Forward guidance do BC é atividade de alto risco, mas até agora 'se pagou', afirma Galípolo

A decisão de dar sinalizações sobre o rumo da política monetária é uma atividade de alto risco, pode cobrar um preço num eventual momento de retirada, mas até agora se mostrou acertada, na opinião do diretor de Política Monetária do Banco Central, Gabriel Galípolo. "Sempre brinco que forward guidance é um esporte de alto risco para autoridades monetárias de economias emergentes, pois tem um custo, é arriscada, mas até agora é possível dizer que ela se pagou", argumentou.

Na avaliação do diretor, por meio da comunicação do BC e da transparência que acompanha o forward guidance, houve a colaboração para um cenário de menor volatilidade e para uma ancoragem tanto das expectativas da pesquisa Focus quanto na curva de juros do mercado.

"Isso colaborou num período de tanta volatilidade, com questões externas e por outras questões aqui de incerteza", disse ele, repetindo se tratar de uma estratégia que "valeu a pena".

Durante live realizada pela Bradesco Asset para debater os rumos da política monetária brasileira, Galípolo ponderou que, no momento que for necessário retirar o uso do instrumento, pode-se pagar um preço.

"Verdade, isso pode acontecer, mas se a gente tiver alguma sorte, pode ter também uma ferramenta adicional do ponto de vista da comunicação da política monetária", afirmou Galípolo, em conversa conduzida pelo economista-chefe da Bradesco Asset, Marcelo Toledo.

Estratégia

O diretor comentou que o BC se aproveitou do ritmo encontrado (para afrouxamento da política monetária) para ir ajustando a atuação e ganhando tempo para acompanhar os desdobramentos e reações da economia.

Ele citou o mês de março como um ponto relevante sobre as perspectivas para a política monetária norte-americana, a discussão sobre como seria o comportamento fiscal para 2024 e como isso pode afetar as expectativas e a inflação corrente e um Copom subsidiado por três medidas de IPCA.

"Existe um guidance, mas é muito importante a gente lembrar que é preciso se confirmar o cenário, ou seja, acima do guidance, estamos 'data dependents'. Este é o Norte realmente da política monetária", afirmou.

Taxa terminal

O diretor de Política Monetária do Banco Central enfatizou ainda que as revisões de preços e das expectativas têm sido positivas para 2024 e para a taxa terminal de juros. "Isso reforça uma ideia de que a estratégia de comunicação pode estar indo em um bom caminho", afirmou.

Segundo ele, essa avaliação inibe um pouco a ideia de mudar a forma com que o BC vem apresentando suas análises. "O fato de a discussão no BC não ter se engajado em sinalizar sobre o que era terminal acho que deslocou um pouco o debate, menos sobre o ritmo e mais sobre o que é terminal. Obviamente essa correlação interessa à autoridade monetária", disse.

Galípolo afirmou ser comum que, nos períodos entre o primeiro trimestre e o meio de cada ano, os modelos sejam revisitados e se apresentem estimativas para horizontes mais longos. Isso ocorre, de acordo com o diretor, como fruto da colheita de dados que estão chegando "um pouco mais quentes".

"A gente tem analisado como eventualmente dados de inflação corrente podem ensejar alterações nas expectativas de inflação que ainda seguem parcialmente ancoradas", disse.

A meta de inflação é de 3% e as projeções giram na casa de 3,50%. "Há de se observar como isso (as revisões) há de se comportar à luz de todas as outras coisas", afirmou.