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Brasil deve obter cotas e já negocia com indústria dos EUA exceções para o aço, diz Rubens Barbosa

27/03/2018 15h38

Por Iuri Dantas

SÃO PAULO (Reuters) - Os fabricantes brasileiros de aço e alumínio já negociam com seus clientes norte-americanos um acordo que estabeleça uma espécie de cotas de produtos a serem comercializados, disse à Reuters Rubens Barbosa, presidente do Conselho de Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e consultor de empresas brasileiras.

A estratégia está sendo pensada para que ambos os lados não sejam fortemente afetados pela política do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que elevou as tarifas de importação de aço e alumínio sob o argumento técnico de que se trata de uma questão de segurança nacional.

"No fundo, no fundo, são cotas que eles vão estabelecer", disse o embaixador, que auxilia siderúrgicas do lado brasileiro na empreitada. "Essa negociação já vem um pouco com cartas marcadas, os Estados Unidos vão querer o que estão chamando lá de 'voluntary expansion restriction', que são esses acordos de restrição voluntária de exportação", acrescentou.

Na semana passada, o Brasil foi excluído por 30 dias da aplicação de taxas de 25 por cento sobre o aço e de 10 por cento sobre o alumínio impostas pelo governo Trump. Ao mesmo tempo, o Departamento de Comércio abriu prazo para que empresas norte-americanas peçam a exclusão de seus fornecedores. Na Fiesp, Barbosa tem conversas estratégicas com as siderúrgicas brasileiras sobre ambas as negociações.

O movimento de Trump causou fortes reações nos mercados financeiros e entre agentes econômicos, com temores de que possa desencadear uma guerra comercial global.

"O Brasil tem vantagens: primeiro, não é superavitário, é deficitário há muitos anos com os Estados Unidos. Segundo, os produtos exportados são insumos, para a produção de aços especiais pela industria norte-americana", argumentou Barbosa, que também tem trabalhado com a equipe do governador de São Paulo e pré-candidato à Presidência do PSDB, Geraldo Alckmin

Apesar de acreditar que as fabricantes brasileiras Gerdau e CSN devem obter cotas para vender aos Estados Unidos produtos ou quantidades de aço semimanufaturado sem pagamento das tarifas, para o embaixador negociações deste tipo tendem a cobrar um preço e não há ganhadores. Ele lembra que, com isso, o Brasil passará a ter um custo que hoje não existe.

GUERRA?

Ex-embaixador brasileiro em Washington de 1999 a 2004, Barbosa avalia que as tensões entre Estados Unidos e a China não devem escalar a ponto de se transformarem em uma guerra comercial mais ampla, embora haja "sério risco" de que isso aconteça.

"Acho que isso vai aquecer, mas não vai deslanchar nenhuma guerra comercial porque os 'stakes' são muito altos: o comércio está crescendo a 3,5 por cento, a economia (mundial) está crescendo a 3,5 por cento", argumentou. "Vai haver muito 'fireworks', mas a coisa vai ficar contida, até mais na frente."

Para ele, EUA e China possuem pontos de tensão comercial que indicam grandes dificuldades e eventualmente problemas para o sistema multilateral de comércio.

De um lado, os norte-americanos prometem questionar na Organização Mundial do Comércio (OMC) a definição da China como economia de mercado, políticas de propriedade intelectual, limitação de investimentos em território chinês e benefícios tributários.

Por outro, os chineses devem buscar o árbitro do comércio contra as taxas em aço e alumínio, além de tarifas impostas a 60 bilhões de dólares em produtos chineses vendidos para os EUA.

"Se a China leva à OMC a questão da segurança nacional e ela ganha, os EUA podem querer sair da OMC, e se ela perde, os EUA ganham, outros países podem começar também a aplicar segurança nacional", explicou o embaixador.

"Tudo isso aí não é amanhã. Tem um longo período de conturbação no mercado internacional, mas acho que as coisas não vão sair do controle."

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