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Desempregado, engenheiro mora na casa da mãe e pensa em mudar de profissão

Engenheiro mecânico Leandro Galvão, 40, morador de Campo Limpo Paulista (SP), que está desempregado desde dezembro do ano passado - Arquivo Pessoal
Engenheiro mecânico Leandro Galvão, 40, morador de Campo Limpo Paulista (SP), que está desempregado desde dezembro do ano passado Imagem: Arquivo Pessoal

Marcela Lemos

Colaboração para o UOL, no Rio de Janeiro

30/06/2022 04h00Atualizada em 30/06/2022 09h56

O desemprego continua sendo uma preocupação no dia a dia de 10,6 milhões de brasileiros, apesar de a taxa ter caído para 9,8% no trimestre encerrado em maio. É o caso do engenheiro mecânico Leandro Galvão, 40, morador de Campo Limpo Paulista (SP), que está desempregado desde dezembro do ano passado —quando a empresa para onde prestava serviço encerrou um contrato de trabalho temporário que durou ao todo nove meses.

Antes, ele já havia ficado desempregado por dois anos, em 2019 e 2020. Com dificuldade de se reinserir no mercado de trabalho, o engenheiro já pleiteia vagas em outros estados, como na região Norte do país, e começa a cogitar emprego em outras áreas diferentes da qual se formou.

"Tenho buscado emprego em outros estados, nem tenho mais procurado em SP, é muito concorrido. Tenho visto vagas no Rio, mas também é difícil. Tenho procurado até na região Norte. Estou disposto a mudar já".

Segundo Leandro, somente neste ano, ele já participou de 20 entrevistas, mas as empresas acabaram optando por demais candidatos. Para ele, a dificuldade de conseguir uma vaga ocorre devido a uma série de problemas no país.

"Nunca vi um período tão ruim. De quatro anos para cá, ficou horrível. As empresas parecem ficar de olho na movimentação do governo, que parece estar preocupado com a eleição apenas. Teve a pandemia, o aumento exorbitante de preços. Tá difícil."

Leandro é casado e não tem filhos. Ele vive atualmente com a esposa, que é professora, em uma casa nos fundos do terreno dos pais. Atualmente, ele vive das economias do salário do trabalho temporário e de alguns poucos bicos que aparecem.

Demitida em 2020 e até hoje sem trabalho

Após ficar afastada do trabalho por causa da doença da filha mais nova, hoje com 13 anos, a empregada doméstica Maria Francisca Costa Novaes, 50, acabou sendo dispensada da casa onde trabalhava no Rio de Janeiro em meados de 2020. Desde então, a funcionária não conseguiu mais um emprego de carteira assinada.

Maria Francisca contou ao UOL que a antiga patroa tentou o afastamento dela pelo INSS, mas não conseguiu, pois a legislação previdenciária não prevê auxílio-doença parental.

Maria Francisca - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
A empregada doméstica Maria Francisca Costa Novaes, 50, foi dispensada da casa onde trabalhava no Rio em meados de 2020
Imagem: Arquivo Pessoal

Desde então, a funcionária doméstica tem se virado com as poucas diárias que consegue fazendo faxina e com a venda de pão de mel.

"Eu vou três vezes ao consultório da minha ex-patroa para ajeitar tudo lá, vendo pão de mel e recebo o Auxílio Brasil no valor de R$ 400 e assim vou me segurando".

Mãe de duas meninas, Maria atribui à pandemia e à inflação a dificuldade de conseguir trabalho.

"Acho que a pandemia piorou muito, o preço das coisas está um absurdo, as pessoas estão sem dinheiro e quando conto da minha filha, acham que eu vou ficar faltando ao trabalho".

A filha mais nova da funcionária doméstica faz tratamento de câncer no Inca (Instituto Nacional do Câncer).

Em busca de trabalho longe da família

Klenilson dos Santos Ferreira, 30 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Klenilson dos Santos Ferreira, 30, deixou a cidade de Manaus (AM) e chegou ao Rio neste mês em busca de trabalho
Imagem: Arquivo pessoal

Klenilson dos Santos Ferreira, 30, deixou a cidade de Manaus (AM) e chegou ao Rio neste mês em busca de trabalho. Desempregado desde abril, o pai de três crianças (2, 5 e 10 anos) deixou a família para trás temporariamente, acreditando que seria mais fácil conseguir uma oportunidade na capital fluminense.

Até abril, ele trabalhou em um projeto temporário da Prefeitura de Manaus como motorista. Não tinha carteira assinada e não pôde receber o seguro-desemprego após o fim do contrato de trabalho.

Em Manaus, Klenilson era o responsável por levar enfermeiros até a casa de pacientes para fazer coletas de sangue e exames como PCR para identificação do vírus da covid-19, entre outros.

Sozinho no Rio, ele contou que estipulou o prazo até julho para conseguir um emprego.

"Eu nunca me separei da minha família. A minha intenção é trazê-los para cá, que é bem maior que Manaus e tem mais opção de empresas ou empresas maiores. Em Manaus, há um polo industrial, mas as empresas estão demitindo".

Ele também avalia que a pandemia de covid-19 foi uma das responsáveis pela piora do mercado de trabalho.

"A pandemia atrapalhou muito, a maioria das coisas fechou, muitas lojas fecharam as portas. Agora parece que está voltando ao normal, vamos ver se melhora".

Ele contou que tem passado os dias se revezando entre a entrega de currículos e a procura online por vagas de motorista de caminhão, micro-ônibus ou segurança.

Klenilson tem se mantido com economias. A família dele não recebe nenhum benefício do governo federal.

Formado e sem trabalho

Fisioterapeuta - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Ricardo Santana, 22, é fisioterapeuta em Salvador (BA) e ainda não conseguiu o primeiro trabalho na área
Imagem: Arquivo Pessoal

Quase cinco meses após se formar em fisioterapia, Ricardo Santana, 22, morador de Salvador (BA), ainda não conseguiu o primeiro trabalho na área. Ele contou ao UOL que chegou a cadastrar o currículo em inúmeras plataformas de emprego, mas não teve o retorno esperado.

Ricardo, que mora com a mãe e com o irmão, avalia que um conjunto de fatores, incluindo a pandemia, contribuiu para a escassez de vagas no estado.

"Aqui é a capital do desemprego, e aí veio a pandemia, fechou tudo, o ensino ficou em EAD [à distância] e isso atrapalhou muito e comprometeu até o networking. A cultura de trabalho hoje é de quem indica, e eu não tenho a experiência e a especialização que pedem nas poucas vagas que existem."

Na semana passada, ele chegou a fazer uma postagem do Linkedin à procura de uma oportunidade. Propôs até desempenhar outras funções, como atendimento ao cliente e recepcionista.

No auge da pandemia, a família dele precisou contar com o auxílio emergencial do governo. A mãe de Ricardo trabalha como autônoma em um salão de beleza. Na ocasião, ela foi mantida em casa devido ao fechamento do estabelecimento como medida de proteção contra o vírus.