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O curioso - e lucrativo - mundo dos colecionadores de dinheiro

Vikram Barhat - Da BBC Capital

Em 1967, Rezwan Razack, então com 12 anos, estava fuxicando o cofre na casa de seu avô em Bengaluru, na Índia, quando um maço de cédulas chamou sua atenção. As cédulas tinham o carimbo "cancelado" estampado em cada uma.

Em meio às notas estavam algumas emitidas pelo equivalente indiano à Casa da Moeda, com o retrato do rei britânico George 6º. O carimbo de cancelamento dizia que o Paquistão tinha recusado o valor legal das notas.

"Fiquei imaginando como é que notas emitidas pela Casa da Moeda indiana poderiam ser usadas como dinheiro no Paquistão", diz Razack, que depois aprenderia que o Banco Central Indiano imprimia dinheiro para o Paquistão por alguns anos depois da partição que, em 1947, criou o Estado paquistanês a partir de território indiano - despertando uma rivalidade política e religiosa que perdura até hoje.

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O que procurar

Tempos mais tarde, visitando primos, ele encontrou notas dos tempos em que a Índia ainda era colônia do Reino Unido. Elas foram os primeiros exemplares de uma coleção de dinheiro e a paixão de uma vida.

"Enchi a paciência do meu avô para que me desse as notas fora de circulação. Ele foi convencido pelo meu entusiasmo", conta.

Razack acabaria se transformando em um estudioso do dinheiro. Depois de anos de vida acadêmica, ele agora tem uma empresa de construção civil em Bengaluru, mas é também o presidente da Sociedade Internacional de Notas Bancárias. E é também o autor de um livro para colecionadores de cédulas indianas.

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A coleção pessoal de Razack tem um espécime de todos os tipos de cédulas emitidos na Índia desde setembro de 1812. Notas individuais de sua coleção hoje podem valer até US$ 50 mil, segundo o especialista - no entanto, ele se recusa a revelar o valor total da coleção.

Mas coleções não precisam apenas se concentrar na moeda de um país. Com a globalização, a maior facilidade de viagem e o maior acesso ao mercado de moedas estrangeiras, colecionadores agora podem buscar espécimes muito mais rapidamente. A questão é: quais são valiosas e quais sequer valem o papel-moeda?

Cédulas são retiradas de circulação por razões que incluem desestimular falsificações, mas governos também o fazem quando há erros nas impressões - assinatura errada, problemas numéricos, falhas na impressão, etc.

As notas mais procuradas são as que têm mais significância histórica e, consequentemente, mais valor de mercado. Um exemplo são dólares com denominação duplicada, em que a frente mostra um valor, e o verso outro. Segundo Fred Weinberg, comerciante de notas raras, um espécime dessas notas pode valer de US$ 20 mil a US$ 35 mil, dependendo da série e do estado de conservação.

As mais cobiçadas

Na Europa, onde desde 2002 os principais países usam o euro como moeda única, cédulas de antigas moedas nacionais ganharam valor. Uma reportagem publicada recentemente pelo jornal irlandêsIrish Independent estimou o valor de algumas séries notas de libra irlandesa em até 5 mil euros.

Segundo Jared Stapleton, um dos organizadores da Toronto Coin Expo, a maior feira numismática do Canadá, o mercado global para notas raras está crescendo. "A economia mundial pode estar vivendo um momento de incerteza, mas notas raras comandam altos valores", diz.

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A Índia tem um profusão de raridades porque teve períodos de administração francesa, portuguesa e britânica. Também são raras as notas de rúpia que o governo indiano emitiu em 1959 exclusivamente para uso em países do Golfo Pérsico para indianos participando da peregrinação anual a Meca, na Arábia Saudita. "Essas notas foram emitidas apenas uma vez e algumas podem valer US$ 30 mil no mercado", explica Razak.

"O mais interessante nessas cédulas são as cores diferentes das que circulavam na Índia naquela época. A coloração diferente era justamente para distingui-las das notas que tinham valor no país".

John Millensted, numismata da casas de leilões britânica Bonhams, diz que as notas mais raras são espécimes de teste. "Notas com mais de 40 anos de idade comandam valor", explica. Mas às vezes são as mais simples que se tornam mais colecionáveis. Por exemplo: uma nota de uma libra esterlina da época da Primeira Guerra Mundial com palavras impressas em árabe e usada por forças britânicas estacionadas na Turquia, pode valer hoje pelo menos US$ 10 mil, ainda que tenha desenho simplório.

Mas além de boas condições e edições limitadas, o caráter exótico de uma nota também tem apelo. Há uma cédula de 50 rúpias das Ilhas Seychelles em que a palavra "sexo" está escrita secretamente em um desenho de palmeira. Outra é uma nota de dois dólares canadenses, vendida em leilão por mais de US$ 13 mil porque tinha uma assinatura errada.

No Canadá, porém, o objeto de desejo de colecionadores é uma série de 1954 apelidada de "Cabeça do Diabo". Produzida por apenas um ano, essa série de notas de dois dólares já teve exemplares vendidos por mais de US$ 7 mil. Tudo porque o molde criado para imprimir a figura da rainha Elizabeth II (a soberana britânica é, cerimonialmente, a chefe de estado canadense) parecia deixá-la com chifres diabólicos. "Essa série foi produzida por apenas um ano e, por isso, é altamente desejável", explica Stapleton.

Investimento para o futuro

Stapleton dá a dica para um possível investimento para o futuro: guardar notas novas para que, no futuro, elas possam valer mais do que representam. Outra dica é para procurar séries históricas acessíveis como Notas Provinciais Britânicas, emitidas na Índia há pelo 200 anos. Ou as notas trazendo figuras históricas como a George 6º - segundo Razack, elas em breve estarão extintas. "Elas serão verdadeiros tesouros em breve", afirma.

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"Os melhores lugares para aprender sobre notas raras são sites especializados de leilões", explica o indiano, que cita não apenas casas de leilões como plataformas mais comuns como Amazon e eBay.

Mas colecionadores e especialistas aconselham que o poder a comunicação informal não deve ser menosprezado. Razack, por exemplo, montou sua coleção com ajuda de parentes e amigos. E há várias histórias de pessoas que descobriram notas de alto valor em porões, sótãos, armários e em móveis pertencentes a parentes idosos ou mortos.

Independentemente da idade ou raridade, cédulas danificadas não valem o papel em que estão impressas. Um cédula manuseada com muita frequência pode absorver sujeira e oleosidade da pele humana e também causar dobras que retêm sujeira. Outro problema, segundo Stapleton, é a prática de lavar ou passar cédulas, o que pode remover o brilho da nota, algo fundamental para ser valor para coleções.

Colecionadores, apesar de movidos por paixão, também querem se assegurar de que compraram notas que poderão lhe dar lucros. Segundo especialistas, nos últimos 25 anos o retorno médio do investimento em notas raras foi de mil por cento.

Razack, apesar de dizer que jamais venderá sua coleção, admite: "Com o passar do tempo, o potencial de valorização dela é maior do que qualquer outra coisa que possuo".

  • Leia versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Capital .

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