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Reforma da Previdência

Aposentado há 40 anos, lavrador faz 114 e diz que queria voltar a trabalhar

Angelo Miloch

Colaboração para o UOL, em Maringá (PR)

  • Angelo Miloch/UOL

    Armindo José de Souza: nascido em 1902, aposentado em 1976, vontade de trabalhar

    Armindo José de Souza: nascido em 1902, aposentado em 1976, vontade de trabalhar

A caderneta agrícola do Estado do Paraná é o único documento que Armindo José de Souza tinha em mãos quando deu entrada na aposentadoria por tempo de serviço, aos 74 anos. Isso foi em 1976. No último dia 8 de dezembro, ele completou 114 anos (é o que consta em seu RG, visto pessoalmente pela reportagem). Armindo disse ter uma vontade: voltar a trabalhar na lavoura.

Nascido em 1902, Armindo diz que começou a lida na lavoura ajudando o pai em 1917, aos 15 anos de idade, em Brumado, na Bahia. Foi casado por 69 anos, teve sete filhos homens e três mulheres, além de 56 netos --os bisnetos e tataranetos ele diz que não consegue contar. 

Hoje, Armindo vive num sítio em Jaguapitã, a 440 quilômetros de Curitiba. Passa o tempo fazendo "servicinhos de casa", nada pesado, já que o corpo não deixa. Acorda entre 10h e 11h e dorme sempre antes das 20h. Do passado, lembra dos tempos do forró --dança em que "era o bicho".

"A única vontade que eu tenho é a de trabalhar. Mas não posso", diz, se queixando do físico debilitado. O ex-lavrador diz que não está acompanhando a discussão sobre a reforma da Previdência, mas que considera 65 anos uma "idade boa" para se aposentar.

Aposentou-se sem nunca ter contribuído

Armindo viveu em Presidente Prudente, no interior de São Paulo, Estado que defendeu na Revolução de 1932, conta. Perdeu dois irmãos baleados nas trincheiras de guerra. Aos 35, chegou ao interior paranaense, onde diz que desbravou fazendas "no machado".

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"Eu trabalhava preparando as fazendas, mas os patrões que ganhavam o dinheiro. Quando as terras começavam a dar retorno, eu entregava o sítio", diz, sobre seu trabalho nas plantações de café.

Entre machado, lavoura, cigarros e uma dose diária matinal de aguardente, Armindo trabalhou até os 74 anos, quando, auxiliado por um amigo de roça, aposentou-se. Em 59 anos trabalhados, diz que nunca contribuiu com a Previdência Oficial.

"Depois de aposentar, ainda precisei trabalhar por mais uns 10 anos", diz Armindo. Durante "um bom tempo", recebia meio salário mínimo de aposentadoria. Depois, passou a receber o salário completo.

Aposentadoria para trabalhadores rurais

Em 1971, foi criado o Prorural (Programa de Assistência ao Trabalhador Rural): garantia o pagamento de meio salário mínimo, por invalidez ou velhice, aos trabalhadores rurais chefes de família com mais de 65 anos --foi o caso do seu Armindo. A regra era a mesma para homens e mulheres.

O benefício subiu para um salário mínimo em 1988. "A Constituição Federal de 1988 elevou o valor destes benefícios assistenciais para um salário mínimo e equiparou os trabalhadores rurais aos urbanos em direitos e deveres", informou a Secretaria da Previdência ao UOL.

Em 1991, houve uma nova mudança na lei para os trabalhadores rurais. A idade mínima para se aposentar diminuiu para 60 anos, para homens, e 55, para mulheres. No entanto, passou a ser obrigatório ter 15 anos de contribuição com o INSS ou comprovar, com documentos, pelo menos 15 anos de atividade rural.

Agora, a proposta de reforma da Previdência apresentada pelo governo federal quer igualar as regras para trabalhadores rurais e urbanos. Se for aprovada do jeito como está, será preciso ter 65 anos de idade, tanto homens como mulheres, além de 25 anos de contribuição com o INSS. O valor da contribuição será mais baixo, segundo o governo.

Se fosse assim no tempo de seu Armindo, ele não teria direito à aposentadoria.

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