O exemplo de coordenação econômica na AL que escancarou a "bagunça" do Brasil

SÃO PAULO - Quando o presidente do Banco Central e o ministro das Finanças apareceram juntos na quarta-feira para uma conferência, muitos já previam: algo muito importante estava por vir. Não, não se trata de Alexandre Tombini e Nelson Barbosa, titulares dos cargos no Brasil. E sim dos mexicanos Agustin Carstens e Luis Videgaray.

E eles não decepcionaram. Em um anúncio surpreendente, o BC mexicano elevou inesperadamente sua taxa básica de juros nesta quarta-feira em 0,50 ponto percentual, para 3,75 %, desencadeando um rali na enfraquecida moeda mexicana em meio a promessas do governo de cortar gastos. O Banco Central também interviu diretamente no mercado de câmbio para vender dólares, parte de uma política maior para sustentar o peso, que despencou para novas mínimas nas últimas semanas.

"Este não é o início de um ciclo de aumento da taxa de juros", disse o presidente do BC mexicano. "Foi uma maneira de demonstrar nosso protesto, nossa clara rejeição a estes níveis (do peso ante o dólar)", disse. A mudança na política de intervenções no câmbio marca uma pausa inesperada na preferência do BC mexicano por intervenções baseadas em regras, na primeira vez desde 2009 que a autoridade optou por venda direta de dólares.

Já Luis Videgaray, disse que o governo fará cortes de gastos no orçamento de 2016 de 132 bilhões de pesos (US$ 7,23 bilhões), ou cerca de 0,7% do Produto Interno Bruto do país. Cortes na petroleira estatal Pemex responderão por 100 bilhões de pesos do total, disse.

O anúncio foi visto como uma resposta política decisiva em um cenário de grandes desafios econômicos, o que foi visto com bons olhos pelo diretor de pesquisa econômica do Goldman Sachs para América Latina, Alberto Ramos: "isso deve ajudar a diferenciar positivamente o México em relação a outros países da América Latina".

E continua: "em nossa avaliação,a resposta política forte, coordenada e pró-ativa de hoje está muito bem adaptada ao ambiente atual de incerteza nos mercados financeiros globais e no impacto orçamentário da queda de preços. Esperamos que estas políticas vão ter boa repercussão entre os investidores e analistas, na medida em que reforçam o quadro de política macro de mitigar as preocupações sobre a volatilidade financeira e a sustentabilidade fiscal. Acreditamos que as autoridades vão continuar a acompanhar atentamente a dinâmica do peso e permanecerem prontos para acompanhar os anúncios de política monetária e cambial, se necessário".

Sobre a fala do BC mexicano de que a decisão não deve ser interpretada como o início de um ciclo de aperto monetário, Ramos ressalta que ela está em linha com as comunicações anteriores do BC: os diretores reiteraram que irão acompanhar de perto a evolução de todos os determinantes da inflação a médio prazo e das expectativas durante a calibragem da política monetária, com um foco específico sobre a dinâmica da taxa de câmbio e seu potencial para os preços domésticos. Além disso, os diretores prometeram manterem-se vigilantes sobre a posição relativa da política monetária no México vis-à-vis os EUA, sem perder de vista a evolução do hiato do produto doméstico.

"Com esta linguagem, os diretores preservam a orientação anterior e ordem de importância dos principais determinantes das decisões futuras de política monetária. No geral, talvez mais do que a política do Federal Reserve, será o caminho do peso que irá determinar se e quando haverá altas adicionais", avalia.

Brasil versus México
Não deixa de ser curioso que este anúncio tenha acontecido no mesmo dia de um novo rebaixamento de rating do Brasil pela agência de classificação de risco Standard & Poor's, de BB+ para BB, alertando para desafios políticos e econômicos consideráveis, deixando o País ainda mais longe do selo de bom pagador. A S&P advertiu que pode piorar ainda mais a classificação ao atribuir a perspectiva negativa ao rating. O rebaixamento, disse a S&P, reflete a visão de que o perfil do país enfraqueceu desde setembro, quando a agência tirou o selo de bom pagador do país.

"Os desafios econômicos e políticos que o Brasil enfrenta permanecem consideráveis. Nós agora esperamos um processo de ajuste mais prolongado, com uma correção mais lenta na política fiscal, assim como outro ano de contração econômica acentuada", disse a S&P em comunicado. O Brasil segue enfrentando dificuldades para equilibrar as contas públicas e a meta de superávit primário, equivalente a 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB), é considerada de difícil cumprimento por economistas e até mesmo por membros da equipe econômica.

Neste cenário, o governo discute o tamanho do corte no orçamento e um limite para aumento dos gastos, enquanto busca formas de aumentar a arrecadação em meio às dificuldades para avançar o ajuste fiscal no Congresso. Além disso, há ainda a discussão dentro do governo sobre a criação de bandas para a meta fiscal. A equipe econômica estuda flexibilizar a meta para as contas do governo federal deste ano para permitir um déficit primário (sem levar em conta os gastos com juros) de até 1% do PIB, o equivalente a cerca de R$ 61 bilhões, sendo apenas mais um de diversos cortes seguidos da previsão de superávit. Isso pode ocorrer caso o governo não consiga arrecadar tudo o que espera com receitas extraordinárias, como a volta da CPMF. E, conforme informa a Bloomberg, os investidores em bonds começam a temer que o Brasil não realizará os cortes orçamentários necessários para tirar o país do buraco fiscal.

E, em meio a esse ambiente de forte retração econômica e déficit fiscal, o Brasil sofre com a alta inflação. Apesar das últimas sinalizações do Banco Central indicarem manutenção da Selic em 14,25% por conta do cenário de recessão global, o último Copom (Comitê de Política Monetária) foi marcado por uma comunicação errática do Banco Central.

Após dois meses de sinalização de que iria subir os juros em meio à alta inflação, o BC divulgou na véspera de da reunião do Comitê um comentário sobre a revisão para baixo das previsões do FMI (Fundo Monetário Internacional) para o Brasil e o mundo, o que fez com que as expectativas fossem alteradas na reta final. Defendendo ou não o aumento dos juros, a grande crítica dos mercados e dos economistas foi em relação à mudança no tom do BC, o que corroeu ainda mais a credibilidade da autoridade monetária e levou até a rumores sobre interferência política. Enquanto isso, em meio ao forte déficit fiscal e à expansão de gastos, o BC fica sem estratégia, de mãos atadas, conforme destacou a  pesquisadora do Instituto Peterson de Economia Internacional em Washington Monica de Bolle ao InfoMoney, em entrevista divulgada na última terça-feira. 

Neste cenário, a decisão do México acentua ainda mais os problemas brasileiros, conforme ressalta o ING. "O c orte do orçamento é um sinal encorajador e evidencia a inabilidade de o Brasil fazer algo similar", afirma. Segundo o banco, o timing das ações pode ter sido tanto defensivo, destacando o novo rebaixamento de rating do Brasil pela S&P como ofensivo diante da relativa estabilidade que está surgindo no preço do petróleo. Conforme destaca o Credit Suisse, as medidas foram bastante positivas, mostrando coordenação e resposta ortodoxa do Banco Central e Ministro da Fazenda, algo que a equipe econômica brasileira não tem conseguido fazer.

México: exposição acima da média
O ambiente contraditório do Brasil e o contraste com o México também é destacado pelo BTG Pactual em relatório de estratégia de ações: "mesmo que a presidente do Brasil tenha vindo a público defender publicamente as medidas para equilibrar as contas fiscais, os movimentos do partido dela e das bases sociais são diametralmente opostos à maioria das reformas propostas. Embora as ações brasileiras pareçam muito mais atraentes, o cenário político e econômico sombrio da última análise nos obriga a permanecer na defensiva". No México, embora a volatilidade global continue a pressionar, os indicadores domésticos continuam bastante robustos, apoiando a classificação overweight (exposição acima da média) no país do BTG. A exposição para o Brasil é neutra. 

O Credit também divulgou relatório de estratégia, mantendo recomendação underweight (exposição abaixo da média) em ações do Brasil e overweight para o México. O banco, aliás, revisou o seu target para o Ibovespa, de 54 mil pontos para 50 mil pontos.

"No caso do Brasil, apesar do nosso target ter um upside de 25% em real, acreditamos que não seja suficiente para compensar alguns riscos como: (1) relação preço sobre lucro não está em níveis tão abaixo da média, especialmente quando ajustado às mudanças de composição do índice; (2) as estimativas de lucros devem continuar caindo; (3) a situação fiscal não tem mostrado melhora; (4) a inflação tem ficado persistentemente alta; (5) não esperamos um catalisador positivo para as empresas de commodities, uma vez que os preços devem continuar pressionados e a alavancagem alta; (6) depreciação do câmbio é um risco relevante para retornos em dólares e o (7) risco da China e preocupação com o crescimento global podem significar aumento de aversão a risco para países com um high-beta, como o Brasil".

Assim, o Brasil parece cada vez mais arriscado. E sem perspectivas de grandes melhoras no curto prazo, dando a impressão de estar ficando cada vez mais para trás. 

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