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De espionagem a doações: qual é a relação da Varig com o nazismo?

Justiça do Rio de Janeiro decretou falência da Varig em 2010 - Getty Images
Justiça do Rio de Janeiro decretou falência da Varig em 2010 Imagem: Getty Images

Alexandre Santos

Colaboração para o UOL

26/02/2023 04h00

Um estudo brasileiro aponta que a Varig, uma das maiores companhias de aviação do mundo em sua época, teria mantido uma estreita ligação com o nazismo. Segundo relatos do historiador gaúcho Alexandre Fortes ao podcast "Rádio Novelo Apresenta", suas pesquisas encontraram dossiês da época da Segunda Guerra Mundial que comprovariam a conexão da empresa com o regime de Adolf Hitler. A família de Otto Ernst Meyer, fundador da Varig, negou qualquer relação.

A ligação teria se dado com Otto Ernst Meyer. Ele era um alemão que criou a Varig em 1927, seis anos após chegar ao Brasil, segundo a dissertação de mestrado de Fortes apresentada na Unicamp.

Meyer é citado como parte de um suposto esquema de espionagem nazista em solo brasileiro. Documentos do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) do Rio Grande do Sul apontam que aparatos instalados no Brasil passavam informações à Alemanha.

A descoberta do Dops data de novembro de 1939, dois meses após a Alemanha ter invadido a Polônia e dado início à Segunda Guerra Mundial e cita que:

  • uma varredura no aeródromo São João, onde a Varig operava, achou um amontoado de caixas com peças para montagem de um radiotransmissor;
  • a polícia rastreou uma carga e identificou que o material foi levado por um avião da companhia com destino a Rio Grande, no sul do estado;
  • os apetrechos foram apreendidos antes mesmo de chegarem ao navio alemão.

O que me surpreendeu foi que, ao abrir esses arquivos do Dops, encontrei o primeiro arquivo que fazia vinculação da Varig com o nazismo e com a Segunda Guerra Mundial, que é um dossiê sobre a instalação de radiotransmissores num barco a vapor que tinha ficado retido no porto de Rio Grande, no início da Segunda Guerra, porque o Brasil se declarou neutro. Esse vapor, por coincidência, além de estar no porto de Rio Grande, tinha o nome de 'Vapor Rio Grande' -- mas era um vapor alemão.
Alexandre Fortes, historiador, durante podcast da Rádio Novelo

A guerra no Atlântico

Submarinos alemães teriam sido informados sobre movimentações de embarcações no sul do Atlântico. Assim, o regime nazista sabia quais embarcações inimigas navegavam pela região.

Fortes conclui que o regime nazista usou a Varig. A empresa aérea teria sido um apoio operacional para as ações de espionagem em solo brasileiro. O Brasil teve incidentes com centenas de mortes no Atlântico.

Nós sabemos que cerca de 2.000 brasileiros morreram em ataques submarinos alemães no período da guerra. 600 deles morreram numa sucessão de seis ataques de um único submarino entre Sergipe e Bahia, ou seja, esse sistema de espionagem alemão custou vidas brasileiras. Estava voltado para a batalha no Uruguai, mas era parte dessa estrutura que foi usada posteriormente contra o Brasil.
Alexandre Fortes

Os radiotransmissores também seriam usados para dar cobertura a navios alemães. Essas embarcações travaram batalhas contra navios ingleses em Punta del Este, no Uruguai, durante a Batalha do Rio da Prata.

O sistema de espionagem acabou desmontado em 1942, pela polícia brasileira e o FBI (Departamento de Investigação Federal dos Estados Unidos).

Ligação de Meyer com o partido nazista

Meyer seria doador regular do Partido Nazista, segundo Fontes. A informação teria sido levantada pelo Dops em 1942, quatro anos após a "Noite dos Cristais", evento considerado marco inicial do Holocausto na Europa, com perseguição e morte de judeus.

Os aviões da Varig também teriam transportado dinheiro para o Partido Nazista no Brasil. O partido operou no país entre 1928 e 1938 e chegou a ser considerado por historiadores a maior representação nazista fora da Alemanha. Segundo Fortes, as aeronaves da companhia também distribuíram correspondências com propaganda do regime extremista.

O Meyer trocava correspondências com alguns espiões nazistas que tinham sido presos pela polícia brasileira no início de 1942, sempre encerradas com 'heil, Hitler'.
Alexandre Fortes

Crime de guerra, prisão e caso 'abafado'

A polícia brasileira apontou Otto Ernst Meyer como responsável por crime de guerra. Isso aconteceu após o desmonte de parte da estrutura de espionagem, mas acabou com o alemão ficando apenas dias detido, em 1940. No ano seguinte, o inquérito sobre o caso foi concluído sem mencionar culpados.

Sob pressão, Otto Meyer deixou a presidência da Varig no mesmo ano. Em uma publicação sobre sua história, a empresa diz que a entrada do Brasil na Segunda Guerra fez com que ele se afastasse da empresa para protegê-la, já que ele era de origem alemã. Em seu lugar assumiu o gaúcho Ruben Martin Berta, o primeiro funcionário da companhia, contratado pelo próprio Meyer.

Para Fortes, a espionagem nazista nunca ganhou a devida atenção por ter sido "abafada", com ajuda da influência político-econômica de Meyer — poder que foi fundamental para o crescimento da Varig.

Família de Meyer nega envolvimento

André Meyer, neto de Otto Ernst Meyer, rechaçou qualquer ligação do avô com o nazismo. "Na minha família nunca se abordou qualquer ligação do meu avô ou da empresa [a Varig] com o nazismo. Nunca fiquei sabendo de ele ter participado, de alguma maneira, num partido que por aqui existia e que simpatizava com o nazismo".

Ele também questiona a autenticidade do material levantado pelo Dops e diz que o fundador da Varig fora alvo de perseguição.

Isso posto, e sem ter visto qualquer do material do Dops, não descarto a possibilidade de algum material ter sido preparado por alguém interessado em se livrar do meu avô e assumir o comando da Varig, quem sabe. Pergunto: foi feita alguma perícia no material para comprovar sua autenticidade?
André Meyer, neto de Otto Ernst Meyer

"Meu avô chegou ao Brasil em 1921. Em 1927, aos 29 anos de idade, conseguiu reunir um grupo de investidores e fundou a Varig. O primeiro funcionário, contratado ainda antes da fundação da empresa, foi Ruben Berta. Na sequência, meu avô abriu mão da cidadania alemã e naturalizou-se brasileiro. Várias vezes me disse que era mais brasileiro do que eu, pois eu nasci no Brasil, e ele escolheu ser brasileiro", declarou.

A trajetória da Varig

  • A Viação Aérea Riograndense (Varig) foi fundada em 7 de maio de 1927, pelo imigrante alemão Otto Ernst Meyer
  • Em 1944, Meyer, presidente da companhia desde sua fundação, entregou o controle ao primeiro funcionário, Ruben Berta, que a presidiu até a morte, em 1966 -- mesmo ano da morte de Meyer
  • A Varig viveu tempos áureos entre as décadas de 1960 e 1980, quando foi comparada à Pan American World Airways, maior empresa de aviação do mundo à época.
  • Ficou também conhecida por seu serviço de bordo de excelência: passageiros da primeira classe tinham direito a caviar e usavam talheres de metal e copos de vidro.
  • Em julho de 2006, a Varig entrou em processo de recuperação judicial, com dívidas estimadas em R$ 7 bilhões.
  • Em 2007, companhia passou às mãos da Gol Linhas Aéreas Inteligentes. Impedida de operar voos com a própria marca, a Fundação Ruben Berta, administradora da companhia, criou a Flex Linhas Aéreas, que chegou a operar voos regulares comissionados pela Gol.
  • Em 2010, a Justiça do Rio de Janeiro decretou a falência da empresa.