Como lidar com amigos e parentes que se tornam sócios na sua empresa

Quando Roseane Moraes de Oliveira Trindade, 42, pensou em empreender, lembrou imediatamente das habilidades da irmã, Thais Moraes de Oliveira Borges, 27, com vendas e a chamou para ser sua sócia. Hoje, as duas são donas da Loja Fuso, de roupas femininas, em Guaíba (RS), que tem instalação física e forte presença na comercialização pelas redes sociais WhatsApp e Instagram.

Negócio em família

Trabalho em equipe. As duas afirmam em uníssono que nunca se desentenderam, que tudo é decidido em comum acordo e que cada uma explora o que tem de melhor em área distintas da empresa. Thais cuida da parte digital do negócio, e Roseane é responsável pela administração e finanças. Porém, ambas atendem clientes, já que muitas vendas começam no digital e são finalizadas na loja.

Divergência existe, claro, mas a gente conversa e analisa os fatos. Minha irmã estava querendo comprar uma televisão para a loja, e eu um ar-condicionado. Nós avaliamos o que era mais importante no momento e optamos pelo ar-condicionado. Claro que eu quero comprar outras coisas, mas a prioridade para a próxima aquisição será televisão, em respeito ao nosso equilíbrio.
Roseane Moraes de Oliveira Trindade, empresária

Como trabalhar em sociedade

Busca constante pelo equilíbrio. O diálogo, a divisão de responsabilidades dentro do negócio e o respeito sobre a tomada de decisão de cada um dos sócios são os pilares para uma sociedade saudável e equilibrada, principalmente entre parentes e amigos, segundo Roberta Sodré, consultora do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) de São Paulo.

Cada um tem o seu papel. "O que é combinado, sai barato. É preciso separar a amizade dos negócios, registrar em documento as responsabilidades de cada um, se os dois vão trabalhar ou se um será apenas sócio investidor, enfim, o papel de cada um no negócio. É preciso ter esta clareza para não sofrer depois", diz Roberta.

Sócio deve se completar, não ser igual. Antes de procurar um sócio, a consultora do Sebrae também orienta o empreendedor a buscar pessoas com perfis complementares e não iguais. "Se eu adoro finanças e não tenho habilidades com vendas, o ideal é encontrar alguém que tenha este perfil vendedor para somar ao negócio. Se os dois forem iguais, quem cuidará da parte que nenhum domina?", explica Roberta.

A sociedade também precisa estar descrita no contrato social com todos os detalhes acordados. "É importante consultar um advogado para estabelecer os limites da sociedade. Se um deles é casado em comunhão universal de bens, o cônjuge passa a ter direitos sobre o negócio em caso de separação, por exemplo. As duas partes precisam saber sobre esse risco", afirma a consultora.

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Respeito às decisões. Se um sócio é responsável pelas admissões e demissões da empresa, o outro tem de respeitar, mesmo que tenha um desentendimento com um colaborador, exemplifica a consultora. "Ele pode conversar com o sócio para chegarem a um acordo, e não demitir, passando pela autoridade do outro."

Como evitar conflitos

A criação de um estatuto muito claro, que defina as regras do jogo, minimiza conflitos posteriores. É o que afirma Eduardo Yamashita, COO da Gouvêa Ecosystem. "Com o estatuto, é possível estabelecer quais são os quóruns necessários para a tomada de decisão, que tipo de decisão pode ser tomada e isso é fundamental para a convivência em momentos de conflito."

Esse é um dos gargalos da maior parte das empresas brasileiras familiares ou de menor porte menor. Segundo Yamashita, essas empresas não dispõem de um estatuto para servir de apoio consultivo sobre quais são as regras em caso de divergência, nem do apoio de advogados para redigir bem esses termos. "São pontos centrais que a gente encontra em muitas empresas."

Remuneração é um ponto que pode gerar dúvidas e desavenças. Ainda existe uma grande confusão, uma falta de clareza nas empresas sobre o que é pro labore e o que é dividendo, e isso acaba gerando ruídos no negócio, conta Yamashita. Pro labore é a remuneração de uma pessoa, seja sócia ou não. É o quanto ela recebe pelo trabalho que está desempenhando. Já a distribuição de dividendos é o compartilhamento dos lucros de uma operação no final do período.

Muitas vezes os dois são confundidos e o pro labore é misturado com dividendos e vice-versa. O ideal é que o pro labore dos executivos, ou sócios, seja uma remuneração compatível com o mercado. Se, por exemplo, precisar substituir um dos sócios, pela mesma remuneração, é possível trazer alguém do mercado para o seu lugar, explica Yamashita.

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Casal é sócio igualitário há 10 anos

Juliano Lisa, 43, e Lilian Mara Teodoro Lisa, 42, criaram a Empório Coisas de Minas, em 2013. A rede virou franquia, em 2017, e, atualmente, conta com 13 lojas divididas entre os estados de São Paulo e Bahia. Lisa conta que, desde o início, os dois dividiram suas áreas de atuação. Ela é diretora de desenvolvimento de produtos, compras e marketing, e ele é diretor financeiro e administrativo.

Criamos a divisão para que cada um tivesse autonomia na sua área e, assim, evitarmos conflitos. Nossa estratégia deu tão certo que não me lembro de nenhum atrito que tivemos nesses 10 anos para poder contar. Claro que trocamos ideias quando precisamos tomar uma decisão, mas um respeita o espaço do outro.
Juliano Lisa, empresário

Lisa afirma que a sociedade está prevista em contrato e que cada um detém 50% do negócio. Como dica para os novos empreendedores, ele fala que é fundamental que os sócios estejam igualmente focados no negócio, de corpo e alma. "Seja marido e mulher, pai e filho ou amigos, a partir do momento que um desempenha mais tarefas que o outro, se for uma sociedade igualitária, um deles se sentirá prejudicado e a relação começará a pesar. É essencial que os dois desempenhem realmente a mesma função e tenham o mesmo peso na empresa. Não acredito no sucesso com algum parente ou amigo como sócio investidor, por exemplo", diz.

Para a consultora do Sebrae, no entanto, pode haver a relação de sócio investidor sem prejuízo à empresa, desde que isso esteja bem claro no contrato. "Se for investidor terá participação no lucro, se for sócio igualitário, terá pro-labore."

Sócios definem impasse com votação

Michel Cabral, 35, criou a Vixting, empresa de gestão de saúde ocupacional, em 2009. Em 2020, ofereceu a sociedade ao amigo Denisson Felipe, de 26, para ser seu sócio, e, em 2021, estendeu o convite ao amigo Rafael Villar, 40.

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A empresa passou por um reposicionamento de marca, por isso Cabral convidou os amigos para a sociedade. Cada um tem um cargo em uma área distinta. Michel é o CEO e cuida da estratégia de expansão e marketing, Rafael é diretor de operações e finanças, e Denisson é CTO, responsável pela área de tecnologia.

Nós três somos muito diferentes, mas conseguimos conviver em harmonia. Porém, quando ocorre algum empasse, optamos pela votação, já que somos três. Michel Cabral, empresário

A sociedade é firmada em contrato. Cabral é sócio majoritário e os outros dois têm percentual igual na empresa. Mesmo seguindo em áreas distintas, os três dividem seus pontos de vista no dia a dia sobre as operações da companhia.

Problemas nem sempre são óbvios e têm respostas claras

Nem sempre é fácil identificar os problemas. Muitos dos problemas que podem surgir numa sociedade com parentes ou amigos, podem não ser fáceis de identificar, segundo Eduardo Yamashita, COO da Gouvêa Ecosystem.

Muitos aspectos no dia a dia das empresas em que a decisão tem o componente da experiência de vida. É diferente de falar que 1 + 1 é 2, é mais uma questão de qual é a melhor cor: roxo ou azul. Então, você não tem uma questão matemática, lógica. Tem mais o aspecto de opiniões e experiência de vida e de caminhos que gostaria de seguir. Esse tipo de conflito é aquele que traz maior dificuldade de ser endereçado e resolvido.
Eduardo Yamashita, COO da Gouvêa Ecosystem.

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