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Depoimento: "Me aposentei, devo R$ 7.000 e vendo água no semáforo"

Gabriela Fujita

Do UOL, em São Paulo

  • Simon Plestenjak/UOL

    Agapito Silva, 67, aposentado e vendedor de água mineral em São Paulo

    Agapito Silva, 67, aposentado e vendedor de água mineral em São Paulo

Aos 67 anos de idade, Agapito Silva usa um boné para proteger o rosto do sol enquanto vende garrafinhas plásticas de água mineral perto de um semáforo na avenida Brasil, nos Jardins (região paulistana de alto poder aquisitivo). Os pelos curtos crescendo no queixo e nas laterais da face vão formar, em mais um ou dois dias, uma barba toda branca. O carpinteiro trabalhou na construção civil por 40 anos. Aposentado desde 2015, ele contou à reportagem por que ainda não pode parar de trabalhar e como tem tentado se virar com bicos.

Em uma tarde quente, Silva descansava no meio de um canteiro. Ao seu lado, havia uma caixa de isopor deixada sobre o gramado ralo, na sombra de alguma árvore. É lá que ele armazena as garrafas que ele oferece aos motoristas. O único produto que ele vende é a garrafa de água, que sai por R$ 2. 

"Aqui é assim: se chover, você não tem trabalho, se esfriar, você não tem trabalho. Eu queria ter uma banquinha em um lugar fixo para todo dia poder estar lá, vender água, salgadinho, essas coisas. Mas está difícil, a concorrência está muito grande, já procurei em tudo que foi lugar", ele diz. Neste ponto específico, apenas ele oferece água aos motoristas. Chega a vender 40 garrafas em um dia bom - e nenhuma em dias ruins.

"Dívida impagável, não sei como vou fazer"

Silva diz que não gosta de ficar parado e se sente bem com a possibilidade de manter uma atividade como esta, mas afirma que está na rua por causa de uma dívida que só aumenta.

Em maio de 2016, ele fez um empréstimo consignado em uma conhecida financeira no mercado para realizar algumas obras em casa. Pegou R$ 3.500,00, que se transformaram, quase um ano e meio depois, em cerca de R$ 7.000,00.

"Esse empréstimo está tomando quase 70% da minha renda (aposentado, recebe cerca de R$ 1.800 mensais). Estou com uma dívida impagável, não sei como vou fazer", diz. "Eles foram me explicando [quando contratei], e eu achei que não era tão grave assim. No fim, arrumei uma corda para botar no pescoço."

O aposentado, que diz mal saber ler e escrever (saiu da escola antes de terminar a primeira série), conta que o valor de cada parcela chegou a variar entre R$ 796 e R$ 1.500. O dinheiro é retirado automaticamente de sua conta bancária, todos os meses. Porém, por algum motivo que ele conta não ter compreendido, um dos débitos não foi feito e a dívida acumulou.

"No começo deste ano, me falaram que iam fazer outro contrato para baixar o valor da parcela, aí eu assinei. Eles baixaram para R$ 600 e pouco, só que puxaram [o contrato] para mais um ano", diz.

Eles têm uma conversa muito bonita, e a pessoa, quando vê, já está laçada. É juro em cima de juro, eu não tenho condições

Simon Plestenjak/UOL
O dinheiro arrecadado na rua "é para me manter em pé", diz o aposentado

"Fiquei ao deus-dará"

Silva teve chance de continuar empregado após se aposentar. Um amigo, encarregado em uma obra, o indicou para uma vaga no segundo semestre de 2016, e ele começou. Três meses depois, foi dispensado.

"Por causa da minha idade, não puderam me cadastrar no seguro de vida, a seguradora não aceitava. Aí me dispensaram, para eu não ficar irregular. Eu fiquei ao deus-dará", ele afirma.

Silva e a família moram na Vila Calu, no extremo da zona sul da cidade, a 25 km do ponto onde ele vende água. A casa é própria, por isso ele fez empréstimo para fazer obras. Ele vai de ônibus, pega duas conduções para ir e duas para voltar. O trajeto leva cerca de 1h30. Por ser aposentado, ele não paga pelas passagens.

Ele compra em torno de 60 garrafinhas de 500 ml no bairro de Santo Amaro todos os dias. Traz os produtos em sacolas nas costas e nas mãos. Ao chegar, reparte o produto com um senhor, conhecido dele, que vende água um pouco mais à frente de onde Silva fica. O colega tem uma geladeira em uma guarita ali perto e traz gelo todos os dias para o local. É ali que eles gelam as águas, que depois são colocadas no isopor que fica no canteiro

O filho, de 15 anos, está no primeiro ano do ensino médio; a mulher, de 47, estudou até a oitava série e já foi encarregada de limpeza e faxineira, mas não consegue emprego desde o começo do ano.

"O dinheiro [que ela recebia] está fazendo falta, está difícil. Eu não tenho outra renda. De março até aqui, a gente não vai mais ao mercado, o dinheiro não dá. O que eu consigo na rua dá para quase nada...", afirma. Nas semanas boas, conta, ele consegue R$ 100 com as vendas.

Tem dia que bate um cansaço, dor nas pernas, mas a gente vai levando

O aposentado diz que nunca imaginou chegar ao ponto de precisar vender água no semáforo depois de tanto tempo trabalhando com carteira assinada. Quer buscar ajuda de um advogado para resolver a dívida, mas afirma que a dificuldade com a escrita e a leitura atrapalha. "Estou procurando um meio de uma ajuda, porque não tem jeito...", afirma.

Como evitar que um empréstimo vire cilada?

Fazer um empréstimo, seja em bancos ou em agências financeiras, exige antes conhecer bem as próprias condições de assumir uma dívida. Veja algumas dicas dadas pelo educador e terapeuta financeiro Reinaldo Domingos:

Analise sua situação financeira

Saiba quanto gasta por mês, para onde vai o seu dinheiro e como chegou ao endividamento (se for o caso).

Reduza os gastos

Se gastar mais do que ganha, pegar um empréstimo pode piorar a situação. Converse com as pessoas em casa sobre onde cada um pode fazer cortes ou reduções de despesas.

Valor das prestações deve caber no orçamento

Analise o peso de cada prestação no orçamento mensal, considerando a duração do contrato de financiamento. 

Procure as melhores condições

Ao comparar o que cada instituição oferece, considere:

  • Taxas de administração e de juros
  • Tempo de pagamento: com prazo maior, o valor da prestação cai, mas o total pago aumenta
  • Evite situações em que é preciso oferecer algum bem como garantia

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