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Inflação no churrasco? Culpa não é só da carne, mas de dólar e até papelão

Filipe Andretta

Do UOL, em São Paulo

09/12/2020 04h00

Mesmo que seja com menos pessoas, para evitar aglomerações durante a pandemia, fim de ano sempre tem churrasco. Neste verão, além dos cuidados com o isolamento social, o brasileiro precisa se preparar para gastar mais. A carne subiu bastante, mas a inflação do churrasco não é só culpa dela: também pesam fatores como o dólar, o milho, a soja, o auxílio emergencial e até o preço do papelão.

As carnes estão entre os alimentos que mais subiram de preço até novembro (13,9% em média), segundo o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo). Destaque para a carne de porco (30,1%), a costela (26,4%) e a linguiça (17,9%).

Saladas e outros acompanhamentos também registram alta acima da média no índice calculado pelo IBGE, que mede a inflação oficial do país. Óleo de soja (94,1%), tomate (76,5%), batata-inglesa (55,9%), cenoura (34,4%), alface (23,4%) e cebola (15,1%) prometem encarecer as compras para o churrasco.

Se você bebe cerveja, não precisa se preocupar tanto, já que a alta foi de apenas 1,6%. Quem prefere vinho (5,4%), outras bebidas alcoólicas (6,6%), suco de frutas (3,3%) ou refrigerante (3,8%) deve sofrer mais na hora de pagar a conta. A inflação ainda atingiu em cheio a tradicional caipirinha, com o aumento no preço do limão (14,8%) e do açúcar refinado (7,8%).

Diversos fatores ajudam a explicar por que o churrasco ficou mais caro em 2020, e todos estão ligados à crise do coronavírus. Veja em detalhes a seguir:

Alta do dólar

As medidas de isolamento social impactaram a economia do mundo todo e fizeram o dólar disparar, por ser uma moeda considerada segura em momentos de crise. Em movimento contrário, o real sofreu uma das maiores desvalorizações, principalmente por causa do aumento da dívida pública e de crises políticas internas.

Em maio, o dólar chegou a fechar acima de R$ 5,90, acumulando alta de 47% no ano. Apesar de a moeda norte-americana ter perdido força em relação ao real nas últimas semanas, ela ainda acumula alta de aproximadamente 25% em 2020.

Com o real desvalorizado, a exportação se tornou mais vantajosa. Assim, o mercado interno precisa pagar mais caro para fazer frente ao preço praticado lá fora.

O dólar alto também encarece produtos que são importados. O pãozinho do churrasco, por exemplo, depende em grande parte do trigo que vem principalmente de Argentina e Uruguai.

Crescimento da exportação de carne

Um levantamento da Abrafrigo (Associação Brasileira de Frigoríficos) a partir de dados do Ministério da Economia mostra que, de janeiro a outubro, o Brasil exportou 1,65 milhão de toneladas de carnes e derivados —9% a mais do que no mesmo período do ano anterior. A receita dessas exportações aumentou 16%, totalizando US$ 6,9 bilhões.

Entre os maiores destinos da carne brasileira para o exterior, estão China, Hong Kong, Egito, Estados Unidos, Chile, Rússia e Itália.

Com o aumento das exportações, sobra menos carne para o consumo no mercado interno, e o preço sobe.

Preço do milho e da soja

Mesmo que você não seja vegetariano, o milho e a soja influenciam no preço do seu churrasco, pois são os principais insumos para a ração de bovinos, suínos e aves.

Como são produtos que o Brasil exporta, o milho e o farelo de soja também se valorizaram com a alta do dólar. Assim, ficou mais caro alimentar os animais, o que reflete no preço final da carne.

Escassez de embalagens

Por causa da crise econômica do coronavírus, muitas indústrias reduziram a produção, demitiram funcionários ou suspenderam contratos de trabalho, principalmente a partir de março. Mas a retomada das atividades veio mais rápido que o esperado em alguns setores e a indústria ainda luta para normalizar o abastecimento de matérias-primas como papelão, vidro, alumínio e plástico.

A dificuldade em comprar esses materiais levou a um encarecimento das embalagens, o que afeta o preço de toda a cadeia produtiva.

Segundo a ABPO (Associação Brasileira do Papelão Ondulado), a alta demanda está relacionada também com o crescimento do e-commerce e delivery desde o início da pandemia. A associação afirma ainda que a falta de papelão para a indústria está ligada à redução no trabalho das cooperativas de reciclagem.

Estudo da Neogrid apontou também para a falta de algumas marcas de cerveja nos supermercados, em razão da escassez de lata e vidro.

Crescimento do consumo por causa do auxílio emergencial

Outro fator determinante na inflação dos alimentos (e consequentemente do seu churrasco) foi o auxílio emergencial pago desde abril para recompor a renda dos trabalhadores mais vulneráveis durante a pandemia.

O auxílio deu aos brasileiros um poder de compra que foi revertido principalmente em produtos essenciais. Com o aumento da procura, houve uma pressão nos preços. Isso pode mudar a partir de janeiro, já que não há previsão de renovar o benefício para 2021.

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