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Analistas: Inflação não está controlada, e culpa não é de governadores

Vinícius Pereira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

26/08/2021 18h15

Quem vai ao supermercado ou precisa abastecer o carro já percebeu que as coisas estão cada dia mais caras. Reflexo desse aumento de preços, a prévia da inflação em agosto acelerou para 0,89%, a maior para o mês em 19 anos. Mas, quais são os motivos dessa alta?

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) buscou compartilhar a responsabilidade por essa alta de preços e culpou governadores que resistem a mudanças em relação ao ICMS dos combustíveis e que adotaram medidas de restrição para combater a pandemia. Já o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que a inflação está controlada e que, com índice de 8%, Brasil está 'no jogo'.

Especialistas ouvidos pelo UOL, porém, discordam das afirmações. De acordo com Simone Pasianotto, economista-chefe da Reag Investimentos, a inflação não está sob controle e a alta nos preços também não tem relação com as medidas de restrição para conter a circulação do coronavírus.

Alta no preço decorre de política da Petrobras

"As pessoas continuaram se alimentando na pandemia. Elas não foram a shows e ao cinema por exemplo, mas continuaram se alimentando, mesmo em casa, então a demanda se manteve estável", disse.

Além disso, segundo ela, a alta no preço dos combustíveis ocorre porque a gestão da Petrobras optou por seguir os preços internacionais do petróleo. As alíquotas de impostos, como desejam manter os governadores, são as mesmas há anos.

A política de preços de combustíveis é da Petrobras, uma estatal, de ordem federal, não estadual. Uma mudança na tributação ajudaria, mas precisamos de arrecadação, e esse ponto é um cobertor curto. Não podemos abrir mão de arrecadação neste momento.
Simone Pasianotto, economista-chefe da Reag Investimentos

Valorização do dólar

A aceleração da inflação tem uma série de causas, além da alta dos combustíveis.

Há uma quebra da infraestrutura logística no mundo todo, desde o início da pandemia, e isso fez com que alguns produtos essenciais ficassem escassos, o que aumentou os preços, segundo Para Paulo Dutra, coordenador do curso de economia da FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado).

Além disso, o dólar subiu de maneira considerável, fazendo com que os produtos importados e insumos lá de fora necessários para produção aqui no Brasil também sofressem fortes altas. O dólar comercial se valorizou quase 30% em 2020 e acumula alta de 1,31% neste ano.

Nossa moeda está perdendo muito valor, em função de uma política fiscal errática, que está querendo romper o teto de gastos e dar uma pedalada em relação aos precatórios. Tudo isso que está sendo colocado gera uma desconfiança do mercado.
Paulo Dutra, professor da Faap

Crise hídrica, conta de luz e alta dos alimentos

Há também fatores que vêm surgindo nos últimos meses e colaboram para uma aceleração da inflação. A primeira é a crise hídrica, que encarece a conta de luz no país todo. Neste ano, a conta de luz residencial já subiu 16%, e deve subir mais.

A segunda foram as ondas de frio deste inverno, que prejudicaram a produção de alimentos e fizeram com que os preços disparassem.

O dólar e o problema nas cadeias de suprimentos já vêm desde o ano passado. Agora, temos alguns efeitos adversos, como crise hídrica, a questão dos alimentos que, por causa da questão climática, também sofrem com baixa oferta e aumento do preço.
Simone Pasianotto, economista-chefe da Reag Investimentos

De acordo com Pedro Galdi, analista da gestora Mirae, apesar do esforço das autoridades para apontar que a inflação está sob controle, o Banco Central deverá aumentar a taxa básica de juros (Selic) para frear a atividade econômica e tentar conter a inflação. O custo disso é prejudicar a geração de empregos.

A alta da energia elétrica e o aumento de preços de alimentos e serviços devem piorar o quadro. Para combater esse movimento, deveremos ter um Banco Central mais agressivo com a Selic logo mais à frente.
Pedro Galdi, analista da Mirae

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