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Beneficiários de programa do governo Doria reclamam de pagamento atrasado

Evodia Lucca Alves afirma não receber o pagamento do Bolsa do Povo em dia - Arquivo pessoal
Evodia Lucca Alves afirma não receber o pagamento do Bolsa do Povo em dia Imagem: Arquivo pessoal

Do UOL, em São Paulo

20/12/2021 04h00

Beneficiários do programa social Bolsa do Povo, do governo do estado de São Paulo contra a crise da pandemia, dizem que estão com o pagamento atrasado. Cadastrados afirmam que não receberam o cartão para saque após quatro meses, ganharam vouchers no lugar dos cartões, mas que não funcionam, e ainda enfrentam instabilidade no site ao tentar resolver os problemas.

O governo estadual diz que os depósitos estão em dia, mas reconhece que as instabilidades no site existem e estão sendo corrigidas.

Socorro na pandemia

O Bolsa do Povo, criado para atender famílias pobres e em extrema pobreza, faz pagamentos mensais de R$ 100 a R$ 750. Unifica ações já existentes, como o Renda Cidadã e o Auxílio Moradia, e cria novas, a exemplo do Bolsa do Povo Educação e o Bolsa Empreendedor, totalizando 18 até o momento.

Foi anunciado em abril deste ano pelo governador João Doria (PSDB) como forma de oferecer assistência durante a pandemia de covid-19. De acordo com o governo, R$ 1 bilhão serão investidos somente em 2021, beneficiando mais de 500 mil pessoas, mas a meta é atingir 2 milhões de pessoas no futuro.

Não recebeu pelo trabalho

A dificuldade de receber o pagamento é tema nas redes sociais. Em grupo de Facebook, com mais de 13 mil pessoas, usuários contam seus problemas com o Bolsa do Povo. A reportagem entrou em grupos de WhatsApp que tinham entre 50 a 200 cadastrados, também com reclamações de falta de acesso.

Evodia Lucca Alves, 48, é uma dessas pessoas. Matriculada no Bolsa do Povo Educação, trabalhou em escolas para ajudar no cumprimento de protocolos sanitários contra a covid-19. Mas desistiu do programa em 3 de dezembro. Descontente com o atraso no pagamento mensal de R$ 500, ela preferiu voltar a trabalhar como manicure.

"Eu fui vencida pelo cansaço e pela tristeza. Estava trabalhando de graça", diz.

Moradora do Itaim Paulista, na zona leste de São Paulo, Evodia afirma estar com três parcelas em atraso - teria recebido apenas a de outubro. O cartão pré-pago deveria ter sido entregue em sua casa pelos Correios após sua aprovação no programa, no final de agosto.

No lugar, utilizou um voucher (protocolo e senha fornecidos pelo governo do estado) no caixa eletrônico do Banco do Brasil, responsável pelas transações.

Ao acessar o site do programa, viu um depósito de R$ 1.200, mas só sacou metade do valor. Ela recebe um valor maior porque o filho menor da idade também está no programa, e o pagamento dos dois é feito no mesmo cartão.

Depois de pegar R$ 600, reparou que sua contava estava zerada. Evodia diz ter aberto "pelo menos uns 10 chamados" na central de atendimento, sem contar as mensagens enviadas pelo canal do WhatsApp.

"Eu percebi que os atendentes não estão preparados, não sabem o que falar. Alguns são grosseiros, outros tentam ajudar."

O voucher, segundo ela, está expirado desde que fez o saque do valor. O governo explica que os usuários recebem na área restrita do site um protocolo e senha a cada mês após sacar.

Sua conta no Bolsa do Povo mostra R$ 500 referentes a novembro para retirada, mas, ao tentar sacar no banco, a informação é que não há créditos disponíveis.

Também disse que o site do programa sai do ar ou apresenta erros de carregamento com frequência.

"Eu tinha planos de comprar um guarda-roupa porque não tenho um, arrumar meu fogão e colocar uma nova prótese dentária, já que a minha está bem velhinha."

Fez dívidas para investir

A confeiteira Ellen Nunes do Carmo, 27, enfrenta um problema duplo. Ela também diz ter abandonado o Bolsa do Povo Educação por ter recebido apenas o mês de setembro, mas ainda está inscrita no Bolsa Empreendedor, que banca duas parcelas de R$ 500 para empreendedores investirem em seu negócio.

Além de abrir uma conta MEI, e contribuir mensalmente com uma taxa de R$ 56, Ellen se endividou ao comprar material e ingredientes para preparar pães e bolos. Ela é mãe solo de quatro crianças e vive em Piracicaba (SP).

Também diz que não recebeu cartão, e o voucher está indisponível.

O governo afirma que as parcelas do Bolsa Empreendedor são pagas somente por voucher, a não ser que o beneficiário já esteja inscrito em outro programa e tenha o cartão em mãos.

"Eu sempre quis ter meu negócio, mas esperava um apoio para tirar do papel. Com o dinheiro das vendas, eu pago o que estava atrasado, não consigo investir", desabafa.

Duas prestações atrasadas e demissão

A auxiliar de limpeza Waldelane Rodrigues de Oliveira, 39, é outra usuária do programa que reclama de atrasos nos pagamentos. Também trabalhava no Bolsa do Povo Educação.

Ela recebeu duas parcelas e outras duas estavam atrasadas. Na quarta-feira (15), foi desligada do programa pelo governo, por excesso de faltas.

Entretanto, ela afirma ter apresentado um atestado médico de três dias por suspeita de covid de seu filho, o que justificaria sua ausência.

Antes de ser informada do desligamento, ela chegou a entrar em contato semanalmente com a central telefônica do Bolsa do Povo (0800-7979-800). "Eu já tenho tanto protocolo de atendimento que perdi a conta. Quando ligo, fico de 15 a 20 minutos só na espera."

A reportagem ligou na central 0800 e ficou quatro minutos na linha até ser atendida.

Para tentar resolver o problema, Waldelane entrou em contato com a direção da escola, só que "ninguém sabe o que fazer".

Ela pediu dinheiro emprestado para familiares a fim de pagar luz, água e aluguel da casa no Itaim Paulista onde vive com dois filhos.

O UOL entrou em contato com a Seduc-SP (Secretaria de Educação do Estado de São Paulo) para pedir esclarecimentos sobre a demissão de Waldelane. Em nota, a pasta diz que ela "apresentou comportamento incompatível com as normas de recebimento do benefício, como saídas antecipadas sem cumprimento da carga horária de quatro horas diárias."

"Em relação aos atrasos no pagamento da beneficiária, há pendências no fluxo de sua documentação, e a escola já foi orientada sobre como regularizar a situação. Para as parcelas que a beneficiária não recebeu, será feita uma aferição da frequência com a unidade escolar e efetuado o pagamento retroativo em janeiro", informa.

Governo nega atrasos, mas vê erros no site

A Prodesp, empresa de tecnologia do governo que operacionaliza o Bolsa do Povo, afirma que todos os pagamentos estão em dia.

A empresa diz que 57 mil usuários estão sem o cartão atualmente. Nesses casos, o depósito é substituído por voucher.

Segundo a empresa, os cartões ainda não chegaram às casas dos beneficiários por duas razões: endereço desatualizado e falta de cobertura dos Correios, em áreas como favelas e zona rural.

O diretor da Prodesp, Murilo Macedo, afirma que, após o recebimento do cartão, o beneficiário deve desbloqueá-lo por meio do site do Bolsa do Povo ou pelo telefone 0800.

O diretor diz que todos os cartões serão entregues até fevereiro de 2022. "Mas, se não receber até lá, a pessoa vai continuar sendo paga em voucher."

Quanto à instabilidade do site, Macedo diz que o sistema tem passado por melhorias e que o problema deve ser resolvido em breve. A reportagem compartilhou três prints de erros na página enviados pelas entrevistadas.

Para cada caso, a empresa respondeu que "se trata de uma instabilidade do sistema, que já está sendo corrigida."

Ao ser questionado se as usuárias que desistiram do programa serão pagas, Murilo Macedo afirmou que todas receberão o pagamento.

O único impedimento é se alguém não cumprir a frequência mínima de 70% das atividades do Bolsa do Povo.

Como entrar em contato com o Bolsa do Povo

Site: https://www.bolsadopovo.sp.gov.br/

Central de atendimento: 0800-7979-800, de segunda a sexta, das 8h às 8h

WhatsApp: (011) 98714-2645.

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