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Até quando o real vai seguir valorizado?

Contrariando a lógica de uma economia em recessão, o real tem se mantido como uma das moedas que mais se fortaleceram nos últimos seis meses.

Entre os países do G20, grupo das economias mais industrializadas do mundo, a moeda brasileira foi a que teve melhor desempenho. A questão é se esta trajetória vai continuar e o quanto ela pode beneficiar a recuperação do país.

Levantamento realizado pela BBC Brasil mostra que a valorização do real frente ao dólar superou 9% desde que a Câmara dos Deputados aceitou o parecer do impeachment da presidente Dilma Rousseff, em abril passado.

O percentual é quase o dobro do registrado pelo iene, do Japão, e o rublo, da Rússia, as outras moedas do grupo que apresentaram ganhos significativos no mesmo período.

"Acho que se você comparar o real agora com o que ele era no ano passado, sim, ele está valorizado" avalia Fiona Mackie, analista para América Latina e Caribe da consultoria britânica Economist Intelligence Unit.

"Mas se olharmos para uma perspectiva de longo prazo, e compararmos o real com os últimos anos, ele não está supervalorizado. Apesar do movimento recente, ele ainda está abaixo do que era anos atrás."

Valorização e riscos

A definição do impeachment e os sinais dados pelo atual governo em busca do equilíbrio das contas públicas têm ajudado a recuperar o valor da moeda brasileira. O mercado reconhece que houve um momento especulativo depois disso.

Além disso, a elevação da taxa de juros nos Estados Unidos - que poderia levar a uma transferência de capital dos países emergentes para a economia americana, enfraquecendo as moedas dos primeiros - não ocorreu no ritmo aguardado por investidores, o que trouxe fôlego para o real.

Os riscos para a moeda brasileira no curto prazo, porém, seguem iminentes, comenta Paulo Figueiredo, diretor da consultoria de investimentos FN Capital.

"Listaria três ameaças mais sérias que podem afetar a trajetória do real. Em primeiro, a elevação da taxa básica de juros dos EUA. Temos visto que qualquer declaração do Federal Reserve (a autoridade monetária americana) tem causado grandes oscilações no câmbio."

Ele segue: "As vulnerabilidades da China ainda podem causar impacto. Uma desaceleração forte não passaria sem trazer estragos. Por fim, a situação bancária da Europa também é um fator. Vimos os problemas do Deutsche Bank nas últimas semanas, mas outras instituições também podem ser afetadas. Neste caso, os investidores podem buscar menor volatilidade, com ativos mais seguros", diz.

Mackie ainda ressalta que "outro problema é que precisamos ver uma política fiscal com mais credibilidade".

"É isso que os mercados exigem do Brasil desde que o país entrou nessa crise econômica", diz, "em parte por causa do crescimento rápido do endividamento público e o déficit fiscal, que levantaram dúvidas sobre a capacidade do país de financiar sua dívida e mantê-la sustentável."

A analista da consultoria britânica afirma, entretanto, que "o que temos visto agora é que finalmente a política fiscal será ajustada, ou que pelo menos existe mais consenso neste sentido".

"Provavelmente serão realizadas reformas estruturais amplas, como a da Previdência, para trazer mais sustentabilidade fiscal, o que vai permitir o corte da taxa básica de juros."

Até onde?

O real segue ganhando terreno inclusive ante uma das moedas mais estáveis do mundo, a libra esterlina. A moeda do Reino Unido acumula a maior desvalorização em relação ao dólar em 2016: perdeu 18%, graças às incertezas políticas criadas com o referendo que decidiu pela saída dos britânicos da União Europeia.

No auge da crise política brasileira, uma libra chegou a ser negociada acima de R$ 6,00. Hoje, é vendida perto dos R$ 3,90. Paulo Figueiredo, entretanto, ressalta que esse patamar deve mudar até o final de 2017.

"Muito mais por conta da estabilização da libra, que por uma depreciação do real. Acho que algo entre R$ 4,80 e R$ 5,00 é o mais adequado", diz.

Porém, o foco dos especialistas é a relação com o dinheiro dos grandes parceiros comerciais do Brasil, entre eles Argentina, China e Estados Unidos. "Nesse contexto", diz Fiona Mackie, "sim, o real vai seguir se valorizando, mas deve continuar competitivo no longo prazo."

Paulo Figueiredo vislumbra inclusive a possibilidade de a moeda americana cair abaixo dos três reais em 2017. Por um lado, esse movimento ajudaria a conter a inflação, mas por outro, encareceria os produtos brasileiros, tendo consequências negativas para a balança comercial.

Fiona Mackie diz que após a valorização do ano que vem, deve haver uma "desvalorização moderada" do real no médio prazo.

"Apesar de existir um otimismo no mercado sobre o processo de reformas econômicas no Brasil, temos que lembrar que há expectativa de mudanças nas taxas de juros ao redor do mundo. Quando isso ocorrer, sobretudo nos Estados Unidos, esperamos que o real volte a se desvalorizar."

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