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Empreendedorismo

Estudante perde estágio na pandemia e agora ganha o triplo com sex shop

Estudante Beatriz Esmanhoto, 19, de Santos (SP), foi dispensada do estágio e abriu sexshop online - Arquivo pessoal
Estudante Beatriz Esmanhoto, 19, de Santos (SP), foi dispensada do estágio e abriu sexshop online Imagem: Arquivo pessoal

Maurício Businari

Colaboração para o UOL, em Santos (SP)

18/06/2021 04h00

A estudante do 3º ano de publicidade Beatriz Esmanhoto, 19 anos, de Santos (SP), descobriu no ramo das sex shops online uma oportunidade de empreender. A ideia surgiu no ano passado, ao ser dispensada de um estágio por causa da pandemia de covid-19.

Ela ganhava cerca de R$ 600 mensais como estagiária em mídias sociais, profissional que cuida das estratégias e postagens de empresas em redes sociais. Como empreendedora, passou a lucrar o dobro ou até o triplo em alguns meses.

As coisas até estavam indo bem no estágio. Ganhava pouco, mas gostava. Só que vieram a pandemia e os cortes.
Beatriz Esmanhoto

Negócio criada pela mãe

Sem trabalho, retomou um negócio iniciado pela mãe em 2012, mas que foi abandonado. "Minha mãe tinha uma sex shop online, mas acabou mudando de ramo, focando no setor de alimentos. Como ela tinha ainda alguns produtos em estoque, me ofereci para vendê-los. Ela me garantiu uma comissão de 30% e foi assim que comecei".

As vendas aumentavam, e ela aplicou no negócio os conhecimentos que adquiriu na faculdade. Em pouco tempo, já tinha criado um novo nome, sua própria logomarca e a sua própria loja. Nascia assim a Santa Malagueta.

Faturamento cresce nove vezes

Em março de 2020, o volume de vendas total não passava de R$ 500. Em junho do ano passado, com o Dia dos Namorados, o faturamento bruto chegou a R$ 4.700, um aumento de mais de nove vezes.

A partir daí, nos meses seguintes os números oscilaram um pouco, mas mantendo uma média de R$ 3.700 por mês.

"Comecei a trabalhar muito as redes sociais. Só no TikTok eu consegui 20 mil seguidores, mas infelizmente os algoritmos da plataforma derrubavam a todo tempo o meu conteúdo", declara.

Tive a conta cancelada. Apesar de as redes estimularem as atividades comerciais, quando se trata de produtos para adultos, elas dificultam demais.
Beatriz Esmanhoto

A partir de março deste ano, os negócios cresceram ainda mais. Em abril, a loja faturou R$ 7.600 e, em maio, R$ 8.700. Beatriz espera agora atingir a meta de vendas de R$ 20 mil neste mês, com os resultados engordados por mais um Dia dos Namorados.

Produtos discretos para o público feminino

Cerca de 90% da clientela da Santa Malagueta, hoje concentrada no Instagram, é composta por mulheres, com idades de 18 a 35 anos.

Um dos segredos do negócio, segundo ela, foi a opção por não comercializar produtos "realísticos", como próteses penianas de ciberskin e vaginas sem pelos.

Os vibradores, campeões de vendas na loja, são coloridos, com formatos delicados. A loja oferece cerca de 30 modelos a partir de R$ 27,99.

O segundo produto mais vendido é o lubrificante, também em várias opções, a partir de R$ 7,50.

Posts sobre orgasmo e empoderamento da mulher

"Um diferencial é que o meu atendimento é personalizado. Eu converso com minhas clientes, tiro dúvidas, faço demonstrações. Elas são, para mim, como amigas. E isso gera uma relação de confiança".

Como acaba conhecendo as dúvidas íntimas das mulheres, Beatriz ainda aproveita o negócio para gravar vídeos e publicar posts com assuntos como menstruação, orgasmo feminino, pílula do dia seguinte.

O empoderamento feminino é o mote da loja, é o ponto forte. Derrubar tabus e preconceitos é o objetivo.
Beatriz Esmanhoto

Driblar preconceito é desafio do negócio

Especialistas ouvidos pelo UOL concordam que a maior dificuldade do setor é o preconceito contra produtos voltados ao público adulto.

Por outro lado, a tecnologia tem transformado a maneira como as pessoas consomem esses produtos, contribuindo para reduzir a "vergonha" na compra.

"A internet favoreceu a disseminação dos produtos e a possibilidade de expansão das marcas para outras localidades", diz o professor Higor Gonçalves, especialista em comunicação mercadológica e marketing do consumo.

Artigos que, no passado, só eram comprados em lojas físicas, nas quais muitos consumidores potenciais tinham receio de entrar por timidez ou vergonha, com a internet passaram a ser vendidos de forma remota.
Higor Gonçalves

Dificuldade de exposição nas redes sociais

Luana de Freitas Polastri, analista de Negócios do Sebrae, diz que as sex shops enfrentam dificuldade em divulgar seus produtos nas redes sociais porque algumas agências de marketing não conhecem as limitações dessas redes com relação ao tema, o que torna o negócio "segregado".

Também disse que, muitas vezes, as próprias sex shops erram ao buscar pessoas que não são seu público-alvo nas redes, e há uma reação negativa.

É preciso variar oferta de produtos

Na avaliação dos especialistas, a estudante Beatriz Esmanhoto está no caminho certo para se tornar uma empreendedora bem-sucedida em sua área.

O crescimento de vendas é uma evidência. Mas alertam que é primordial variar a oferta de produtos, escolher com critério as imagens que ilustrarão o catálogo e gerar conteúdo próprio e de interesse para o público.

"A marca precisa estar muito bem posicionada na mente dos consumidores como uma viabilizadora de soluções", diz Higor Gonçalves.

"É preciso cuidado com as dicas mágicas de formação de preço que correm na internet", avisa Luana Polastri. "Em geral, esses números mágicos não condizem com a realidade da empresa e podem até gerar prejuízo para o empreendedor."

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