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Químico vira treinador de vôlei aos 50: ''Me redescobri após demissão''

Juliana Carpanez

Do UOL, em São Paulo

Pouco depois das 18h, em uma terça-feira de setembro, as jogadoras chegaram à quadra de vôlei recém-reformada. Moradoras de um grande condomínio de prédios na zona sul de São Paulo, com infraestrutura semelhante à de um clube, naquela noite elas estreariam o espaço seguindo os comandos do químico Rogerio Zerino, 52. Sim, um químico.

Esta foi a profissão que Rogerio exerceu por 30 anos. Vinte e sete deles em uma grande multinacional, mais recentemente como executivo de marketing, de onde foi demitido em julho de 2015. A dispensa não foi surpresa --havia testemunhado o mesmo acontecer com colegas--, mas a classifica como um "baque".

Decidiu tirar um ano sabático para avaliar qual caminho seguir, definir o que gostaria de fazer a partir de então. Mas não esperava que a resposta estivesse tão perto, ali mesmo no condomínio onde mora.

Com mais tempo livre, voltou-se a paixões soterradas pela antiga rotina pesada de trabalho --entre elas, o vôlei. Começou a jogar com os vizinhos e a auxiliar um time de mulheres, que se reunia aos sábados pela manhã. Fizesse sol, frio ou chuva. "Minha entrada no vôlei foi marcada por essa troca. Elas me ajudaram a encontrar um caminho, eu as ajudei a se tornarem jogadoras melhores", resume.

A crise fez com que eu me redescobrisse. Eu via a alegria delas em estarem ali, fazendo algo com paixão. Existia um brilho nos olhos que eu não via mais no mundo corporativo
Rogerio Zerino, químico e treinador de vôlei

Marcio Komesu/UOL
Rogerio treina em condomínio time da categoria master, com mulheres acima de 35 anos

Experiência profissional e planejamento

A "brincadeira" ficou mais séria quando Rogerio fez cursos na CBV (Confederação Brasileira de Vôlei). Começou então a cobrar pela atividade, marcou os treinos na quadra do condomínio para terças e quintas, conseguiu patrocínio para os uniformes, inscreveu o time em campeonatos, passou a filmar as partidas para avaliar as jogadas e o desempenho das jogadoras. Elas se enquadram na categoria master, acima de 35 anos.

No primeiro dos cinco campeonatos que participaram em 2016, ficaram em último lugar. No final do ano passado, em uma competição com 12 times, chegaram à terceira posição. Com o torneio deste ano, chegam a cinco participações no total --no campeonato hoje em andamento, também com 12 times, estão na semifinal. "Como tudo na vida, temos de tirar lições das coisas ruins. Percebemos que teríamos de mudar para atingir objetivos positivos e começamos a seguir um planejamento", conta.

Trago isso da minha experiência no segmento industrial. Na empresa era preciso planejar para obter resultados e isso me ajuda muito no dia a dia da prática esportiva
Rogerio Zerino

O planejamento também é importante em sua vida financeira, considerando o salário que deixou de receber. A nova atividade ainda não garante seu sustento, que vem principalmente das economias e do dinheiro recebido após a demissão. Dentro dessa realidade de redução de gastos, o que ele mais sente falta é viajar: algo que fazia com frequência, inclusive como pessoa jurídica.

Marcio Komesu/UOL
'Brincadeira' ficou mais séria quando Rogerio fez cursos sobre vôlei
Sua visão para equilibrar as contas é a longo prazo e, por isso, hoje ele investe naquela que considera sua nova carreira. Além dos cursos de vôlei, Rogerio começou a faculdade de educação física: está no terceiro semestre desta segunda graduação. "É preciso se aprimorar, buscar conhecimento, e a faculdade é uma forma de fazer isso. Quando você alia o prazer e o amor por uma atividade ao conhecimento, aumentam as probabilidades de aquilo dar certo."   

Especialista realça planejamento

Planejar é a chave para Márcia Vazquez, especialista em transição de carreiras da consultoria Thomas Case & Associados. Mas ela classifica essa atividade como um ponto fraco dos profissionais brasileiros, que muitas vezes só pensam no assunto em situações de emergência --seja o desemprego ou a insatisfação no atual trabalho.

Sobre o caso específico de Rogerio, relatado à especialista pela reportagem, Márcia avalia: "Ele resgatou algo de que já gostava e foi se especializar. Conseguiu ler o cenário e entender que existia uma necessidade para aquelas pessoas, naquele condomínio. Era uma oportunidade que outros deixaram passar, mas ele conseguiu enxergar como algo que poderia dar certo profissionalmente. Isso é inovar". 

Marcio Komesu/UOL
No primeiro campeonato de 2016, equipe ficou em último. Depois, subiu para 3º

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