Taxas de DIs sobem com receios de impacto fiscal de plano do governo para indústria

Por Fabricio de Castro

SÃO PAULO (Reuters) - As taxas dos DIs (Depósitos Interfinanceiros) fecharam a segunda-feira em alta, na contramão do movimento registrado pelos rendimentos dos Treasuries, após o governo Lula lançar seu programa industrial prevendo 300 bilhões de reais em financiamentos até 2026, o que piorou a percepção no mercado sobre o risco fiscal brasileiro.

Pela manhã, as taxas dos DIs (Depósitos Interfinanceiros) se mantiveram em leve queda durante a maior parte do tempo, acompanhando o recuo dos rendimentos dos Treasuries, com investidores no exterior aproveitando os preços mais baixos dos títulos norte-americanos para entrar no mercado antes da divulgação de indicadores econômicos nesta semana.

No início da tarde, porém, a curva de juros brasileira se descolou do exterior, após o governo anunciar o plano “Nova Indústria Brasil”, que prevê linhas de crédito para empresas, subsídios e conteúdo local nos produtos.

De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), dos 300 bilhões de reais previstos para financiamentos até 2026, 106 bilhões de reais já haviam sido anunciados em julho do ano passo.

Pela proposta, serão priorizados instrumentos financeiros sustentáveis e crédito para inovação, infraestrutura e exportações, além de subsídios, como os incentivos fiscais. Parte deles, segundo o MDIC, já começou a ser adotada por instituições como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

Três profissionais do mercado ouvidos pela Reuters pontuaram que o anúncio dos 300 bilhões de reais azedou o humor dos investidores, ainda que operações do BNDES sustentem o programa -- o que não necessariamente trará impacto fiscal ao governo.

Um deles avaliou que, por um lado, o Banco Central está em processo de corte da taxa básica Selic e, por outro, o governo caminha para gastar mais, ainda que via BNDES.

Há ainda o receio de que o banco de fomento precise em algum momento do apoio do Tesouro, em dinâmica semelhante à estabelecida em outros governos do PT, impactando negativamente as contas públicas.

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Neste cenário, as taxas dos contratos futuros para janeiro de 2027 e janeiro de 2028 chegaram a subir cerca de 10 pontos-base durante a tarde, ainda que o rendimento do título norte-americano de dez anos -- referência global de investimentos -- se mantivesse em baixa.

No fim da tarde a taxa do DI para janeiro de 2025 estava em 10,085%, ante 10,12% do ajuste anterior, enquanto a taxa do DI para janeiro de 2026 estava em 9,805%, ante 9,768% do ajuste anterior.

Já a taxa para janeiro de 2027 estava em 9,985%, ante 9,901%, enquanto a taxa para janeiro de 2028 estava em 10,24%, ante 10,155%. O contrato para janeiro de 2031 marcava 10,65%, ante 10,57%.

Perto do fechamento a curva a termo precificava 99% de chances de o corte da taxa básica Selic no fim de janeiro ser de 0,50 ponto percentual. Atualmente, a Selic está em 11,75% ao ano.

Ao longo desta semana, os investidores vão monitorar a decisão de política monetária do Banco Central Europeu (BCE), na quinta-feira, a divulgação de uma série de dados norte-americanos e o Índice de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15) no Brasil, na próxima sexta-feira.

Os números servirão de subsídios para que os investidores se posicionem antes das reuniões de política monetária do Federal Reserve e do Banco Central do Brasil, na semana que vem.

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Às 16:40 (de Brasília), o rendimento do Treasury de dez anos --referência global para decisões de investimento-- caía 4,30 pontos-base, a 4,1033%.

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