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Usar fintechs fará ajuda de R$ 600 chegar mais depressa a quem precisa

Paulo Ribeiro

Paulo Ribeiro

Professor da FGV-SP e pesquisador do Insper

02/04/2020 04h00

O impacto da chegada do coronavírus ao Brasil já apresenta reflexos profundos no mercado de trabalho, em especial à população de baixa renda. Pesquisa publicada na quarta-feira (1º) pelo Instituto FSB em parceria com o banco BTG Pactual mostra que os efeitos da crise são mais intensos para os mais vulneráveis. 19% dos entrevistados com renda inferior a 1,5 salários mínimos afirmam ter perdido o emprego. Esse número salta para 22% entre os menos escolarizados.

Essas pessoas são, em maioria, desbancarizadas ou semibancarizadas, e estão mais acessíveis por meio de contas de pagamento das fintechs do que pelos canais bancários tradicionais. Segundo a Caixa Econômica Federal, 85% do público potencial do benefício de R$ 600 mensais aprovado no Congresso não tem conta no banco. O Instituto Fiscal Independente estima 30,5 milhões de pessoas beneficiadas pelo programa, o que significa 25,9 milhões de beneficiários potencialmente desbancarizados. A capilaridade das fintechs permitiria ao governo atingir inclusive pessoas que não constam no Cadastro Único do Ministério da Cidadania.

As adquirentes, os bancos digitais e as instituições de microcrédito têm maior proximidade e conhecimento dos clientes de baixa renda. Esses agentes de mercado foram protagonistas do movimento de inclusão financeira observado nos últimos anos. O amplo alcance desses players poderia ser utilizado para o pagamento do auxílio emergencial, diretamente nas contas de pagamento que esse grupo de pessoas desbancarizadas possui junto às fintechs. Nesse caso, as fintechs se comprometeriam a permitir o saque e/ou transferência do recurso, sem nenhum ônus ao beneficiário. Seria uma forma de o governo contar com a contribuição coletiva de outros agentes do sistema financeiro que não somente os bancos.

Esse mecanismo de pagamento digital para as pessoas que não possuem conta bancária viabiliza o recebimento imediato dos recursos, sem ter que adicionar barreiras de acesso ao benefício, como a abertura de uma nova conta. Além disso, viabiliza o pagamento aos desbancarizados em quarentena ou hospitalizados, que, por razões óbvias, terão dificuldade de fazer o saque presencialmente. O pagamento eletrônico, em detrimento do pagamento em papel-moeda, ainda traz benefícios sanitários: menor circulação de dinheiro em espécie, manutenção do isolamento das pessoas em suas casas e redução da probabilidade de aglomerações em agências dos Correios, lotéricas, bancos e correspondentes bancários.

Não obstante, o pagamento de auxílio financeiro deveria vir acompanhado de orientação financeira online. Depositar o dinheiro sem a devida orientação pode frustrar a expectativa dos formuladores de política pública, tornando a magnitude e a extensão temporal do programa insuficientes. O beneficiário tem que ter a liberdade para uso do recurso da maneira que julgar mais eficiente. Entretanto, orientá-lo mitiga o mau aproveitamento dessa renda tão escassa.

A ampliação aqui sugerida das regras de pagamento de benefícios em virtude da crise decorrente da covid-19 permitiria chegar aos que mais precisam, de forma mais rápida, mais assertiva e onerando menos a máquina pública.

Economia