PUBLICIDADE
IPCA
-0,68 Jul.2022
Topo

Nathalia Arcuri: Governo não vai aliviar nosso bolso já; 'é cada um por si'

Nathalia Arcuri, da Me Poupe!, lançou um projeto piloto de um aplicativo de gestão financeira - Divulgação
Nathalia Arcuri, da Me Poupe!, lançou um projeto piloto de um aplicativo de gestão financeira Imagem: Divulgação

Giuliana Saringer

Do UOL, em São Paulo

29/07/2022 04h00Atualizada em 29/07/2022 14h36

A fundadora e CEO da plataforma de finanças Me Poupe!, Nathalia Arcuri, que tem mais de 7 milhões de inscritos no canal do YouTube, disse em entrevista ao UOL que os brasileiros estão "abandonados" e que cada um deve buscar uma solução para melhorar sua vida. "É cada um por si."

"Acho que nada do que o governo fizer vai resolver o problema que temos hoje. Temos que parar de esperar resultado em curto prazo. O Brasil está do jeito que está porque sempre queremos um resultado agora", afirma Arcuri.

"Nada do que é feito para gerar resultado a curtíssimo prazo tem sustentabilidade no longo prazo. Ou nós, como sociedade, começamos a cobrar incentivos e políticas que vão gerar resultados no médio e longo prazo, baseadas em educação, ou sempre vamos estar correndo atrás do próprio rabo", diz.

A Me Poupe! lançou um projeto piloto de um aplicativo que usa inteligência artificial para que o usuário faça sua gestão financeira. Por enquanto, a ferramenta está sendo usada por um grupo específico de pessoas e estão ajudando a testar as funcionalidades do aplicativo. O lançamento para o público geral deve acontecer em outubro.

O app, chamado Me Poupe!, usa a metodologia criada por Arcuri que é baseada em definir a vida financeira no presente, entender quais os objetivos e metas para curtíssimo, curto, médio e longo prazo, criar uma estratégia para viver mais gastando menos e, por fim, ganhar mais dinheiro e investir melhor.

Leia os principais trechos da entrevista de Arcuri:

UOL - A inflação disparou 11,89% em um ano. Faz sentido falar em economizar e investir para pessoas que estão com dificuldade para comprar o básico, como comida e gasolina?

Nathalia Arcuri - Deveria fazer mais do que nunca. Educação financeira não é só sobre investir e economizar, é sobre você ter controle sobre seu dinheiro. Hoje precisamos falar sobre consciência financeira.

De fato, não dá para economizar. Temos que começar a ensinar o brasileiro a gerar mais renda, que é o que eu estou fazendo desde o começo do ano.

Estamos vivendo um dos piores momentos de desemprego dos últimos 20 anos e, ao mesmo tempo, existe uma massa de vagas abertas sem profissionais qualificados. Nós não temos mão de obra qualificada, porque falta uma capacitação que começa lá na educação básica.

O Brasil tem um dos piores índices do Pisa [avaliação de desempenho escolar internacional]. Somos ruins em matemática, língua portuguesa, finanças, interpretação de texto, ciências.

Como eu vou falar em educação financeira para uma população que não sabe nem fazer conta? Infelizmente quem consegue ter acesso ao conteúdo que fazemos hoje é uma camada média da população que tem pelo menos o básico que é o estudo de qualidade.

Temos que pressionar cada vez mais os entes privados e públicos para que a gente tenha educação de qualidade, porque senão todo resto deixa de fazer sentido.

Muitos brasileiros estão trocando almoço por lanche, mudando as marcas de produtos e levando proteínas mais baratas do mercado para economizar. Como a pessoa consegue readequar o orçamento familiar em um momento de crise?

O primeiro ponto é fazer anotações diárias em relação a absolutamente tudo, porque isso vai dar um panorama geral de para onde seu dinheiro está indo.

Outro ponto é entender quanto você está pagando de juros. As pessoas vieram de um ciclo virtuoso, com muito crédito, e hoje estão pagando caro por isso, porque não tiveram educação financeira para poder saber até onde poderiam se comprometer em relação a esse crédito.

Se a pessoa tem uma taxa alta de juros, precisa trabalhar para reduzir. Com menos juros, a parcela fica mais barata e sobra mais dinheiro para o presente. Se não tem como reduzir, você pode prolongar as parcelas. Ainda que no fim fique mais caro, estamos falando em aliviar o bolso imediatamente.

Do outro lado, fazer renda extra. Vender coisas não só suas, pedindo comissão pelas vendas, usar aplicativos de recomendação e afiliados digitais, que é um jeito de ganhar dinheiro sem sair de casa, só com o celular. São formas de renda extra que o dinheiro não precisa vir na frente.

É possível pensar em ter contas organizadas e em dia quando se tem milhões de brasileiros vivendo de emprego informal, que não sabem quanto dinheiro vai entrar no mês?

Sim, é possível. Nunca fomos ensinados a planejar. Toda empresa chega a um momento do ano em que ela projeta o ano futuro e toma as decisões necessárias para que aquele futuro se concretize.

É isso que os autônomos precisam começar a fazer. A vida do autônomo pode ser inclusive muito melhor do que a do CLT. Se tiver as ferramentas corretas, pode ganhar muito mais dinheiro.

Eu vejo muitos autônomos que não criam métricas de negócio para ter clientes recorrentes. A pessoa nunca sabe quanto vai ganhar, porque não tem nenhum cliente fixo. Se eu tiver pelo menos três clientes fixos como autônomo, já tenho o mínimo de previsibilidade para o mês.

No começo do ano, a Caixa liberou um empréstimo para MEIs com nome sujo investirem no próprio negócio. Quando tomar dinheiro emprestado para essas finalidades pode se tornar um risco?

Tem os dois lados da moeda: se não ofertamos crédito, a pessoa não sobrevive e, se oferecemos crédito, ela corre o risco de se ferrar mais ainda.

A liberação de uma verba de crédito é fundamental em momento de crise, porém se quem está tomando esse crédito não tiver o cuidado de ter o planejamento de como usar o recurso e só pegar o dinheiro para comprar mantimento para a família...

Sabemos que a família está passando necessidade, mas o foco precisa ser usar o dinheiro para investir no negócio e a partir dele conseguir ter o que chamamos de uma vaca leiteira.

Quando você tem o dinheiro do crédito e decide gastar com o dia a dia, você usa a vaca para o abate. Quando você pega o dinheiro do crédito e investe no negócio, é como se você estivesse com uma vaquinha leiteira que vai dar leite sempre para você.

O presidente Jair Bolsonaro se reuniu recentemente com embaixadores e atacou a urna eletrônica. Ele tem criado um clima de instabilidade política entre os Poderes, e nós já estamos atravessando uma crise por causa da pandemia. Como essa instabilidade afeta o brasileiro no dia a dia, principalmente o bolso?

Vários eventos aconteceram simultaneamente: a pandemia, depois a guerra [na Ucrânia], a instabilidade econômica gerada pelo rastro da pandemia e as eleições presidenciais.

É só olharmos para indicadores do Ibovespa para percebemos que uma instabilidade política, uma fala mal interpretada, ou mal encaixada, ou uma fala que realmente quis dizer aquilo, reflete diretamente no apetite do mercado sobre o Brasil.

Pode até parecer que está muito distante da Joaquina que ganha um salário mínimo e precisou trocar a carne vermelha por ovo, porque ela não consegue mais pagar aquilo, mas não está.

Se quem tem dinheiro vê o Brasil como uma ameaça e entende que tem que levar o dinheiro para outro lugar, temos uma escassez de dólar aqui dentro. O preço do dólar em relação ao real sobe e todos aqueles produtos que são conectados a commodities também vão subir: trigo, gasolina, ferro, aço.

Isso impacta diretamente o bolso da Joaquina. Ou seja, sim, um espirro do presidente pode fazer você ter que comprar lenços e não ter dinheiro para isso.

O que o governo precisaria fazer em termos de políticas públicas para aliviar o bolso das pessoas neste momento que estamos vivendo?

Eu gostaria muito de ter essa resposta, mas infelizmente para este momento acho que nada do que ele [o governo] fizer vai resolver o problema que temos hoje. Temos que parar de esperar resultado a curto prazo. O Brasil está do jeito que está também porque sempre queremos um resultado agora.

Nada do que é feito para gerar resultado a curtíssimo prazo tem sustentabilidade no longo prazo. Ou nós, como sociedade, começamos a cobrar incentivos e políticas que vão gerar resultados no médio e longo prazo, baseadas em educação, ou sempre vamos estar correndo atrás do próprio rabo.

Acho que nesse momento é cada um por si. Defenda-se como puder, estude, capacite-se e faça dinheiro, porque nós estamos abandonados. Essa é a realidade.

Qual o melhor caminho para o investidor que está começando agora? Como se organizar para construir patrimônio no longo prazo?

Se eu pudesse dar uma única orientação é buscar capacitação, conhecimento e não esperar respostas prontas. Quanto mais esperarmos por respostas prontas para uma solução complexa, vamos continuar sem sair do lugar.

Meu papel é contar essa verdade que às vezes é dura. Não tem salvador da pátria, é você com seu conhecimento. Também precisamos começar a ser mais atuantes na política. Desde que eu nasci, não estou feliz com o que eu recebo como cidadã.

O Brasil é o pior na relação de imposto cobrado versus benefício gerado. Isso que precisamos começar a provocar cada vez mais. E ficar falando do político A ou B também não resolve o problema. Temos que começar a falar mais dos problemas e não dos agentes.