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Auxílio emergencial eleva em 156% a renda de quem estudou menos, diz estudo

Carlos Madero

Colaboração para o UOL, em Maceió

30/07/2020 02h00

O auxílio emergencial foi responsável por aumentar 156% a renda normal de um trabalhador que não teve escolaridade. Na média geral, o aumento foi de 24% na renda dos trabalhadores beneficiados pelo programa. Essa diferença acontece por causa da desigualdade de ganhos. Quanto menor a escolaridade, menor a renda. Então quem ganhava menos antes da pandemia sentiu um impacto maior do auxílio.

A conclusão é de estudo dos pesquisadores Lauro Gonzalez e Bruno Barreira, do Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV (Fundação Getúlio Vargas), divulgado hoje pela Agência Bori.

Efeitos variam, conforme trabalho, estudo e região

Para chegar ao percentual, os pesquisadores tiveram como base os dados coletados dos beneficiários do auxílio pela Pnad covid-19 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), realizada em junho pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O auxílio está sendo pago em cinco parcelas, com valores de R$ 600 e R$ 1.200.

Com o pagamento do auxílio, a renda ficou 24% maior do que a chamada "renda usual" pré-pandemia. Os efeitos do auxílio variam conforme o tipo de trabalho, região e nível de escolaridade: entre 11 dos 36 tipos de trabalho citados no estudo, o aumento de renda foi superior a 40%.

O efeito é tão maior quanto menor for a renda. E como essa renda tem correlação negativa com escolaridade, com informalidade, com as questões ligadas às desigualdades regionais, isso explica esse efeito maior do auxílio para esses recortes.
Lauro Gonzalez

Entre as regiões, por exemplo, os estados do Norte e Nordeste aparecem na liderança de alta percentual na renda. Em Alagoas, por exemplo, essa alta chegou a 132% do valor mensal pré-pandemia. Já levando em conta a escolaridade, a alta entre aqueles que não estudaram chegou a ser de 156%, e de 111% entre os que têm ensino médio incompleto.

Ainda segundo o levantamento, o efeito positivo do auxílio também é bem maior entre os que não estão no mercado de trabalho formal. "Os resultados do estudo revelam que, além de possuir uma renda usual inferior no período pré-pandemia, os trabalhadores informais teriam sido quase 2,5 vezes mais penalizados pela queda da atividade econômica em comparação aos formais (19% comparado a 8%), não fosse pelo efeito do auxílio, que permitiu um ganho de renda equivalente a 50%."

Desigualdade maior

Um dos pontos ressaltados pela pesquisa é que as estimativas iniciais do governo previam por volta de 30 milhões de pessoas elegíveis ao auxílio. "Ou seja, a profundidade da crise tem sido muito maior do que a inicialmente imaginada" diz o texto, citando que "isso não significa que o auxílio emergencial seja excessivo, mas sim que o nível de pobreza e desigualdade do Brasil é muito alto."

Agora, a preocupação é como serão os próximos meses. "Como existe um cenário de incerteza, nós não sabemos, em um primeiro momento, quanto isso pode se aprofundar nos próximos meses. Em outras palavras, não sabemos quão pior pode ficar a questão de emprego e renda. Outro cenário é a questão da própria continuidade do auxílio. Temos evidências que o auxílio mais que compensou e melhorou a renda, mas o desenlace dos próximos meses pode ser diferente: a crise pode se aprofundar", diz Gonzalez.

Para o pesquisador, a pandemia deixou claro que é preciso pensar em formas de assistir as pessoas que vivem na pobreza. "Muito claramente há um progresso inesperado da pandemia por ter trazido à pauta a necessidade de uma renda básica, até para dar conta das mudanças do contexto atual de muitas cobranças do mercado de trabalho, das mudanças, da economia do bico e suas variáveis. Tudo isso enseja uma mudança também nos programas de transferência de renda, e a renda básica parece ser o modelo mais apropriado. O mundo todo está debatendo isso", finaliza.