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China não está em crise, diz economista; mercado não entendeu ou está se aproveitando disso

SÃO PAULO - O mercado teve um dia visivelmente histérico nesta quinta-feira (7) depois de uma desvalorização do yuan ao seu menor patamar desde 2001 e uma queda de 7% da bolsa de Xangai, fazendo o segundo "circuit breaker" daquele mercado na semana. Como é de praxe nestas situações, analistas já tomaram os microfones para anunciar a crise da China e um risco sistêmico no mercado. No entanto, o economista do Insper e autor do livro "Economia Chinesa", Roberto Dumas Damas, avisa que não é bem assim. 

Segundo ele, o momento atual não é o de crise alguma, ocorre apenas uma mudança no modelo da economia chinesa. "Não é um descontrole, é uma política pública deliberada de fazer o investimento crescer menos que o consumo", explica. 

Depois de crescer 10% ao ano por décadas baseando todo o avanço em exportações, impulsionadas pelo investimento do governo em infraestrutura e industrialização e usando mão-de-obra barata, a hora é de tomar de volta este esforço da população e trazer um crescimento de maior qualidade para os cidadãos do país. "A China não quer crescer menos, ela precisa dar mais renda para a população tirando dinheiro da produção industrial. Ela está retrocedendo o subsídio que o povo deu aos produtores nos últimos anos". 

A maneira de fazer isso, que já está sendo implementada o economista frisa, é aumentando salários e reduzindo a competitividade em troca de mais renda para o trabalhador. Isso significa, segundo Dumas, que a China não vai mais crescer perto de 10% ao ano, e não só enquanto durar a reformulação. Ele lembra que o chinês não é capaz de consumir tudo o que produz e o mundo tornou-se incapaz de consumir o excedente, então resta a alternativa de produzir menos.  "A primeira coisa que o investidor que quer se proteger da volatilidade tem que fazer é chegar para o analista e falar: qual é a sua expectativa de crescimento da China nos próximos anos? Se ele falar que vai ter uma desaceleração para depois crescer 9% de novo, desconfie. Agora se ele fala de 4,5%, 5%, isso está certo. E é preciso pensar em commodities dentro desta nova realidade", afirma. 

Levando em conta este cenário, Dumas diz que os chineses só irão dar estímulos quando perceberem pelos indicadores macroeconômicos que o pouso suave que eles pretendem fazer está se tornando mais turbulento do que o esperado. Foi isso que motivou a desvalorização de 0,5% do yuan hoje, logo depois de uma série de PMIs (Índices Gerentes de Compras) negativos. "Eles sempre podem fazer uma política fiscal expansionista para ajustar o curso. Mas isso acaba gerando uma grande volatilidade no mercado, porque há quem espere que a China retome o crescimento de antes a cada novo estímulo". 

Quanto à possibilidade do governo chinês "errar a mão" e não conseguir impedir o pouso forçado mesmo com os estímulos, o economista do Insper acredita que é uma hipótese remota. "O governo tem recurso para abrir a torneira dos bancos públicos e fazer muito expansionismo fiscal". Além disso, ele explica que o PCC (Partido Comunista Chinês) tem muito a perder para poder se dar ao luxo de perder o controle. "A última vez que eles erraram culminou no massacre da praça da Paz Celestial em 1989. Economia, política e sociedade estão ligados, então eles não podem perder a mão", avalia. 

Se tudo está tão sob controle assim, por que o "sell-off" de hoje no mercado? Na opinião de Dumas, as quedas se dão por conta de dois tipos de investidores: o desavisado que acha que a China vai voltar a crescer nas taxas de antes e aquele que vende para aproveitar a volatilidade. Este último é o mais perigoso, então cabe ao investidor tomar cuidado com o discurso fácil da crise. A realidade é bem mais complexa que isso. 

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