Por que agosto será o mês mais esperado para destravar os mercados em 2016

SÃO PAULO - "Agosto está chegando, desta vez com muito gosto". A frase utilizada recentemente pela gestora de recursos Rio Bravo mostra que o mercado tentará contrariar  aquela famosa crença popular de que o 8º mês do ano não é o preferido dos brasileiros. O resumo da explicação para esperar um agosto promissor nos mercados é: esse mês pode  destravar os investimentos no Brasil.

Uma das grandes razões é a votação definitiva do impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff, que tem previsão de ocorrer a partir do dia 29 de agosto, podendo se estender para até o início de setembro. Apesar dos placares de jornais mostrarem ainda votos insuficientes para o impeachment, uma vez que apontam entre 39 e 40 votos (são necessários votos de 54 senadores para a saída definitiva da presidente), o governo Michel Temer já está pondo na conta cerca de 60 votos seguros pelo impeachment. Enquanto isso, as últimas notícias apontam para um desânimo maior da própria Dilma sobre as chances de reverter sua saída, apesar de não tornar isso público. 

Mas por que a saída definitiva de Dilma representa um marco importante para os mercados brasileiros? Vale destacar que, desde 2012, quando a presidente passou a fazer mais intervenções na economia e também em empresas estatais, além de aumentar fortemente os gastos, o mercado passou a ficar mais negativo com ela. O ápice dessa relação tumultuada se deu em 2014, nas eleições presidenciais, quando pesquisas que mostravam Dilma em baixa faziam a Bolsa disparar e, quando a petista subia nos levantamentos, a Bolsa caía, com destaque sempre para os papéis de estatais. Em 2016, o rali voltou, com o impeachment ganhando forças em meio ao fortalecimento do processo de impeachment e um governo mais "pró-mercado" do então vice-presidente e agora presidente em exercício Michel Temer. 

Efeito-impeachment
Apesar do impeachment parecer "favas contadas" para muitos, a votação do impeachment definitivo pode representar uma mudança para que os investidores estrangeiros venham para o Brasil, ao mesmo tempo em que o governo interino terá mais receptividade no mercado caso se confirme no poder.  "Parece cada vez mais claro que o mês de agosto, e a votação final do afastamento definitivo de Dilma Rousseff em particular, representa um marco importante para as  iniciativas governamentais de maior peso na economia", afirma a Rio Bravo. 

A opinião é compartilhada pelo estrategista-chefe da XP Investimentos, Celson Plácido, que vê maior espaço para a adoção de medidas impopulares por Temer no pós-impeachment, após algumas concessões durante a sua interinidade. Segundo ele, a aprovação do impeachment ainda pode levar os investidores estrangeiros, que ainda estão céticos com o País, a investirem aqui. Assim, antes mesmo do final do ano, também de olho nas reformas a serem implementadas, o Ibovespa poderá chegar aos 60 mil pontos. 

Já para o economista-chefe da Garde Asset Management, Daniel Weeks, boa parte do "efeito-impeachment" já está precificada na Bovespa, mas ele também avalia que o Brasil poderá ter um fluxo positivo para renda fixa vinda do mercado internacional. Ainda mais levando em conta que cerca de US$ 13 trilhões estão tendo rendimentos negativos pelo mundo, em meio às políticas monetárias pelo mundo para tentar ativar a economia. "A confirmação do impeachment traz boas indicações para o mercado em agosto uma vez que tira a probabilidade de Dilma Rousseff voltar ao poder", afirma ele. Porém, mais importante do que isso, é a agenda de Michel Temer no Congresso, afirma Weeks. 

Em destaque, segundo o economista, estarão 1) a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) do teto de gastos: mesmo se a votação ocorrer mais tarde, será possível ver nas comissões e nas discussões sobre o assunto se a proposta será desvirtuada ou não; 2) o projeto de retirada da obrigatoriedade da Petrobras em operar no pré-sal; caso passe, dará sinais de um Congresso mais receptivo às medidas econômicas e 3) questões como mudanças na legislação trabalhista que estão no Senado, em meio a um cenário em que Michel Temer, Rodrigo Maia e o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), têm tentado mostrar que estão alinhados em medidas para reativar a economia.  " Agosto tem tudo para ser um mês de notícias positivas", afirma Weeks. Além disso, "se tirar o impeachment da frente, pode haver um fortalecimento do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles".

Cenário externo: 3 eventos importantes
Porém, conforme ressalta Celson Plácido, a alta recente do Ibovespa - que acumula ganhos de mais de 30% em 2016 - não ocorreu somente por conta do cenário interno: o mercado externo pesou e muito, em meio às indicações de flexibilização monetária pelo mundo após o Brexit, além da expectativa de que o Fomc (Federal Open Market Committee) mantenha a taxa de juros por mais tempo e que até mesmo não a eleve em 2016, o que aumenta a atratividade para emergentes como o Brasil. 

Desta forma, vale ficar atento a três eventos bastante importantes: i) no dia 4 de agosto, ocorrerá a reunião do Bank of England, com o mercado precificando uma queda de juros; ii) ao relatório de emprego dos EUA referente ao mês de julho, no dia 5 de agosto e iii) a conferência de Jackson Hole, com a fala da presidente do Federal Reserve, Janet Yellen, devendo concentrar as atenções entre os dias 25 e 27 de agosto.

Segundo o HSBC, um  tema-chave para o Jackson Hole será se a carteira de títulos do Fed deve ser usada para fins de estabilidade financeira ou, alternativamente, para influenciar a forma da curva de rendimento na condução da política monetária comum. "Estamos propensos a ouvir uma discussão séria de flexibilização quantitativa e se deverá ser parte permanente do kit de ferramentas de política monetária do Fed", destaca o banco. 

Além disso, os EUA podem abalar os mercados por mais um fator: após o término da convenção do partido democrata da última semana, Hillary Clinton e Donald Trump são oficialmente os dois principais candidatos na corrida presidencial americana. Conforme destaca a LCA Consultores, a disputa direta entre os dois candidatos a partir daqui deve dar mais clareza sobre propostas e ideias.  O embate promete ser acirrado e, apesar da maior parte dos modelos de probabilidade de diferentes institutos de pesquisa ainda apontarem para uma maior chance de Hillary ganhar as eleições, Trump vem ganhando espaço. As pesquisas deverão ser olhadas com mais atenção pelo mercado, assim como podem ser determinantes para os próximos passos de política monetária a serem dados pelo Fed, conforme ressalta Plácido. 

Agosto promete ser bastante movimentado para a Bovespa - tanto por fatores externos quanto domésticos (e que podem destravar a Bolsa). 

Os principais eventos de agosto:  

04/08 - Reunião do BoE: mercado espera um corte de juros por conta do risco Brexit

05/08 - Relatório de Emprego dos EUA

09/08 - Votação do parecer sobre o impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff, elaborado por Antonio Anastasia, em plenário. Esta pode ser uma boa indicação do que vai acontecer no julgamento definitivo: Temer já espera contar com mais de 54 votos nesta votação

25-27/08 - Jackson Hole: Janet Yellen (presidente do Fed) pode dar sinais mais claros sobre os próximos passos dos juros dos EUA

29/08 - Início do julgamento do impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff

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