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Nova cédula de R$ 200 lançada pelo BC ainda precisa ser mais bem explicada

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

29/07/2020 18h23

Depois de um reinado que durou 26 anos, as notas de R$ 100 vão deixar de ser as de maior valor nominativo do dinheiro vivo em circulação no país. Nesta quarta-feira (29), o Banco Central anunciou o lançamento até fins de agosto de uma nova nota de R$ 200. A novidade foi uma surpresa, assim como é surpreendente a justificativa para a adoção de uma nota com o dobro do valor da cédula até então de valor mais alto.

Segundo a diretora de administração do BC, Carolina de Assis Barros, a necessidade de incorporar uma cédula de R$ 200 ao conjunto de cédulas de dinheiro brasileiras decorre de um aumento extraordinário da demanda por papel-moeda na economia. Em junho deste ano, o volume de dinheiro vivo em circulação, de acordo com dados do próprio BC, atingiu R$ 277 bilhões, enquanto não passava de R$ 216 bilhões, em março.

Trata-se de um aumento de praticamente um terço, entre uma data e outra. Um gráfico, exibido pela diretora do BC, na apresentação para a imprensa da nova cédula, registra que a projeção original do volume de numerário para 2020 era de R$ 301 bilhões, 7% acima do volume de dinheiro em circulação no ano passado.

Os números mostram que a pandemia está por trás desse forte aumento no uso de numerário nas transações. Dois fenômenos estariam se combinando para explicar o fenômeno. Um deles, fruto das incertezas causadas pela propagação da Covid-19, estaria levando ao entesouramento de dinheiro vivo.

Pode-se imaginar que o movimento se prenda a temores de calotes e quebras de bancos. Algo que se assemelharia, por curioso que possa parecer, com a corrida para a compra e estocagem de papel higiênico, em reação às primeiras informações e restrições oficiais sobre o novo coronavírus.

O outro fenômeno derivaria da forma como os recursos do auxílio emergencial estariam sendo apropriados pelos beneficiários. Tendo como alvo uma população em grande parte desbancarizada, tanto o saque do auxílio quanto sua utilização, concentrada na compra de artigos de primeira necessidade, estariam se dando, preferencialmente, em dinheiro.

De todo modo, as explicações não são convincentes, sobretudo quando, por declarações do chefe do Departamento de Estatísticas do BC, Fernando Rocha, se fica sabendo que o entesouramento verificado está sendo encarado pela própria autoridade monetária como temporário. Além disso, por que não imprimir apenas novas notas de R$ 100, já que elas também serão produzidas, juntamente com as novas cédulas de R$ 200?

A série de cédulas e moedas em circulação sofreu três alterações desde julho de 1994, quando foi lançada. Na época, o Cruzeiro Real, criado em agosto de 1993, deu lugar ao Real, a partir do indexador URV (Unidade Real de Valor), no âmbito do Plano Real. Desde então, foram criadas notas de R$ 2 (em 2001) e de R$ 20 (em 2002). Em 2005, foi extinta a nota de R$ 1. Uma substituição de cédulas de R$ 50 e R$ 100 ocorreu em 2010, mas a motivação foi simplesmente a segurança. Novas tecnologias adquiridas pela Casa da Moeda justificaram a substituição.

Jornalistas que participaram da entrevista virtual concedida pela diretoria Carolina Barros quiseram saber, obviamente, se a criação de uma nova cédula de R$ 200 não seria um facilitador da lavagem de dinheiro e de outras práticas escusas, que precisam fugir da passagem por contas bancárias. A diretora insistiu que não havia relação entre uma moeda de maior valor e as operações ilegais, que exigem a utilização de dinheiro vivo.

Ela chegou a citar novas instruções do BC, como a circular 3978, que determina controle mais rígido de saques e depósitos. Mas, como a nova moeda de maior valor facilitaria justamente contornar contas bancárias, a resposta foi inconvincente e não ajudou a entender as reais motivações para o lançamento da nova cédula de R$ 200.

É verdade que grande número de brasileiros continua longe das contas bancárias, e das operações com outros meios de pagamento que não o dinheiro em espécie. Mas, é certo também que a pandemia aprofundou e acelerou a tendência ao uso de meios de pagamento virtuais, restringindo o uso de dinheiro físico.

A nova nota de R$ 200 também vai na contramão de esforços do próprio BC na direção de incentivar operações de pagamento sem envolver dinheiro físico. Está previsto para este ano, o lançamento do PIX, sistema desenvolvido e operado pelo BC que vai aprimorar transferências de recursos online, hoje já processadas quase instantaneamente por meio de TED (transferência eletrônica disponível) ou DOC (documento de ordem de crédito).

Mais estranho de tudo, porém, é que o lançamento de moedas e cédulas de maior valor nominativo costuma ocorrer em períodos de inflação muito elevada, quando o dinheiro perde, rapidamente, poder aquisitivo real. Não é esse, em absoluto, o caso agora. Ao contrário, a economia vive um ciclo desinflacionário, que foi acentuado pela pandemia, mas que já encontrava presente na economia bem antes da chegada da Covid-19.

Errata: o texto foi atualizado
Uma versão anterior deste texto informava incorretamente que a série de cédulas e moedas em circulação não sofria alterações desde julho de 1994. Na verdade, ocorreram três alterações desde então. A informação foi corrigida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

José Paulo Kupfer