de quanto as aéreas vão ter de captar, seja com os governos ou no mercado", disse Pearce.

Levantar recursos no mercado não é uma tarefa fácil para o setor aéreo hoje em dia. Enquanto o índice FTSE All-World (que cobre mais de 3,5 mil empresas em cerca de 50 países) mostra que as ações das empresas de forma geral já retomaram os níveis de antes da pandemia, as ações das aéreas no mundo ainda estão 40% abaixo dos níveis pré-pandemia.

O diretor-geral e CEO da Iata, Alexandre de Juniac, destacou que os governos no mundo precisam se movimentar para evitar falências na indústria aérea. "A crise está mais longa e mais profunda do que qualquer um poderia imaginar". Apesar do pedido, Juniac saudou os governos de forma geral por terem liberado cerca de US$ 160 bilhões em recurso ao setor. "Sem esse suporte, teríamos visto muito mais falências e demissões no mundo".

Os recursos, entretanto, estão acabando. "Sustentar a indústria é um investimento que vale a pena fazer. O setor não está pronto para atravessar esta crise sozinho", disse.

Na América Latina o cenário é ainda mais grave, já que a região recebeu menos de 1% desse montante. Duas aéreas de grande porte da América Latina, Avianca e Latam, entraram em recuperação judicial nos Estados Unidos e conseguiram levantar via DIP (mecanismos para captação na recuperação judicial dos EUA) cerca de US$ 4,5 bilhões com credores e acionistas. Nada de ajuda dos governos até hoje.