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Geração histórica não freia as reformas em Cuba, Trump sim

19/12/2019 12h25

Havana, 19 dez 2019 (AFP) - A geração histórica da revolução não impede as reformas que Cuba empreendeu há uma década, mas o reforço do bloqueio aplicado pelo governo Trump nos obriga a agir com mais calma, afirma o ministro da Economia, Alejandro Gil.

"Posso garantir que não há posição conservadora no setor histórico da revolução que não nos permita avançar", explica ele, em entrevista à AFP.

"O setor histórico e, fundamentalmente, o general do Exército (Raúl Castro, 88 anos) são as primeiras mentes mais jovens do país a impulsionar o desenvolvimento", acrescenta Gil.

No cargo desde julho de 2018, o economista de 55 anos lida com o ressurgimento do embargo que Washington aplica há quase seis décadas.

As sanções sobre envios de combustível dificultam o fornecimento ao país, enquanto as leis dos EUA complicam os investimentos estrangeiros na ilha e suas transações internacionais.

"Dois mil e dezenove foi um ano difícil, cheio de tensões. Não é atípico, porque vivemos com o bloqueio há sessenta anos, mas este ano marca um aumento e nos forçou a superar", avalia Gil.

"Não é apenas resistir, mas não desistir do desenvolvimento. Temos condições de continuar com a atualização (reformas) do nosso modelo econômico", diz.

"O agravamento do bloqueio pode ter um impacto sobre algumas coisas sendo feitas com mais calma. Se os Estados Unidos querem com sua política de agressão nos apressar nas mudanças, isso tem o efeito oposto", assegura.

- Sem pressa, mas sem parar -Gil deve implementar reformas aprovadas em 2011 pelo Partido Comunista de Cuba (PCC, único0) para atualizar o modelo econômico da matriz soviética e tornar competitiva a economia estatal.

O governo reconhece que avançou em 20%.

"O general Raúl Castro disse que temos que avançar sem pressa, mas sem pausa. Não temos corrida contra o tempo. Este é um país socialista e sua primeira premissa é não afetar a população (11 milhões de habitantes)", explica.

"Existem medidas muito simples de implementar, mas que deixam de fora 40% da população e isso não faremos nem aplicaremos uma medida neoliberal", garante.

Apesar das perspectivas adversas de 2019, "a Cepal estima um crescimento de 0,5% e estamos nesse entorno". Até 2020, esperam uma expansão de "cerca de 1% do PIB".

Gil detalha que, apesar da situação complicada, eles conseguiram aumentar o salário estatal para mais de 1,4 milhão de trabalhadores e estão vendendo eletrodomésticos em dólares "para dar resposta a uma demanda solvente" da população. "Parte dessas divisas drenam para a indústria nacional e a financia", afirma.

Cuba importa quase todos os alimentos e suprimentos que consome e seu plano a longo prazo é reduzir essas importações.

Gil diz que as recomendações dos especialistas que ele recebe "não levam em conta o contexto real".

"Cuba é comparada a outros países sem bloqueios, que não estão a 150 quilômetros dos Estados Unidos ou que não têm limitações para comprar combustível".

- Setor privado -"Algumas receitas dizem que devemos liberar as forças produtivas para o desenvolvimento econômico real, via privatização. Isso é renunciar ao socialismo", diz.

"Temos que liberar as forças produtivas da estrutura econômica do país, complementando-a com modelos de gestão não estatais", acrescenta Gil.

Em Cuba, o trabalho por conta própria, reconhecido pela nova Constituição, representa 13% da força de trabalho. Em 2019, criou 20.000 empregos.

"Nas condições atuais, tem mais flexibilidade do que o setor estatal. Continuaremos a promovê-lo nas áreas que geram mais valor para a economia", afirma o ministro.

Mas "precisamos de condições iguais. Se eu entrar no setor privado e não criar condições para que o setor estatal seja competitivo, temos um desequilíbrio".

- Pagamento da dívida -Gil deverá se apresentar à Assembleia Nacional nesta sexta-feira. Em dezembro passado, ele reconheceu que em 2019 eles não poderiam cumprir todos os seus compromissos financeiros.

"Lidamos com um cenário em que, devido às condições de baixo desenvolvimento produtivo, clima, baixa fonte de acesso a financiamento competitivo e nossos próprios problemas, temos um nível de endividamento que a economia não gera a capacidade de enfrentar", admitiu.

"Reconhecemos a paciência de nossos fornecedores, que continuam fornecendo produtos ao país para que a economia não pare. Não estamos fora de controle. Tenha certeza de que reconhecemos nossos compromissos", garante.

Com o Clube de Paris, entidade com a qual renegociou com êxito a dívida em dezembro de 2015, "estamos reconciliados e o cronograma de pagamento foi cumprido".

- Unificação monetária -Parte da reforma envolve a unificação das duas moedas circulantes. O CUP ou peso cubano (24 CUP o dólar) e o CUC ou peso conversível (equivalente ao dólar).

"A moeda futura da economia cubana é o CUP. A unificação monetária será feita quando as condições forem criadas. Foram tomadas medidas nesse sentido. Mas a população não será afetada e serão tomadas condições para minimizar os efeitos".

A parte mais difícil do processo é a eliminação da taxa preferencial com a qual a economia estatal opera, de 1 dólar por 1 CUP. Uma taxa de mercado tornará as importações mais caras e o preço será transferido para a população, gerando inflação.

"Temos muitas distorções quando se trata de medir o desempenho, mas ainda não temos uma definição", reconhece Gil. "Não sei dizer quando será, não corremos contra o tempo", ressalta.

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