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Por que injustiça incomoda mais que desigualdade, segundo pesquisa com crianças

Bryan Lufkin - BBC Capital

  • Getty Images/iStockphoto

Estima-se que os 1% mais ricos detenham 50% de toda a riqueza mundial. Diante disso, a desigualdade é frequentemente vista como um dos maiores desafios do nosso tempo. Mas será que essa é a melhor maneira de fazer a leitura do problema?

Alguns pesquisadores argumentam que a desigualdade de renda por si só não seria a principal questão. O problema, dizem eles, não é a existência de um abismo entre ricos e pobres, mas a injustiça. E essa percepção, de acordo com uma série de estudos realizados inclusive com crianças, mostra que muitas pessoas preferem uma "desigualdade justa" a uma "igualdade injusta".

Para elas, o que é contestável é o fato de que alguns são tratados com privilégios, enquanto a outros faltam oportunidades - e reconhecer que pobreza e injustiça estão relacionadas talvez seja o desafio que mais importa no século 21, segundo esses especialistas.

Enquanto muitas pessoas talvez já relacionem a desigualdade com a injustiça, tornar essa distinção muito mais clara é importante: se queremos melhorar a sociedade em que vivemos, esses pesquisadores defendem que precisamos entender o que significa a desigualdade. Só assim poderemos dirigir os recursos necessários para o que realmente importa.

Desigualdade em questão

Mas o que nos incomoda ao falar sobre desigualdade? O fato de que algumas pessoas são ricas e outras pobres? Ou de que nem todo mundo tem oportunidades iguais?

Em um artigo publicado em abril deste ano na revista científica Nature Human Behaviour, intitulado "Por que as pessoas preferem sociedades desiguais", uma equipe de pesquisadores da Universidade Yale, nos Estados Unidos, diz que nós, humanos - até mesmo crianças pequenas ou bebês -, na verdade preferimos viver em um mundo onde a desigualdade existe.

Isso soa contraintuitivo. Como eles chegaram a essa tese? A resposta é que se as pessoas se veem numa situação em que todo mundo é tratado de forma igual, tendem a ficar irritadas ou frustradas por verem que aquelas que trabalham duro não serem recompensadas.

Por exemplo, em um dos vários estudos realizados sobre o tema, um grupo de crianças entre seis e oito anos recebeu a tarefa de dividir borrachas em número ímpar como recompensas entre dois meninos que limparam um quarto.

Os pesquisadores viram que, ao dizer ao grupo que os dois meninos fizeram um bom trabalho, as crianças preferiram jogar fora a borracha extra do que dar uma a mais a um dos meninos injustamente. Mas quando eles disseram às crianças que um dos meninos havia trabalhado mais do que o outro, o grupo o recompensou com uma borracha a mais.

"Defendemos a visão de que a percepção pública da desigualdade de renda sendo por si só repulsiva para muitas pessoas é incorreta. Em vez disso, as pessoas estão, na verdade, preocupadas com a injustiça", diz Christina Starmans, uma das autoras do artigo.

"Atualmente, nos Estados Unidos, e em grande parte do mundo, esses dois termos estão sendo constantemente confundidos, porque há tanta desigualdade que a suposição é de que ela seja injusta. Mas isso gerou um problema para a solução da desigualdade de renda", sustenta ela.

Mark Sheskin, pós-doutorando em Ciência Cognitiva na Universidade de Yale, resume as descobertas da pesquisa: "As pessoas tipicamente preferem a desigualdade justa do que a igualdade injusta".

A razão pela qual isso importa é que tentar criar um mundo sem desigualdade de renda está em desacordo com a percepção pública de justiça, e isso tem o potencial de criar instabilidade.

Utopia

Uma sociedade na qual a pobreza não existe soa utópica - essa sociedade é igual, mas injusta, então corre o risco de desmoronar, defende Nicholas Bloom, professor de Economia da Universidade de Stanford.

"As pessoas não trabalham, criam ou se esforçam sem a motivação para isso", defende.

"Se sou pintor, dentista ou pedreiro, por que eu trabalharia 50 horas por semana se ganho tudo de graça? Pela minha própria experiência ao chefiar pessoas, não nos parece razoável que aquelas que não trabalhem duro sejam recompensadas. Quando você chefia uma equipe numerosa, não há nada pior do que pessoas preguiçosas recebendo as mesmas recompensas e promoções do que aquelas que trabalham duro."

Mas como podemos definir desigualdade?

Pesquisadores dizem que precisamos, em primeiro lugar, definir o que significa o termo "desigualdade".

É importante lembrar-se de que, na medida em que pensamos possibilidades para combater a desigualdade, há três ideias distintas, mas relacionadas.

Em primeiro lugar, a ideia de que as pessoas devem ter oportunidades iguais na sociedade, independentemente de experiência, orientação sexual, gênero, etc.

A segunda ideia é da distribuição justa, pela qual os benefícios ou as recompensas devem ser distribuídos de forma justa com base no mérito.

A terceira e última ideia consiste na noção da igualdade como resultado. Em outras palavras: as pessoas recebem resultados iguais independentemente da circunstância. Esse último conceito é mais difícil de definir.

'Desigualdade de resultados'

Muitos especialistas com os quais a BBC conversou citaram a frase "desigualdade de resultados": imagine que você receba R$ 10 e o seu amigo, R$ 15. Isso representa uma desigualdade de resultados, dado que vocês receberam valores diferentes, independentemente do motivo pelo qual isso aconteceu.

Cada uma dessas ideias representa um diferente tipo de desigualdade que se manifesta no nosso dia a dia e que leva à interpretação errada de que se trata de "desigualdade econômica".

Reconhecer essas três dimensões diferentes é crucial para formular um plano de batalha mais abrangente.

Sendo assim, quais desses tipos de desigualdade devem ser enfrentados? Qual deles nos leva a uma sociedade melhor?

Muitos dos pesquisadores e economistas entrevistados concordam: há excessivo destaque sobre o fato de que 1% da população mundial detém tamanha riqueza.

Em vez disso, defendem eles, precisamos nos focar mais em ajudar aqueles menos abastados que, por causa da injustiça, não são capazes de melhorar de vida.

Harry G. Frankfurt é professor-emérito de filosofia da Universidade de Princeton. Em seu livro On Inequality (Sobre a desigualdade, em tradução livre), ele assinala que nossa obrigação moral deve ser eliminar a pobreza, em vez de alcançar a igualdade plena, e lutar para que todo mundo tenha instrumentos para ter uma boa vida.

"Realmente acho que as pessoas tendem a reagir com maior solidariedade àqueles que estão sofrendo por causa da pobreza do que àqueles que não são tão ricos e possivelmente sofram com isso", opina Frankfurt. "Isso deve ser a linha mestra para criar leis que atenuem a situação dos mais pobres", defende.

A desigualdade econômica é produto de forças culturais e políticas complexas no mundo ao longo da história.

No entanto, ao entender as diferenças nas definições de desigualdade - como a desigualdade de oportunidades - fica mais claro que nem todo mundo recebe as mesmas oportunidades para ter sucesso, mesmo se trabalharem duro.

Dependendo de seu ponto de vista político, o modo de enfrentar a desigualdade pode ser diferente: talvez a esquerda defenda a saúde pública universal para todos, enquanto a direita apoie a criação de emprego para quem tem salários mais baixos. Seja qual for o plano de ação, contudo, especialistas dizem que a solução passa pelo fato de que pobreza e injustiça existem.

"Seria benéfico mudar o foco da conversa e das pesquisas da desigualdade propriamente dita", defende Starmans, "em direção a temas como injustiça e pobreza, que estão no centro dos problemas", acrescenta.

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