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Por que o Brasil simplesmente não imprime mais dinheiro para sair da crise?

 Fernando Frazão/Folhapress
Imagem: Fernando Frazão/Folhapress

Juliana Elias

Do UOL, em São Paulo

03/10/2018 04h00

A dívida e as contas públicas do Brasil estão em situação ruim, então por que o governo simplesmente não imprime mais dinheiro para sair da crise e investe mais em saúde, educação e outras áreas?

É uma pergunta que passa pela cabeça de muitas pessoas de tempos em tempos. Mas é claro que não é fácil assim.

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"Se fosse uma solução tão simples, não teria por que nenhum profissional não ter pensado nela ainda; é isso o que o leigo deve realmente se questionar”, disse o economista Fernando Nogueira da Costa, professor do Instituto de Economia da Unicamp (Universidade de Campinas) e especializado em moedas e sistema financeiro.

Inflação e dívida disparariam com impressão de dinheiro

O descontrole da inflação ou mesmo uma crise hiperinflacionária é a consequência mais clássica de imprimir dinheiro. Perda de credibilidade, fuga de dólares e a necessidade de juros altíssimos para responder a tudo isso, além de desemprego e recessão, são outros efeitos que vêm a reboque.

O resultado, com o descontrole de juros e preços, seria uma dívida que ficaria ainda mais difícil de pagar e um país que sairia mais empobrecido, e não o contrário.

“Imprimir mais dinheiro não é uma opção de política pública, é uma falta de opção”, disse o economista Josué Pellegrini, analista do IFI (Instituto Fiscal Independente), centro de pesquisas em contas públicas do Senado Federal.

“É um mecanismo a que os governos recorrem quando não conseguem mais pagar a dívida, o que não deixa de ser uma espécie de calote”, afirmou Pellegrini, que também já foi gestor de políticas públicas do Ministério da Fazenda.

Impressão de dinheiro precisa acompanhar riqueza real

É normal que a quantidade de dinheiro disponível em um país (contado pelas notas, moedas e saldos em conta-corrente nos bancos) cresça ao longo do tempo, conforme crescem os investimentos e a produção. 

Isso, porém, acontece de forma gradual e tende a acompanhar o ritmo de expansão da própria economia. Mas fabricar mais moeda é uma forma artificial de fazer isso, porque só um dos lados da balança cresce.

“Emitir moeda faz as pessoas terem mais dinheiro e quererem comprar mais, mas a quantidade de coisas disponíveis continua a mesma, e isso faz os preços subirem”, disse Marcelo Balassiano, pesquisador sênior em economia aplicada do Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas).

Isso acontece porque a chegada do dinheiro recém-emitido à mão das pessoas é quase imediata --o governo manda imprimir, usa para pagar seus credores, fazer obras ou injetar no caixa dos bancos comerciais e pronto, as cédulas e moedas novas já estão soltas por aí.

Por outro lado, aumentar a produção e os serviços não acontece no mesmo ritmo.

Real viraria pó, e dólar dispararia

A partir daí, afirmou Pellegrini, do IFI, é uma sucessão de tragédias: a alta rápida dos preços come a renda dos trabalhadores e empobrece a população, empresários congelam projetos e estrangeiros deixam de investir no país. “O dólar dispara, o que também faz os preços aumentarem e gera ainda mais inflação”, disse Pellegrini.

    Na prática, começam a sobrar reais --tanto em relação aos produtos disponíveis para compra quanto em relação a outra moedas-- e é por isso que seu valor vai virando pó.

    Conforme o dinheiro perde valor, o governo precisa mais dele e se vê obrigado a imprimir mais, o que redunda em mais perda de valor. O resultado da bola de neve é a hiperinflação (aumento de preço de pelo menos 30% a 50% ao mês).

    Como comparação, a inflação oficial do Brasil hoje está em 4,2% ao ano, e a taxa mais alta a que chegou desde a estabilização do Plano Real foi de 12,5% ao ano, em 2002. 

    Brasil e Alemanha do pós-guerra já passaram por isso

    Exemplos práticos para a teoria não faltam. A Alemanha, que viveu uma das piores hiperinflações de que se tem notícia, é um exemplo clássico de governo que recorreu à máquina de dinheiro para pagar a conta da devastadora crise econômica.

    Em 1923, a inflação lá chegou a 29.500% por mês --o equivalente a 20% ao dia, nas estimativas de um levantamento das maiores hiperinflações do mundo feito pelos economistas Steve H. Hanke e Nicholas Krus, da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore (EUA).

    Para se ter uma ideia, todo o dinheiro em circulação na Alemanha em 1913 dava para comprar apenas um quilo de pão dez anos depois (1923).

    O Brasil, que passou a maior parte do século 20 com inflação de dois dígitos ao ano, esteve oficialmente em um estado de hiperinflação na década de 1980. Em 1989 e 1990, no auge, os preços aumentavam a um ritmo de 80% ao mês.

    “O Brasil recorreu à impressão de dinheiro em vários momentos”, disse o historiador Julio Cesar Zorzenon, professor de história econômica da escola de economia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

    “Getúlio Vargas fez isso nos anos 1930, durante a crise de 1929 e do excedente de café; Juscelino Kubitschek [1956-1961] fez isso para financiar seu plano de metas; foi uma prática também adotada na ditadura militar, principalmente após 1979, e mais tarde no governo Sarney [1985-1990]”, disse o professor.

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