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A apoiadores, Bolsonaro minimiza eficácia da CoronaVac, mas diz que vacina "é do Brasil"

18/01/2021 12h28

Por Lisandra Paraguassu e Ricardo Brito

BRASÍLIA (Reuters) - Um dia após o governo paulista ter deflagrado a vacinação contra Covid-19 no país com a CoronaVac, o presidente Jair Bolsonaro voltou a duvidar em conversa com apoiadores da eficácia do imunizante chinês, ao mesmo tempo que disse que essa vacina não é de "nenhum governador" e sim "do Brasil".

Em conversa com apoiadores na saída do Palácio da Alvorada, Bolsonaro voltou a insistir em um alegado tratamento precoce contra a Covid-19, apesar de a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) negar a existência de tal terapia.

A Anvisa aprovou no domingo o uso emergencial da CoronaVac, desenvolvida pela chinesa Sinovac, e da vacina AstraZeneca/Oxford, mas Bolsonaro não havia comentado a decisão até esta manhã. Em conversa com apoiadores na saída do Palácio da Alvorada, tomou a iniciativa, mas não demonstrou contentamento com o avanço.

"Apesar da vacina... Apesar, não. A Anvisa aprovou, não tem o que discutir mais. Agora, havendo disponibilidade no mercado, a gente vai comprar e vai atrás de contratos que fizemos também, que era para ter chegado a vacina aqui", disse Bolsonaro, antes de divulgar novamente informações erradas sobre um suposto tratamento precoce e sobre a eficácia da CoronaVac.

"Não desistam do tratamento precoce. Não desistam. A vacina é pra quem não pegou ainda, e essa vacina daí é 50% de eficácia. Ou seja, jogar um moedinha pra cima é 50%. Então, está liberada a aplicação no Brasil. E a vacina é do Brasil, não é de nenhum governador, não, é do Brasil", disse.

O Instituto Butantan divulgou que a CoronaVac tem eficácia geral de 50,4% na prevenção da Covid-19. Além disso, a vacina mostrou-se 78% eficaz na prevenção de casos que requerem algum atendimento médico, mas sem internação hospitalar e 100% em evitar casos que necessitam de hospitalização ou de internação em leitos de terapia intensiva. Ou seja, o imunizante reduz em pouco mais da metade a chance de se adquirir a doença e evita internações, de acordo com os resultados do estudo clínico.

Bolsonaro tem defendido também o uso de medicamentos que se mostraram ineficazes contra a Covid-19 em testes, como a hidroxicloroquina e a ivermectina, o que costuma chamar de "tratamento precoce".

A fala do presidente representou um novo episódio em seu embate com o governador de São Paulo, João Doria (PSDB).

Em disputa aberta com o governo federal, Doria liberou a aplicação das primeiras doses da CoronaVac em São Paulo já na tarde de domingo, mesmo sem a decisão da Anvisa ter sido publicada no Diário Oficial. O movimento incomodou os governadores, que haviam pedido que o tucano esperasse para que a vacinação começasse no mesmo dia em todos os Estados.

A decisão de Doria também irritou o governo federal. O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, chegou a dizer que a ação do governador seria ilegal. Ao mesmo tempo, com a pressão dos governadores, o ministério decidiu antecipar o início da vacinação nacional para esta segunda-feira, quando a previsão era apenas na quarta.

O governo havia planejado um ato no Palácio do Planalto na quarta-feira, mas a intenção era usar doses da vacina da AstraZeneca vindas da Índia --o governo brasileiro negociou a importação de 2 milhões de doses, já que a Fundação Oswaldo Cruz só deve produzir as primeiras doses do imunizante em fevereiro. O governo brasileiro chegou a preparar um avião para enviar ao país, mas a Índia segurou a exportação.

Na manhã desta segunda, Bolsonaro recebeu o embaixador da Índia no Brasil. A previsão é de que o governo indiano libere a exportação apenas daqui a duas semanas, de acordo com informações passadas pelo fabricante, Instituto Serum, ao jornal The Times of India.

O governo brasileiro será, então, obrigado a iniciar o processo de vacinação com os 6 milhões de doses da CoronaVac que já estão no Brasil, apesar da resistência de Bolsonaro.

Por diversas vezes o presidente desdenhou da vacina, chamando-a de "vacina chinesa do Doria". Bolsonaro chegou a mandar cancelar um acordo de compra de 46 milhões de doses feito entre o ministério e o Butantan.

O presidente criticou ainda os resultados da eficácia da CoronaVac e chegou a dizer, depois da suspensão dos testes no caso da morte de um voluntário que se provou não relacionada com a vacina, que a CoronaVac podia causar problemas sérios, o que não é verdade.

"Morte, invalidez, anomalia. Esta é a vacina que o Doria queria obrigar a todos os paulistanos tomá-la", disse em uma de suas críticas.