Juros futuros têm forte alta no Brasil após Fed e BCE defenderem cautela com corte de juros

Por Fabricio de Castro

SÃO PAULO (Reuters) - As taxas dos DIs fecharam a terça-feira com alta forte, de quase 20 pontos-base em alguns vencimentos, com a curva a termo brasileira reagindo ao avanço firme dos rendimentos dos Treasuries após autoridades de bancos centrais da Europa e dos Estados Unidos indicarem que o início do ciclo de cortes de juros pode demorar mais do que o esperado.

Na segunda-feira, com Wall Street fechada em função do feriado do Dia de Martin Luther King Jr., as taxas dos títulos europeus já haviam subido em meio a dados ruins sobre a economia alemã e a declarações de autoridades do Banco Central Europeu (BCE) sobre a possibilidade de corte de juros no futuro próximo.

O presidente do banco central da Alemanha, Joachim Nagel, disse na segunda-feira que é muito cedo para o BCE discutir um corte dos juros.

No sábado, o economista-chefe do BCE, Philip Lane, havia comentado que cortar os juros muito rapidamente poderia alimentar uma nova onda de inflação. Outras autoridades europeias fizeram coro às declarações.

Nesta terça-feira foi a vez de o Federal Reserve reduzir a expectativa dos investidores por um corte de juros já em março. O diretor do Fed Christopher Waller afirmou que os Estados Unidos estão próximos da meta de inflação de 2%, mas o banco central norte-americano não deve se apressar em cortar sua taxa básica de juros até que esteja claro que a baixa dos índice de preços será sustentada.

"A pior coisa que poderíamos fazer é reverter tudo depois de já termos começado a cortar. Nós realmente queremos ver evidências de que esse progresso... nos dados reais e nos dados de inflação. Acredito que isso acontecerá", disse Waller, em evento virtual.

Os comentários reforçaram a percepção de que o Fed pode não começar a reduzir os juros em março, como vinha sendo largamente precificado na curva de juros norte-americana. Em reação, as taxas dos yields tiveram ganhos firmes nesta terça-feira, o que também impulsionou as taxas dos DIs (Depósitos Interfinanceiros) no Brasil.

“O mercado norte-americano volta do feriado e, por isso, já existiria um acúmulo de investimentos se movimentando hoje (terça-feira), já seria um dia volátil”, comentou Matheus Spiess, analista da Empiricus Research.

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Segundo ele, o mercado colocou “os pés no chão” ao reduzir a precificação de cortes de juros já em março, em movimento favorecido pelos comentários dos membros do BCE e do Fed.

Após o início da fala de Waller, às 13h (horário de Brasília), os rendimentos dos Treasuries subiram ainda mais. No Brasil, o dólar marcou a cotação máxima ante o real após Waller, e as taxas futuras atingiram novos picos no dia.

Além da pressão externa, os investidores ainda demonstravam certo desconforto em torno das negociações entre o governo brasileiro e o Congresso para encaminhamento de propostas que afetam a área fiscal.

Na noite de segunda-feira, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), discutiram a medida provisória que reonera a folha de pagamentos de empresas de setores específicos -- um tema que encontra grande resistência entre os parlamentares.

No fim da tarde desta terça-feira a taxa do DI para janeiro de 2025 estava em 10,13%, ante 10,06% do ajuste anterior, enquanto a taxa do DI para janeiro de 2026 estava em 9,795%, ante 9,632% do ajuste anterior. A taxa para janeiro de 2027 estava em 9,945%, ante 9,764%.

Entre os contratos mais longos, a taxa para janeiro de 2028 estava em 10,195%, ante 10,001%. O contrato para janeiro de 2031 marcava 10,58%, ante 10,394%.

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Perto do fechamento a curva a termo precificava 99% de chances de o corte da taxa básica Selic no fim de janeiro ser de 0,50 ponto percentual. Outros 3% são de apostas em corte de 0,75%. Atualmente a Selic está em 11,75% ao ano.

Às 16:39 (de Brasília), o rendimento do Treasury de dez anos -- referência global para decisões de investimento -- subia 11,80 pontos-base, a 4,0676%.

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