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Carla Araújo

Bolsonaro e Pazuello tentam "arrumar time" em almoço com cúpula militar

Jair Bolsonaro ao lado de Fernando Azevedo e Silva, ministro da Defesa - Foto:  Antonio Cruz - 27.fev.2020/Agência Brasil
Jair Bolsonaro ao lado de Fernando Azevedo e Silva, ministro da Defesa Imagem: Foto: Antonio Cruz - 27.fev.2020/Agência Brasil
Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

DO UOL, em Brasília

22/01/2021 17h02

Depois de uma semana com o general Eduardo Pazuello (ministro da Saúde) no epicentro de uma das piores crises do governo e com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tendo que ajustar o discurso em relação às Forças Armadas, nesta sexta-feira (22), os dois participaram de um almoço no Ministério da Defesa, em Brasília, para aparar algumas arestas.

Além do ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, estiveram no encontro dos três comandantes das Forças Armadas: general Edson Pujol (Exército), almirante Ilques Barbosa (Marinha) e o tenente brigadeiro do ar Antonio Carlos Moretti (Aeronáutica).

Oficialmente, a pauta foi a atuação das Forças no combate à covid-19. Segundo fontes militares, o encontro, que é comum no início do ano, serviu também para "arrumar o time para jogar". A avaliação feita é que todas as Forças - principalmente a FAB (Força Aérea Brasileira), que atua na distribuição de vacina - estão empenhadas desde o início da pandemia e não podem ter a sua credibilidade comprometida.

Entre os militares há um sentimento de desconforto por problemas na comunicação e também por desgastes que, segundo os oficias, não deveriam recair sobre Exército, Marinha e Aeronáutica.

Nas palavras de um general, "é lamentável", por exemplo, que a capacidade logística das Forças agora seja colocada sob suspeita.

Dentro do Exército, onde Pazuello sempre foi considerado um especialista no assunto, há ainda a sensação de que, apesar das falhas do governo, são os militares que estão "salvando" a distribuição de vacinas, oxigênio e outros itens de combate a pandemia.

"Ao contrário do estão dizendo, a logística das Forças Armadas é extraordinária. Se não fosse a nossa logística, 'a vaca tinha ido para o brejo' neste país continental que é o Brasil", afirmou um general.

Ajuste de discurso

Durante a semana, militares também ficaram incomodados com uma postura considerada equivocada do presidente. O presidente, no entanto, já tentou corrigir o desconforto.

Na última segunda-feira, em conversa com apoiadores, o presidente criou polêmica ao afirmar que as Forças Armadas estariam "sucateadas" no Brasil e que seria as Forças Armadas que "decidem" se um país vai viver na democracia ou na ditadura.

A fala gerou mal-estar na cúpula dos militares, que se esforçam para deixar o mais claro possível, sempre que possível, que as Forças Armadas são instituições de estado, não de governo, e que são defensoras da democracia.

Na quinta-feira (21), durante transmissão ao vivo, Bolsonaro recuou e disse que justamente que as Forças Armadas brasileiras estão "comprometidas" com a democracia e a liberdade.

Pazuello e a credibilidade

Além da fala de Bolsonaro, considerada por militares como "infeliz", nesta semana, mais uma vez, aumentou o incômodo pelo fato de o general Pazuello ainda insistir em permanecer na ativa.

Militares de alta patente dizem que "falta simancol" ao ministro para que ele peça para a ir à reserva. No entanto, lembram que não podem forçar o general a tomar essa decisão, considerada de "caráter pessoal".

Com um aumento da pressão, dentro e fora do governo, para que o ministro deixasse o cargo, no Exército o desconforto foi grande ao ver que as críticas a Pazuello estão de fato respingando na instituição.

Além do questionamento em relação à capacidade logística, houve muita indignação no Exército com alguns veículos de imprensa que associaram as mortes causadas pelo coronavírus à Instituição.

Em nota, o atual Chefe do Centro de Comunicação Social do Exército, general Richard Fernandez Nunes, destacou que "o Exército, junto às demais Forças Armadas e a diversas agências, tem-se empenhado exatamente em preservar vidas".

Ao listar algumas das ações do Exército, como atendimento médico em áreas inóspitas, transporte de medicamentos, e desinfecção de áreas públicas, o general Richard usou o slogan da Força para dizer que o Exército está "estendendo a Mão Amiga a uma sociedade que lhe atribui os mais altos índices de credibilidade".