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Vale (VALE3) x Mauro Cunha: entenda por que a renovação do conselho da companhia gerou um embate

28/04/2023 04h00

A Assembleia Geral Ordinária da Vale (VALE3) acontece nesta sexta (28) e, entre as pautas que a serem deliberadas, está a renovação do seu conselho de administração. Com 12 nomes indicados, a proposta é de uma renovação de 50% do colegiado. 

Contudo, em meio a essa dança das cadeiras, chamou atenção a contrariedade declarada de um dos atuais conselheiros independentes (e não indicado para a gestão 2023-2025), Mauro Cunha.

Anexado à ata da reunião extraordinária, realizada ao dia 8 de março, o protesto do independente aborda seis pontos, que vão desde o que ele aponta como incoerência entre a mensagem do chairman no Relatório Anual – que segundo Cunha indica a evolução positiva do colegiado e a proposta de turnover pelo segundo ciclo consecutivo – ao foco "excessivo" em check the boxes [cumprimento de requisitos de diversidade]. Ele fala ainda em tentativa da mineradora de evitar o voto múltiplo.

Indo mais fundo na crítica, o conselheiro independente da Vale chega a dizer que a companhia deixa de recomendar o que é mais adequado ao seu colegiado. Diante disso, o Suno Notícias procurou especialistas para entender os apontamentos feitos por Cunha e se as questões levantadas por ele devem ficar no radar dos investidores.

Quem são os candidatos indicados pelo Comitê

Em reunião no dia 13 de março, o  conselho de administração da Vale aprovou a indicação da lista de candidatos para o colegiado. São 12 nomes, sendo que seis deles são de pessoas novas para ocupar o colegiado ? o 13º membro terá indicação interna pelos funcionários da Vale. 

Confira os nomes abaixo:

Fora da lista de indicados, Cunha teve breve passagem em gestoras financeiras. Contudo, é sob a posição de conselheiro independente que seu currículo ganha volume ? e tem maior foco na carreira. 

Além da Vale, indicado para a gestão 2021-2023, atualmente ele ocupa a posição nas seguintes companhias: Klabin (KLBN11), brMalls (BRML3) e TOTVS (TOTS3). Antes, ocupou a função na Eletrobras (ELET3) e Caixa Econômica Federal. Além disso, entre 2013 e 2015, foi diretor independente da Petrobras (PETR4).

Mas, afinal, o que faz um conselheiro independente?

Tarsila Machado Alves, especialista em Direito Societário da Vieira da Rocha, Machado Alves Sociedade de Advogados, explica que o conselheiro independente é um membro externo que não possui qualquer tipo de relação com os negócios ou pessoas internas da companhia.

"Ele não possui relação de parentesco, negócios, com grupos controladores, executivos, prestadores de serviços, ou qualquer outra relação que possa influenciar significativamente seu julgamento e opiniões de modo a comprometer suas ações no melhor interesse da companhia", explica Tarsila.

Mas, além do conselheiro independente, há duas classificações entre membros de colegiados de companhias abertas. Aliás, no conselho da Vale, é possível observá-las. Entenda:

  • Conselheiros internos: ocupam posições de empregados ou diretores da companhia. "Não é recomendada a sua indicação, uma vez que a ideia da governança corporativa é preservar a independência dos julgamentos", diz Tarsila.
  • Conselheiros externos: pessoas sem vínculo empregatício, de direção ou comercial atual, mas não são considerados independentes. "Visto que já tiveram algum tipo de relação mencionada acima, tais como ex-diretores, advogados, consultores, etc., seja com a companhia, como com empresas do mesmo grupo econômico ou sócios, por exemplo", frisa a especialista. 

"A premissa da governança corporativa é de que todos os conselheiros, uma vez eleitos, têm responsabilidade para com a organização, independentemente de sua relação com sócio, grupo acionário, administrador ou parte interessada que o tenha indicado para o cargo, a fim de evitar os conflitos de interesse", continua Tarsila. 

O que realmente preocupa o investidor da Vale?

Cunha foi duro em suas críticas à renovação do conselho de administração da Vale, e listou seis pontos de crítica na ata da reunião extraordinária do dia 8 de março. 

No entanto, para Ricardo Brasil, fundador da Gava Investimentos, é justamente um ponto que ficou de fora da lista que realmente preocupa o investidor: a influência política na mineradora.

"O que pode afastar os investidores é a preocupação do mercado com a Previ. O fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil (BBAS3) tem dois representantes indicados ao conselho. O atual presidente, o sindicalista João Luiz Fukunaga, e Daniel Stieler, que presidia a fundação durante o governo Bolsonaro. Isso, sim, é preocupante", afirma Brasil.

De acordo com o especialista em análise financeira, essas preocupações devem-se ao temor de que o governo passe a ter poder dentro da companhia. Para ele, com 8,4% de participação na Vale, a Previ pode representar a ameaça de tornar a mineradora uma "nova Petrobras (PETR4)".

"E qual é o grande problema da Petrobras como empresa listada no mercado? É o governo querer usá-la para fins políticos. Isso, sim, tende a preocupar os investidores", pontua Brasil. 

O que dizem os citados?

O Suno Notícias entrou em contato com o conselheiro independente, Mauro Cunha, que afirmou que tudo o que tinha a dizer sobre o assunto foi dito na ata da reunião extraordinária do dia 8 de março. Já a Vale não retornou o contato até o fechamento desta matéria.