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Competição com fintechs beneficia clientes de bancos, mas não derruba juros

Mariana Bomfim

Do UOL, em São Paulo

01/06/2021 04h00

Quem lidou com bancos no Brasil há dez anos e resolveu abrir uma conta corrente em 2021 se deparou com um mercado muito diferente. Novas leis e tecnologias permitiram o boom das fintechs, as startups de serviços financeiros, que fizeram os bancos correr atrás para não perder clientes.

O resultado são avanços para o consumidor, com mais opções para quem quer não só ter uma conta, como também crédito e investimentos em renda fixa e variável. O que o aumento da competição ainda não conseguiu fazer, porém, é derrubar a concentração bancária e as taxas de juros no país.

Tecnologia e leis explicam boom das fintechs

Considerada um marco para destravar o setor, a lei nº 12.865, de 2013, criou a figura das instituições de pagamento, permitindo a entrada de novos agentes no mercado. Depois vieram outras para regulamentar, por exemplo, as sociedades de crédito direto, de empréstimo entre pessoas, e o equity crowdfunding [espécie de 'vaquinha' virtual].

"Às vezes, existe a vontade de se criar modelos de negócio, mas isso não é possível sem embasamento regulatório. Nós evoluímos muito em relação a isso", afirma o consultor Bruno Diniz, autor de "O Fenômeno Fintech" (ed. Alta Books).

Em 2020, menos de dez anos após surgirem as primeiras fintechs, o Brasil já tinha 742 empresas do tipo, de acordo com o relatório "Fintech Report", da consultoria Distrito. Só em relação a 2019 (553), o aumento foi de 34%. Desde 2015, as fintechs brasileiras receberam US$ 2,4 bilhões (R$ 13 bilhões, na cotação de 3 de maio de 2021) em investimentos.

A disponibilidade de tecnologia tem um papel importante na transformação do mercado, ao popularizar os smartphones e ampliar o acesso ao mercado. Mas Leandro Vilain, diretor executivo de inovação, produtos e serviços bancários da
Febraban (Federação Brasileira de Bancos), nega que os bancos tenham investido mais em tecnologia por causa das fintechs.

"Nosso setor bancário é de extrema vanguarda, o que é fruto de investimentos ambiciosos em tecnologia. Só em 2019, foram quase R$ 25 bilhões. Fomos um dos primeiros no mundo a adotar caixa eletrônico de autoatendimento, internet banking, chip em cartão de crédito e biometria. Investimos em tecnologia há muitos anos", diz.

Lauro Gonzalez, coordenador do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV (Fundação Getulio Vargas), concorda que os bancos são inovadores na adoção de tecnologias, mas diz que eles "não são tão bons em criar novos modelos de negócios a partir delas". É aí que entram as fintechs.

Reação dos bancos inclui aplicativos, bots e contas digitais

"Elas trouxeram uma nova visão, mais centrada no cliente", afirma Diniz. "Players como o Nubank cresceram em cima da falha dos grandes bancos, de não dar um atendimento tão próximo nem transparente. Isso fez com que o próprio usuário começasse a ter um olhar mais crítico e subisse a barra em relação ao que esperar de serviços financeiros."

O Nubank inovou ao não cobrar tarifas, facilitar a abertura de conta e dar autonomia para o cliente resolver o que precisar pelo aplicativo. Mas o leque de atuação das fintechs é vasto, indo da Creditas, plataforma online de empréstimo com garantia, à Conta Azul, que oferece ferramentas de gestão para micro e pequenas empresas.

De uma forma ou de outra, os quatro maiores bancos do Brasil destacam como suas principais inovações nos últimos anos iniciativas que também colocam o cliente no centro.

Thiago Charnet, diretor de tecnologia do Itaú Unibanco, diz que o banco lançou "mais de 30 funcionalidades nos canais digitais desde o início da pandemia, para dar mais autonomia aos clientes". Ele também cita a facilidade para abertura de conta online e a plataforma Iti, de conta digital gratuita.

"Empoderar o cliente na relação com o banco" é o foco do Santander, de acordo com Geraldo Rodrigues, diretor de negócios digitais da instituição. Ele cita o atendimento digital em cinco canais, a criação de um cartão de crédito para compra online com cvv (o número de segurança no verso do cartão) que muda, para evitar fraudes, e um chatbot que responde mais de 20 mil perguntas.

Thiago Borsari, diretor de negócios digitais do Banco do Brasil, diz que o banco "coloca as inovações digitais como prioridade". Ele cita melhorias no aplicativo, para que o cliente possa se auto atender, inteligência artificial, com bots, e a inclusão do Pix no WhatsApp.

O Bradesco também destacou a "transformação digital com foco na experiência do cliente nos canais digitais". Menciona o Next, banco digital grátis, a corretora Ágora e a Bitz, uma carteira digital para pagamentos e transferências pelo celular.

"Os bancos melhoraram muito a usabilidade dos aplicativos, os canais de comunicação e as interfaces de chatbot", diz Diniz. "Antes, o cliente não via diferença de um banco para outro."

Competição não derrubou taxas de juros

A competição não se traduziu em benefício ao consumidor em todos os segmentos, segundo Gonzalez. "Trouxe vantagens na área de meios de pagamento. No crédito, isso ainda é uma promessa."

A concessão de crédito é o segundo maior ramo de fintechs; correspondia a 15,8% das 742 startups financeiras em 2020. Só é superado pelo de meio de pagamentos, com 16,4%.

Mas as fintechs de crédito ainda não conseguiram forçar a queda dos juros. "Levará tempo para isso acontecer, porque elas não têm tanto dinheiro assim para concorrer com os bancos", diz Gonzalez. "São uma gota no oceano do mercado de crédito."

Dados do BC mostram que, em um contexto de forte queda da taxa básica de juros — a Selic foi de 11,75% ao ano em março de 2011 para 3,5% neste ano—, a taxa média de juros no país caiu pouco — de 27,35% em 2011 para 20% ao ano em abril de 2021.

O spread bancário, a diferença entre os juros que o banco paga para quem deixa dinheiro lá e os juros que ele cobra de quem pega empréstimo, caiu em um ritmo lento no mesmo período, de 17,65 pontos percentuais para 15,1 pontos percentuais.

Open banking é a nova fronteira de competição

A expectativa é que o open banking, que começou a ser implementado em fevereiro deste ano, dê mais um salto na competição e faça os juros caírem nos próximos anos. O sistema vai permitir que empresas do setor financeiro compartilhem informações de todos os clientes. Uma fintech poderá saber, por exemplo, que taxa um banco cobra de determinada pessoa e, a partir daí, oferecer a ela uma linha de crédito mais barata.

A tecnologia também vai permitir que companhias de outros setores compitam com bancos e fintechs. "Nesse mercado, olhar para o futuro é como tentar adivinhar a altura de alguém que está pulando o tempo todo", diz Gonzalez. "O open banking pode atrair empresas do varejo e até big techs, como o WhatsApp".

"Toda vez que ocorre um avanço tecnológico, liberamos novos modelos de negócios. Quem diria que os smartphones abririam a possibilidade de negócios bilionários, como a Uber? Ela só existe por causa do smartphone", afirma Diniz. "O mercado bancário já não é como antes, e a tendência é que se torne cada vez mais plural."

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