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Demitido usa rescisão de R$ 12 mil para exportar chinelo 'quadrado'

Afonso Ferreira

Do UOL, em São Paulo

Um calçado fora dos padrões tem feito o ex-motorista de ônibus Moisés Dias Pena, 54, ganhar espaço no varejo de calçados. Ao todo, 15 lojas multimarcas no Brasil e mais sete nos Estados Unidos e em Portugal revendem o produto: o chinelo quadrado, que apesar do nome, tem o formato retangular.

O calçado lembra o formato do tamanco japonês, também conhecido como "geta", feito de madeira. A diferença é que as peças de Pena são feitas de borracha.

Pena montou a Kuatro Kantos, fabricante do calçado, após ser demitido, e receber uma indenização de cerca de R$ 12 mil.

Em agosto de 2011, enquanto estava parado em um semáforo em frente ao shopping Ibirapuera, na Zona Sul de São Paulo (SP), ele viu uma mulher atravessar na faixa de pedestres com os dedos saltando para fora da sandália. Foi aí que surgiu a ideia do negócio.

"Pensei comigo mesmo que se ela estivesse usando um chinelo com o bico quadrado aquilo não aconteceria", diz Pena.

No dia seguinte, ele comprou um pedaço de borracha e fez o primeiro modelo do chinelo. A primeira a ver foi sua mulher, que demonstrou certa desconfiança.

"Minha mulher me olhou e disse 'é esse tribufu aí?' Pedi a ela para ter calma e expliquei que era apenas um protótipo", afirma o ex-motorista.

Durante quatro meses, Pena aproveitava os dias de folga no trabalho para fazer melhorias nos chinelos. Quando chegou ao produto que considerava ideal, fez o pedido da patente no INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial) e da marca, a Kuatro Kantos.

Segundo o advogado especialista em marcas e patentes Marcelo Manoel Barbosa, o registro de uma patente pode levar até dez anos para ser concedido. "Nesse tempo, nada impede que dois processos de registro de uma mesma ideia sejam analisados simultaneamente. Ao final, o INPI decidirá quem terá a patente sobre o produto", diz.

Após fazer o pedido de registro, Pena resolveu conferir se o consumidor aprovaria ou não o produto. Ele foi ao centro da capital paulista fazer uma pesquisa de mercado. O empresário mostrou dois modelos que produziu para cem pessoas e perguntou se elas usariam um deles: 99 disseram que sim e uma disse que talvez.

Para finalmente colocar seus planos em prática, faltava algo importante: o capital para iniciar a produção. O recurso, no entanto, veio de forma inesperada. Após 18 anos como motorista de ônibus na mesma empresa, Pena foi demitido.

O dinheiro da rescisão, cerca de R$ 12 mil, foi investido na compra de uma tonelada de borracha colorida e uma máquina de corte para começar a produção dos chinelos quadrados nos fundos de sua casa, na Zona Leste de São Paulo.

O espaço tinha 15 m². Um ano depois, a empresa ocupa um galpão alugado de 150 m², com escritório e loja de fábrica, aberta apenas para lojistas com interesse em revender os chinelos.

"Estamos estudando a possibilidade de abrir uma loja para venda direta ao consumidor. Mas, no momento, ainda não temos capacidade de produção para isso", declara Pena.

Mensalmente, a Kuatro Kantos produz 800 pares de chinelos e fatura R$ 20 mil. O preço de revenda para o consumidor final varia de R$ 25 a R$ 70. A empresa não divulga o valor de venda para lojistas.

Produção de calçados tem baixo crescimento

A produção de calçados no Brasil se mantém estável desde 2010, quando faturou R$ 21,7 bilhões, segundo a Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados).

No ano seguinte, a alta registrada foi de apenas 0,5% (R$ 21,8 bilhões). Os dados de 2012 não foram consolidados, mas a expectativa da entidade é que o valor não sofra grandes alterações.

Para o presidente executivo da Abicalçados, Heitor Klein, o baixo crescimento é reflexo das importações de calçados, principalmente da Ásia, que estão ganhando o mercado nacional.

"As exportações brasileiras vêm caindo desde 2010 ao passo que a importação sobe continuamente. O Brasil perdeu muito da competitividade no mercado internacional", afirma.

Produto precisa de diferencial

Investir em produtos diferenciados, como faz a Kuatro Kantos, é uma alternativa para competir com os calçados asiáticos, de acordo com o consultor especializado no setor calçadista, Luís José Coelho.

"O empresário brasileiro tem de se diferenciar, fazer o que eles [os asiáticos] não fazem", diz.

No entanto, é preciso tomar cuidado com qual será o diferencial da marca. Apesar de ter uma estética atraente, Coelho diz que um chinelo quadrado pode, eventualmente, atrapalhar o caminhar de quem o utiliza.

"A inovação por si só não garante o sucesso do produto. É preciso fazer testes, pesquisa de mercado, definir um público-alvo e perguntar se as pessoas estão dispostas a comprar aquela mercadoria", declara o consultor.

Para o diretor do programa de gestão do luxo da Faap (Fundação Armando Álvares Penteado), Silvio Passarelli, as empresas tendem a investir mais em produtos diferentes e com estética atraente.

"O século 21 será o século da estética. As pessoas vão procurar cada vez mais produtos que as deixem belas e diferentes das demais. Quem souber aproveitar esse momento estará à frente da concorrência", declara.

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