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José Paulo Kupfer

Pandemia e auxílio fazem inflação triplicar em quatro meses, superando meta

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

08/12/2020 13h02

Quem consegue se lembrar de que inflação é um termômetro do comportamento da economia, terá mais facilidade em entender o que está se passando, neste momento, com a dança dos preços. Os desequilíbrios deflagrados pela pandemia de Covid-19 numa uma atividade econômica que já vinha frágil explicam a trajetória incomum de alta da variação do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) em 2020.

As informações divulgadas pelo IBGE nesta terça-feira mostram que a variação de preços, medida pelo IPCA, subiu 0, 89% no mês, avançou 3,13% no ano, e chegou a 4,31%, no acumulado em 12 meses, superando a meta de 4%. Os números observados ficaram bem acima das projeções, que variaram no intervalo de 0,7% a 0,85%, para novembro.

Um acontecimento raro, importante de ser observado, foi a disparada da inflação a partir de agosto. Há quatro meses, a alta de preços, em 12 meses, não passava de 1,6%, bem abaixo até mesmo do piso do intervalo do sistema de metas, que é de 2,5%. Daí em diante ocorreu uma disparada nunca antes vista de preços, concentrada em alimentos, mas também atingindo outros itens, triplicando a inflação.

Não seria possível explicar esse fenômeno inédito sem a presença da pandemia e de seus efeitos na economia. O abrupto colapso dos mercados, com a concomitante paralisação da oferta e da procura, terminou por desarranjar a produção, provocando fortes desequilíbrios que foram se refletir na inflação rápida e ascendente.

Normalmente, a situação de fraqueza da atividade, expressa sobretudo numa altíssima taxa de desemprego, que passa de 14%, mas, se for considerada a situação pré-pandemia, está acima de 20% da força de trabalho, determinaria inflação também sem força. Mas o auxílio emergencial de R$ 600 mensais, valor 50% acima da renda média dos brasileiros pobres, que alcançou praticamente um terço da população, alterou a normalidade. A demanda por alimentos, artigos de residência e material de construção, reforçada pelo auxílio, encontrou uma oferta ainda insuficiente.

Diretamente no caso dos alimentos, categoria de produtos que está sendo mais pressionada no conjunto do IPCA, a escassez de oferta também foi reforçada pela elevação da taxa de câmbio, que levou a cotação do dólar a subir 30% no ano, até agora. Parte da produção de commodities de grande peso no consumo direto ou indireto das famílias — arroz, milho, soja, carnes, por exemplo — foi desviada para a exportação, sem que o governo providenciasse reforço dos estoques reguladores. O resultado é que a inflação de alimentos no domicílio, no acumulado de 12 meses encerrados em novembro, já subiu 21%.

Em relação a outros produtos, dependentes de insumos como aço e outros metais, plásticos, borrachas, vidro, papelão e uma vasta lista de etcs, a escassez, fruto também das incertezas quanto ao ritmo de recuperação da atividade, que ajudaram a manter as empresas na retranca, tem provocado queima de estoques, redução no ritmo de produção e atraso nas entregas. Há também, portanto, desta vez, uma certa inflação de oferta.

Contudo, apesar do aumento da difusão, que indica um espalhamento em alta de preços no conjunto dos itens que compõem o IPCA, que atingiu dois terços dos mais de 400 itens da cesta de produtos e serviços do índice, os núcleos de inflação continuam abaixo do centro da meta. Só agora, em novembro, a média dos núcleos superou o piso do intervalo do sistema de metas, subindo para 2,64%, para um piso de 2,5%. Os núcleos descontam no seu cálculo variações de preços ocasionais e voláteis, servindo para indicar a situação mais "estrutural" da alta de preços.

Para dezembro, as perspectivas são de uma inflação mensal acima de 1%, reflexo do aumento das contas de energia, com a adoção da bandeira vermelha, patamar 2. A última vez que a inflação mensal superou essa marca foi em dezembro de 2019, com alta de 1,15%. Com essa base elevada de comparação, o IPCA acelerado previsto para dezembro não deverá produzir subida muito mais forte na inflação de 2020. Deve se situar acima do centro da meta, em torno de 4,5%, mas não ultrapassando o teto do intervalo em que, no sistema de metas, a variação do IPCA pode se acomodar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.