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Bolsonaro descarta tabelamento do arroz e apela a donos de supermercados

O presidente Jair Bolsonaro, no Palácio do Planalto - Adriano Machado/Reuters
O presidente Jair Bolsonaro, no Palácio do Planalto Imagem: Adriano Machado/Reuters

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, em Brasília

08/09/2020 15h26

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) afirmou hoje que o governo descarta a possibilidade de "tabelar" preços com o intuito de conter a alta acelerada do arroz nos supermercados brasileiros, sobretudo nas últimas semanas. Um pacote de cinco quilos, normalmente vendido a cerca de R$ 15, chega a custar R$ 40 na gôndola.

Bolsonaro também disse que está conversando com os comerciantes para tentar convencê-los a colaborar nesse momento. O governante declarou esperar que os supermercados abram mão da margem de lucro obtida com a venda de produtos essenciais para, dessa forma, empurrar o preço para baixo.

"Tenho apelado para eles. Ninguém vai usar a caneta Bic para tabelar nada. Não existe tabelamento. Mas estamos pedindo para eles que o lucro desses produtos essenciais nos supermercados seja próximo de zero."

Apesar do apelo aos supermercados, eles são apenas a ponta da cadeia, e o aumento de preço vem das etapas anteriores. Segundo a Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz), o produto comprado dos produtores pelas indústrias ficou 30% mais caro só em agosto.

Assim como outros produtos da cesta básica, como óleo de soja e feijão, a alta do arroz está ligada à valorização do dólar, que torna as exportações mais lucrativas aos produtores. Além disso, a safra de arroz neste ano caiu, ao mesmo tempo em que a demanda interna pelo produto cresceu durante a pandemia do novo coronavírus.

De acordo com Bolsonaro, a situação deve ser normalizada até janeiro do ano que vem, quando haverá a colheita de novas safras de arroz.

"Acredito que a nova safra começa a ser colhida em dezembro ou janeiro, o arroz em especial, e a tendência é normalizar. Sei que outras medidas estão sendo tomadas pelos ministros da Economia e da Agricultura para que a gente possa dar uma resposta a esses preços que dispararam nos supermercados."

Levantamento feito pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, mostra que a alta do arroz chega a 100% em 12 meses. E não há alívio no bolso no horizonte. Produtores e especialistas dizem que os preços devem continuar subindo nos próximos meses.

Para Bolsonaro, os supermercados brasileiros foram indiretamente beneficiados com a criação do auxílio emergencial, benefício pago aos cidadãos cuja renda foi impactada pela pandemia do coronavírus.

O presidente não expôs com clareza o seu raciocínio, mas deu a entender que o momento seria propício para que os comerciantes dessem uma contrapartida, abrindo mão da margem de lucro.

"Tenho conversado com alguns donos e gerentes de supermercados desde a semana passada. O presidente da associação também. Fazendo um apelo aí para que nós criássemos o auxílio emergencial para exatamente dar oportunidade de comer ao pessoal que perdeu o emprego."

Na semana passada, Bolsonaro já havia pedido "patriotismo" aos supermercados para segurar os preços de itens da cesta básica. "Estou pedindo um sacrifício, patriotismo para os grandes donos de supermercados para manter na menor margem de lucro", disse ele, na ocasião.

Em resposta, a Apas (Associação Paulista de Supermercados), informou que os aumentos são "provenientes dos fornecedores de alimentos, que são provenientes de variáveis mercadológicas como maior exportação, câmbio e quebra de produção".

Bolsonaro destacou ainda que, apesar da alta acelerada, o empenho dos produtores na manutenção das atividades durante a pandemia da covid-19 garante que o arroz esteja disponível nas prateleiras.

"Imaginemos se o pessoal do campo tivesse ficado em casa. Hoje não teria o arroz. Sei que está caro, o óleo de soja já subiu, sei disso. Mas nem teríamos isso para comer. O povo com fome é um povo que não tem razão."