Opinião

Dolarização da economia argentina é prova de fogo do uso das criptomoedas

Com a vitória de Javier Milei nas eleições presidenciais da Argentina, a América Latina — que já conta com Nayib Bukele, presidente que tornou o bitcoin uma moeda oficial de El Salvador em 2021— ganha mais um chefe de Estado entusiasta das criptomoedas.

Paradoxalmente, as principais bandeiras da campanha política de Milei, a dolarização da economia e a abolição do Banco Central Argentino, podem suprimir a demanda por criptoativos em um dos países com maior taxa de adoção da tecnologia, que representa um caso de uso do mundo real transformador da tecnologia da blockchain.

Moedas estáveis e a Argentina: feitos um para o outro

Desde muito antes da ascensão astronômica do movimento político encabeçado por Milei, o país sul-americano já é considerado uma referência como o caso de uso concreto dos ativos digitais.

A blockchain, a tecnologia de livro-razão distribuído por trás dos criptoativos, foi, de forma sorrateira durante a última década, concretizando a sua presença ubíqua no cotidiano financeiro dos argentinos.

As sucessivas crises de hiperinflação, que afligem o país desde o lançamento do bitcoin em janeiro de 2009, aceleraram a adoção do ativo digital a largos passos, impulsionados por uma dinâmica distinta da presenciada em economias desenvolvidas.

Mais recentemente, stablecoins (moedas estáveis) superaram o bitcoin como a modalidade de ativo digital mais demandada na Argentina.

Com o valor lastreado ao dólar, stablecoins como o USDC e o USDT oferecem muitas das vantagens de um ativo digital nativo da blockchain, como o bitcoin, sem a sua volatilidade característica.

Segundo levantamento da Chainalysis, casa de pesquisa especializada em dados on-chain, cinco milhões de argentinos (>10% da população) já fazem uso dessa representação digital do valor das cédulas norte-americanas.

Em busca de um porto seguro, muitos dos adeptos dos stablecoins no país convertem os seus salários imediatamente após o seu recebimento, buscando interromper a perda incessante do poder de compra da moeda local.

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Utilização no mundo real

À medida que essa prática foi disseminada, a aceitação das criptomoedas pelo comércio argentino foi crescendo em paralelo. Hoje, as moedas estáveis são amplamente aceitas na nação sul-americana por diversos tipos de estabelecimentos. Tron, a blockchain com maior grau de adoção no país, conquistou o público argentino devido às suas transferências rápidas e baratas.

Segundo relatório divulgado pela gestora global Brevan Howard, a rede Tron foi responsável por mais transações de moedas estáveis em 2023 do que qualquer outra blockchain, volume em grande parte impulsionado por usuários que residem em nações que vivem crises inflacionárias e/ou a escassez de dólares.

Uma tecnologia global, um mundo dividido

Apesar da sua popularidade em certas economias emergentes, a rede Tron ocupa pouco espaço no imaginário de investidores de ativos digitais das economias desenvolvidas.

O Tron é uma exceção em um universo de tokens e redes repletas de promessa, que ainda carecem de casos de uso concretos e massificados que vão além da especulação financeira.

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A adoção em massa desse protocolo em países como a Argentina e a indiferença com que investidores de países desenvolvidos tratam a rede demonstram a disparidade entre investidores que buscam ativos financeiros especulativos e o grande público pragmático que adota a tecnologia de blockchain para endereçar desafios no mundo real, do aqui e do agora.

Antídoto do populismo

Na Argentina, a demanda por criptomoedas deu um salto em meados de abril no país, justamente o mês em que a taxa de inflação anualizada do peso argentino superou 100% pela primeira vez em três décadas.

Em torno do mesmo período, dados da Chainalysis revelam que o USDT, a moeda estável mais popular do mundo, representou 70% do volume de compras com pesos argentinos em exchanges (corretoras especializadas em criptomoedas) entre maio de 2022 e maio de 2023.

Nesse contexto econômico hiperinflacionário, a busca por criptomoedas não só é uma função da perda do valor do peso argentino, mas também um agravante da queda precipitosa do seu poder de compra relativo ao dólar.

Desse ponto de vista, não é exagero afirmar que as criptomoedas impulsionaram a candidatura de Milei (ou, mais precisamente, aprofundaram a crise do governo de Cristina Kirchner), avolumando a pressão vendedora no mercado cambial que amplificou a rejeição ao governo incumbente.

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Corralito nunca mais

Para os argentinos, as blockchains oferecem uma alternativa aos canais tradicionais de dolarização: mais praticidade, segurança e resistência à censura.

A auto custódia de criptoativos através de cold wallets (carteiras digitais desconectadas da internet) oferece uma proteção contra o confisco, um benefício de grande valor para quem vivenciou a crise econômica que abalou a Argentina em 2001.

Na época, o então ministro da Economia, Domingo Cavallo, congelou as contas bancárias em dólares (uma política econômica apelidada de "corralito") que, eventualmente, foram convertidas para pesos a uma taxa muito aquém da taxa cambial do mercado.

Moedas estáveis em uma economia dolarizada

Contraditoriamente, a vitória do presidente eleito Javier Milei e a possibilidade de uma eventual dolarização da economia argentina podem eliminar muitos dos incentivos que impulsionaram a adoção dos criptoativos no país.

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Em uma economia dolarizada, qual é o benefício das moedas estáveis para o grande público?

Com a extinção do peso argentino, elas retomarão o seu nicho de ferramenta de investimento dentro do universo financeiro cripto ou continuarão a facilitar o consumo e a poupança cotidiana dos argentinos?

O desfecho das moedas estáveis em uma Argentina pós-dolarização testará a utilidade das criptomoedas no mundo real.

Evento canônico em risco

A narrativa de como o corralito levou à adoção das criptomoedas na Argentina não é apenas um exemplo de como a tecnologia da blockchain pode gerar benefícios concretos para pessoas comuns; ela é o exemplo.

Essa narrativa canônica é mencionada exaustivamente em livros que defendem o caráter revolucionário da blockchain; uma prova concreta, oriunda do mundo real de que os criptoativos são algo mais do que os ciclos de expansão e contração especulativa, os golpes, as pirâmides, os memes irreverentes e os GIFs negociados a preços duvidosos.

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O que acontece quando o mundo descobre que a solução para o sofrimento econômico dos argentinos não era uma tecnologia revolucionária, mas, sim, uma moeda tradicional respaldada por um Banco Central (no caso, o Federal Reserve americano) que implementa uma política monetária sóbria e comedida?

Convivência mútua, tese confirmada

Caso as moedas estáveis continuem circulando na Argentina junto ao dólar, a tese de que o valor da tecnologia de blockchain representa um avanço revolucionário através do seu caráter descentralizado, da sua eficiência operacional, da sua interoperabilidade e da sua transparência (entre outras virtudes defendidas pelos fiéis da revolução dos criptoativos), a classe de ativos como um todo terá sua relevância reafirmada.

Caso contrário, a revolução dos ativos digitais continuará sendo rotulada pelos seus detratores como uma solução em busca de um problema.

Isso, apenas os argentinos poderão decidir.

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