Zika faz turistas reverem planos de viagem ao Brasil

João Fellet

Da BBC Brasil em Washington

A paquistanesa Hina Jaffry queria tanto conhecer o Brasil que decidiu celebrar seu segundo aniversário de casamento no país, no mês que vem. Após semanas de planejamento, montou um roteiro de 12 dias que incluía visitas ao Rio de Janeiro, à Amazônia, às Cataratas do Iguaçu e aos Lençóis Maranhenses.

Mas os planos da analista forense foram radicalmente alterados quando ela soube da epidemia de zika que se alastrava pelo país. Agora Jaffry e o marido só passarão dois dias no Brasil antes de regressar a Dubai, onde moram.

"Vamos pousar no Rio, assistir ao desfile das escolas de samba e voltar no dia seguinte", ela disse à BBC Brasil.

Aos 27 anos e com planos de engravidar, Jaffry quis reduzir os riscos de contrair o vírus durante a viagem, temendo associação entre o zika e casos de microcefalia em bebês.

"Por vários meses eu buscava diariamente no Google informações sobre praias, o Pão de Açúcar, o Cristo Redentor. Agora só busco notícias sobre o avanço do zika pelo Brasil."

Ela afirma que os pais do casal têm tentado convencê-los a cancelar também a ida para o Rio, mas que ela avalia que as chances de se contaminar são pequenas se proteger o corpo dos mosquitos. "Sei que estará bem quente lá, mas na minha mala só vou levar roupas de inverno."

Associações hoteleiras e operadores de turismo temem que a epidemia de zika leve mais estrangeiros a evitar viagens ao Brasil, reduzindo os ganhos que o setor esperava obter neste ano com a alta do dólar e a visibilidade trazida pelos Jogos Olímpicos.

"Isso nos pegou realmente de surpresa", diz à BBC Brasil o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis, Dilson Jatahy Fonseca.

"Estamos bastante preocupados com a repercussão negativa da doença e que exista uma redução do crescimento esperado para nosso setor neste ano", afirma.

Há duas semanas, o Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC) emitiu um alerta desaconselhando grávidas ou mulheres que pretendam engravidar a visitar o Brasil e outros 19 países latino-americanos ou caribenhos afetados pelo vírus.

A OMS (Organização Mundial da Saúde), no entanto, não recomenda restrições de viagens por conta da zika. "Recomenda-se aos viajantes que tomem as precauções indicadas para prevenir picadas de mosquito", diz a entidade. Às grávidas, a indicação do órgão é que consulte seu médico antes de viajar e, durante a viagem, cubra a pele exposta e use repelentes apropriados.

Na terça-feira, a companhia aérea americana United Airlines divulgou que passageiros poderiam remarcar voos para países atingidos pela epidemia ou ser reembolsados pelos bilhetes.

A American Airlines também anunciou a possibilidade de ressarcimento, mas só para passageiras que apresentem atestados médicos com a recomendação de que não viajem.

Brasil mais barato

O turismo é um dos poucos setores que poderiam se beneficiar do atual cenário econômico no Brasil, já que a desvalorização do real tende a tornar o país mais barato para estrangeiros e a estimular brasileiros a viajar internamente em vez de buscar destinos no exterior.

Segundo Fonseca, porém, muitos dos hotéis que nesta altura do ano costumam estar completamente reservados para o Carnaval ainda têm quartos disponíveis.

Ao mesmo tempo, ele diz que a crise econômica pode ser a principal culpada pela menor procura e que muitas reservas podem ser feitas de última hora.

Fonseca não disse quais são os Estados ou regiões em que os hotéis têm sido mais afetados pelo zika. Por ora, os casos de microcefalia se concentram no Nordeste, mas todas as regiões do país já detectaram casos de zika.

Agências de turismo nos Estados Unidos já registram cancelamentos de viagens à América Latina por causa do vírus.

Em nota à BBC Brasil, a Travel Leaders Group diz clientes têm sido aconselhados individualmente sobre viagens para áreas afetadas.

A agência cita um cliente que, orientado sobre como se proteger do vírus, resolveu manter os planos de viagem. Já uma família que viajaria para o México decidiu cancelar a visita porque a filha do cliente estava grávida.

A agência Local Foreigner, de Nova York, diz à BBC Brasil que nenhum cliente cancelou viagens a áreas afetadas pelo zika, mas que alguns casais decidiram não viajar para essas regiões.

Turistas têm recorrido a fóruns na internet para tirar dúvidas sobre os riscos de contrair o vírus no Brasil.

Em novembro, um homem de Albany, em Nova York, escreveu no fórum do site Tripadvisor que gostaria de viajar com a esposa para o Rio em abril e que ela poderia estar grávida durante a viagem.

Alertado sobre os casos de zika, o casal mudou os planos. "Ironicamente, decidimos que o Oriente Médio é um destino mais seguro", afirmou.

No fórum do site Lonely Planet, outros dois turistas estrangeiros se diziam preocupados com o risco de contrair zika no Brasil.

A Associação Brasileira de Operadoras de Turismo não respondeu um pedido de entrevista da BBC Brasil sobre impactos do zika no setor.

Para Trícia Neves Levy, sócia-diretora da consultoria Mapie e analista do centro de estudos em turismo Phocuswright, o zika já tem afetado a imagem do Brasil entre estrangeiros e se somado a outros fatores que desencorajam a vinda de turistas, como a dificuldade para conseguir vistos.

Para Levy, estrangeiros são mais suscetíveis a cancelar viagens pelo Brasil que turistas brasileiros.

"Os brasileiros aprenderam a conviver com os riscos. Eles já se protegem em casa e também vão se proteger durante a viagem."

Ela defende que os ministérios da Saúde e do Turismo lidem com o tema com transparência.

"Não podemos contar para os turistas estrangeiros uma história que não é verdadeira. Turistas que decidam visitar o país apesar da epidemia precisam ser informados sobre como agir para correr o menor risco possível", afirma.

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