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Série de problemas e risco de parada da produção: a crise do Boeing 737 Max

O Boeing 737 Max nasceu com a promessa de ser uma verdadeira revolução na linha de aviões de corredor único da Boeing. Mais econômico e mais moderno que seus antecessores, no entanto, dois acidentes que deixaram mais de 300 pessoas mortas mancharam a imagem do modelo.

Em um momento em que parecia ter superado os problemas, novamente, outra falha, atingia a reputação da empresa envolvendo o 737 Max. Embora não tenha havido mortes, colocou em dúvida se a Boeing estaria fazendo realmente tudo o que pode para garantir a segurança da nova versão do avião considerado um dos maiores sucessos de todos os tempos.

Histórico

O Boeing 737 nasceu na década de 1960, com a versão 737-100. Ele dispensava a presença do engenheiro de voo a bordo (comum na maioria das aeronaves até então), e podia levar até 107 passageiros.

Todos os aviões da família 737 somam 11.508 entregas desde 1967. Os modelos estão divididos da seguinte forma:

  • 737-100 - 30 unidades entregues
  • 737-200 - 1.114 unidades entregues
  • 737-300 - 1.113 unidades entregues
  • 737-400 - 486 unidades entregues
  • 737-500 - 389 unidades entregues
  • 737-600 - 69 unidades entregues
  • 737-700 - 1.128 unidades entregues
  • 737-700C - 22 unidades entregues
  • 737-700W - 14 unidades entregues
  • 737-800 - 4.989 unidades entregues
  • 737-800A - 177 unidades entregues
  • 737-900 - 52 unidades entregues
  • 737-900ER - 505 unidades entregues
  • 737 MAX - 1.420 unidades entregues

Os 737 Max foram anunciados em 2011, na esteira do anúncio do Airbus A320neo, em 2010. Havia pressa em fazer o modelo voar para não perder fatia de mercado para o concorrente europeu, que prometia gastar menos combustível, o que é um grande atrativo para as empresas aéreas.

O avião entrou em serviço em 2017. Dois acidentes graves nos anos seguintes manchariam a sua imagem.

Falha em software causou duas quedas

Diversas unidades do Boeing 737 Max ficaram estacionadas em uma instalação da empresa nos EUA entre 2020 e 2021
Diversas unidades do Boeing 737 Max ficaram estacionadas em uma instalação da empresa nos EUA entre 2020 e 2021 Imagem: Lindsey Wasson/Reuters
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Em outubro de 2018, o voo Lion Air 610 caía na Indonésia. Todas as 189 pessoas a bordo morreram.

Em março de 2019, o voo Ethiopian Airlines 302 caiu pouco após a decolagem, matando todos os 157 passageiros e tripulantes a bordo. O principal fator contribuinte dos dois acidentes foi uma falha no projeto do MCAS (Sistema de Aumento de Características de Manobra).

O novo sistema corrigia a inclinação da aeronave. Ele levava o nariz do avião mais para baixo se percebesse que o avião estava subindo sem a velocidade necessária para se manter em voo.

Investigadores apontaram que o sistema entrou em funcionamento quando não devia. Com isso, a aeronave entrou em mergulho em direção ao solo.

Com o problema, toda a frota do 737 Max ficou sem poder voar mundo afora por 20 meses enquanto os problemas eram solucionados. Apenas no final de 2020 o modelo voltou a ser usado em operações comerciais, sendo a brasileira Gol a primeira empresa do mundo a decolar com o Max após esse período.

Novos problemas

Após parte de fuselagem romper durante voo, EUA suspenderam uso do Boeing 737 MAX 9 temporariamente
Após parte de fuselagem romper durante voo, EUA suspenderam uso do Boeing 737 MAX 9 temporariamente Imagem: Reprodução/ Redes Sociais
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Quando os problemas do avião pareciam ter ficado para trás, com o sistema MCAS tendo sido corrigido, uma nova série de problemas acometeu o modelo. Entre elas, se destacam:

  • Uma porta – tampão de um 737 Max 9 da Alaska Airlines saiu em pleno voo. Relatório preliminar aponta que faltavam quatro parafusos que prendia ela à fuselagem do avião.
  • Problemas elétricos fizeram parte da frota ficar no chão em 2021. Uma falha no aterramento (sem relacionamento com os problemas do MCAS) afetaram dezenas de aeronaves do modelo.
  • Neste mês, um novo defeito foi encontrado na fuselagem de alguns 737 Max entregues por um fornecedor. Furos nas peças que compõem o corpo do avião não estavam de acordo com o padrão de segurança exigido pela Boeing e as entregas foram suspensas até problema ser resolvido.

O que a empresa tem feito?

A Boeing assumiu a responsabilidade pelas falhas encontradas em seus aviões, e indicou um auditor independente para apurar os processos de fabricação da aeronave. Em 25 de janeiro, a empresa parou temporariamente a produção de todos os 737 para que os funcionários pudessem fazer uma análise de segurança e qualidade para evitar novos problemas.

Em janeiro, ao divulgar o balanço financeiro de 2023, a Boeing não revelou as diretrizes financeiras e expectativas de entregas para o ano de 2024. Isso se deve ao fato de a empresa estar preocupada, nas palavras do presidente, Dave Calhoun, em entregar produtos com excelência e qualidade, além de recuperar a confiança dos seus clientes e dos passageiros que voam nas aeronaves da Boeing.

Eu sei que esses momentos que afetam os cronogramas de entrega podem frustrar nossos clientes e investidores, mas qualidade e segurança devem vir acima de tudo. [...] Nesse sentido, como vocês verão, não estamos divulgando a perspectiva financeira para 2024 hoje. Agora não é o momento para isso. Não vamos prever o cronograma. [...] Vamos simplesmente focar em cada próximo avião e garantir que atendamos a todos os padrões que temos, todos os padrões que nossa autoridade aeronáutica tem e que nossos clientes exigem
Dave Calhoun, presidente e CEO da Boeing

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O executivo ainda destaca que a empresa está implementando uma série de ações além da auditoria externa independente, entre elas, implementar inspeções de segurança adicionais junto aos fornecedores. "Este escrutínio adicional — da nossa parte, da nossa autoridade aeronáutica e dos nossos clientes — irá tornar-nos melhores. É simples assim", diz Calhoun

Stan Deal, presidente da divisão de aviões comerciais da Boeing, assume os problemas enfrentados pela empresa. "Decepcionamos as companhias aéreas que são nossas clientes e lamentamos profundamente a grande interrupção que causamos a elas, assim como a seus funcionários e passageiros. Estamos tomando medidas em um plano abrangente para retornar essas aeronaves à operação com segurança e melhorar nossa qualidade e desempenho na entrega. Seguiremos as instruções da FAA e apoiaremos nossos clientes em cada etapa do caminho", diz Deal

Compradores se incomodam com problemas

Avião 737 MAX é o principal produto da Boeing atualmente
Avião 737 MAX é o principal produto da Boeing atualmente Imagem: Boeing

Os compradores dos aviões estão se irritando com os diversos problemas encontrados na fabricação do 737 Max.

O presidente da Air Lease Corp, uma das maiores empresas de leasing de aviões do mundo, disse que, se mais um problema significante for encontrado, a FAA (Administração Federal de Aviação, dos EUA) "irá parar a produção do 737". O mesmo órgão, em janeiro, impediu que a Boeing ampliasse a produção do modelo, devendo a fabricante manter o ritmo atual apenas.

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Investidores também estariam processando a empresa devido às perdas que vêm enfrentando. Segundo o site Investing, a empresa mentiu sobre o retorno da operação do 737 Max em segurança, mas que isso teria sido desmentido devido ao acidente com o avião da Alaska Airlines.

Simultaneamente, funcionários estão pressionando a empresa por melhores salários, que não tiveram o reajuste desejado pela categoria. Comissários de voo ainda pedem uma compensação da fabricante pelos voos cancelados após o incidente com o 737 Max 9 da Alaska Airlines em janeiro, o que afetou a remuneração recebida, já que menos voos foram realizados.

O 737 Max tem jeito?

De maneira simplista, sim, mesmo que precise passar por sérias mudanças em seu processo de fabricação. A linha 737 é uma das mais bem-sucedidas no mundo, concorrente direta da linha A320, da Airbus, que registra mais de 11.200 entregas desde a década de 1980.

Um projeto tão disseminado tem de ser salvo em vez de ser descartado do ponto de vista econômico. Talvez, com o passar dos anos, novas gerações do 737 precisem de mudanças mais drásticas, mas a empresa tem se mostrado sólida com o passar das décadas apesar dos percalços encontrados no caminho.

Entretanto, a crise de confiança do modelo estaria em seu ponto crítico, segundo Firoz Tarapore, presidente da DAE (Dubai Aerospace Enterprise), uma das maiores empresas de leasing de aviões do mundo. Para ele, a Boeing está em um ponto onde será preciso tomar uma decisão difícil para entender se a série de falhas com o modelo é algo estrutural da empresa ou outra coisa que eles possam controlar.

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"Infelizmente, todas às vezes que dissemos 'vamos dar-lhes o benefício da dúvida de que conseguirão resolver isso', eles falharam. E agora é o ponto em que veremos o que acontece", disse o executivo durante conferência do setor em janeiro

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Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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