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Pandemia freia explosão de preços de aluguéis em Paris e outras capitais mundiais

Com o fim do turismo, as restrições nas fronteiras e a generalização do home office, os aluguéis baixaram  - Simon Plestenjak/UOL
Com o fim do turismo, as restrições nas fronteiras e a generalização do home office, os aluguéis baixaram Imagem: Simon Plestenjak/UOL

03/02/2021 10h51Atualizada em 03/02/2021 10h51

Quem já tentou alugar um apartamento em uma cidade como Paris ou Londres sabe o quanto a missão é ingrata: imóveis minúsculos, com frequência em mau estado, saem por um valor desproporcional. Para completar, as exigências das imobiliárias são tão rígidas que, para muitos inquilinos, conseguir assinar um contrato pode levar meses. A pandemia de coronavírus, entretanto, colocou um freio nessa dinâmica, que só aumentava nos últimos anos.

Com o fim do turismo, as restrições nas fronteiras e a generalização do home office, os aluguéis baixaram na capital francesa pela primeira vez em anos. Oficialmente, a queda é de pelo menos 1%, conforme uma pesquisa de um dos sites de referência neste mercado, SeLoger, ou 2,8%, segundo a imobiliária Lodgis. Entretanto, os corretores indicam que o mais comum tem sido uma baixa de 5% ou mais, de acordo com a localização do apartamento.

"Temos muitos apartamentos que ficaram vazios ao mesmo tempo, principalmente os menores, como os studios e os de um quarto, ocupados por estudantes ou estrangeiros expatriados. Foi uma situação que se generalizou em Paris desde o primeiro lockdown, já que essas pessoas retornaram para as suas cidades ou países", explica Nicolas de Brem, sócio-diretor da France Ermitage. "Os apartamentos ficaram simplesmente vazios."

A jornalista Julia Bender, 27 anos, chegou em Paris logo antes da pandemia para se juntar ao marido, doutorando e professor na capital francesa. Rapidamente, a carioca percebeu que a crise sanitária poderia facilitar a mudança do casal para um imóvel melhor:

"Ele pagava ? 1.150 num studio de 20 metros quadrados: uma peça com um sofá-cama, uma minicozinha e um banheiro. Com a pandemia, a gente foi ficando muito apertado e, em junho, eu achei que seria um bom momento para procurar outra casa", conta a fluminense. "Encontrei um apartamento no 6? distrito, que é ótimo, e ainda mais barato. Ganhamos 5 metros quadrados e pagamos ? 1.070", comemora.

Mais fácil de alugar

A Covid-19 também resultou em mais facilidade para alugar - as imobiliárias, que costumavam preterir candidatos com contrato de trabalho estrangeiro, por exemplo, agora pensam duas vezes antes de recusar um candidato. Foi assim para Julia e também para a estudante Ana Clara Cathalat, 24 anos, que percebeu a diferença. No seu primeiro ano em Paris, ela relata que foi bem mais difícil de encontrar onde morar do que agora, quando pôde escolher entre três opções.

"São oportunidades que não apareceram antes da Covid. Era muito concorrido. Eu mandava mensagem e os proprietários nem se davam o trabalho de responder", relata a mato-grossense. "Nem remotamente eu pensava em ficar num apartamento como esse. Em termos de qualidade, não tem nem comparação. É todo novo e lindo", diz.

"Estamos com bem mais imóveis disponíveis, cerca de 60%, e os inquilinos têm mais opções", complementa Nicolas de Brem. "Evidentemente, isso tem um impacto nos aluguéis. Estamos pedindo para os proprietários fazerem um esforço. Eles têm consciência de que é melhor ter alguém por um aluguel mais baixo do que ficar com o apartamento vazio."

Sem Airbnb, valores em queda

Paris sempre teve um dos metros quadrados mais caros do mundo, mas a entrada fulgurante no mercado de plataformas como Airbnb é apontada como a principal razão para a explosão dos preços dos aluguéis, nos últimos anos. A pandemia expôs essas distorções nos valores.

Com as viagens paralisadas, milhares de apartamentos por temporada, que costumavam ser oferecidos a turistas a tarifas mais elevadas, foram liberados para contratos superiores a um ano, com uma imobiliária tradicional. Em algumas das maiores da França, como a Lodgis, cerca de 30% da oferta atual de apartamentos de até um quarto eram imóveis que, antes da pandemia, eram alugados por diárias ou curtas temporadas na plataforma americana.

O próprio site também se adaptou: nunca houve tantas opções de aluguéis mais longos - dispensando, assim, a burocracia e as exigências das imobiliárias. Foi desta forma que a estudante Ana Luísa Zottis, 22 anos, encontrou um quarto para morar por seis meses nos arredores em Paris, onde fará um estágio de conclusão do curso de engenharia.

"O Airbnb tem uma taxa, mas mesmo assim eu achei o preço bem justo, em relação a outras colocações, inclusive as que poderia contatar o proprietário direto, visitar e fechar", afirma a gaúcha. "Eu tive outros colegas estudantes, que foram para Paris para estágio, e os que não conseguiram em residência estudantil e também pegaram pelo Airbnb."

Tendência mundial

Outra tendência é a transformação destes apartamentos pequenos em escritórios funcionais para home office - atendendo a profissionais com dificuldades de trabalhar no próprio lar, seja pela presença de crianças ou porque os dois cônjuges estão em casa.

Nicolas de Brem constata ainda que Paris reflete um contexto imobiliário mundial - que, ele espera, chegará ao fim com a pandemia.

"Em todas as capitais, é a mesma coisa. Nova York, Londres. Esse fenômeno atinge todas as grandes capitais, neste momento. É igual em todo o lugar", indica o diretor da France Ermitage.