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Petrobras recorre a mutirão no WhatsApp e multa milionária para sufocar greve

Ricardo Senra

Da BBC Brasil, em Londres

  • Tânia Rego/Agência Brasil

Para evitar o alastramento de uma greve de petroleiros que poderia atingir proporções nacionais, a exemplo do que ocorreu com a paralisação dos caminhoneiros, a Petrobras criou uma força-tarefa que envolveu desde os celulares de funcionários em todo o país até o Tribunal Superior do Trabalho, em Brasília - passando pela presença de forças policiais na sede da empresa, no Rio de Janeiro.

Por volta das 6h da manhã da quarta-feira, 30, vídeos gravados por gerentes-executivos de diferentes áreas começaram a ser divulgados em grupos de funcionários da empresa no WhatsApp - aplicativo também usado pelos grevistas como ferramenta de articulação, a exemplo do que ocorreu com os motoristas de caminhões.

Segundo relatos de empregados da companhia, os filmes teriam sido encaminhados por chefes a funcionários de confiança, que por sua vez distribuíram as imagens para grupos mais amplos, que incluem simpatizantes da greve.

À BBC Brasil, a Petrobras confirmou o uso do aplicativo de mensagens, mas afirmou que o recurso atende a uma demanda dos próprios funcionários.

Paralelamente ao mutirão interno, a empresa recorreu ao Tribunal Superior do Trabalho (TST) e pediu a proibição da greve, cuja duração inicial seria de 72 horas.

A ministra Maria de Assis Calsing, do TST, não só atendeu ao pedido como impôs multa diária de R$ 500 mil aos sindicatos, em caso de desobediência - o valor foi aumentado para R$ 2 milhões na quarta-feira.

"Trata-se, a toda evidência, de greve de caráter político", argumentou o Tribunal ao proibir a paralisação "diante do caráter aparentemente abusivo da greve e dos graves danos que dela podem advir".

Para os adeptos da greve, no entanto, a medida foi vista como inconstitucional, já que qualquer decisão, vinda dos funcionários ou da diretoria da estatal, tem efeitos políticos.

Fontes dentro da empresa também fotografaram carros de polícia na entrada de escritórios no Rio de Janeiro, onde fica a sede da petroleira - questionada pela reportagem, a Petrobras se recusou a confirmar ou negar envolvimento institucional com a presença policial.

Depois de conseguir adesão de funcionários de 25 plataformas petroleiras e paralisar três, segundo a FUP (Federação Única dos Petroleiros), a greve arrefeceu após pouco mais de 24h.

A ofensiva simultânea conseguiu a paralisação a apenas 5% das unidades da empresa, segundo dados divulgados nesta quinta-feira pela Petrobras. A própria FUP orientou o retorno ao trabalho após o aumento da multa imposta pelo TST, mas sindicalistas ainda não haviam decidido se acatavam ou não a decisão até o início da tarde.

Entre as principais bandeiras dos grevistas estão a demissão do atual presidente da Petrobras, Pedro Parente; a redução dos preços dos combustíveis, incluindo gasolina, gás natural e diesel; e o fim das vendas de ativos da empresa (que prevê arrecadação de 21 bilhões de dólares, ou quase R$ 80 bilhões, até o fim do ano).

Demanda ou constrangimento?

A crescente polarização vista nas ruas quando o assunto é a Petrobras é ainda mais intensa dentro dos corredores, plataformas e grupos de WhatsApp de funcionários da petroleira.

Desde a posse de Pedro Parente, nomeado por Michel Temer em 2016, um racha sobre privatizações e a política de preços dos combustíveis divide empregados.

A BBC Brasil teve acesso aos vídeos enviados por executivos aos funcionários pelo aplicativo de mensagens, e posteriormente publicados na intranet da companhia.

Apresentados por executivos de áreas como Recursos Humanos, Finanças, Controladoria e Programação e Controle Operacional, eles citavam "impactos da greve dos caminhoneiros sobre a população", criticavam "investimentos que não trouxeram o retorno esperado, além de perdas com a nossa politica de preços no passado", em referência ao governo de Dilma Rousseff, e "informações desencontradas" sobre a política de preços da empresa e os custos de produção da gasolina e do diesel.

Procurada pela reportagem, a Petrobras reconheceu os envios e afirmou, em nota, que "a empresa está utilizando todos os seus canais de comunicação interna para a disseminação das informações e alguns dos materiais produzidos também foram enviados para celulares corporativos, trazendo mais agilidade e dinamismo à comunicação".

Ainda segundo a empresa, "o envio por celular atende à demanda dos próprios empregados, tanto de áreas operacionais quanto daqueles que trabalham nos escritórios".

Nem todos, entretanto, concordam.

"Celular e o WhatsApp da maioria dos empregados é particular. Se a empresa oficialmente pede que os outros gerentes enviem mensagens para os telefones particulares dos empregados com essa propaganda institucional, acho que há um erro de invasão de privacidade neste momento", disse à BBC Brasil o servidor Herbert Teixeira, diretor da Associação de Engenheiros da Petrobras (AEPET), que não tem vínculo sindical, mas dá apoio à greve.

Lideranças dos sindicatos foram além. "As mensagens visam com certeza a um constrangimento. Usaram a condição deles de chefes para propagar uma ideia única, sem respeitar o conjunto de ideias que existe na empresa", disse Natalia Russo, diretora do Sindipetro.

A diretoria da empresa nega constrangimentos.

"Considerando os temas que estão sendo amplamente discutidos pela sociedade e que tiveram sua exposição potencializada em função da greve dos caminhoneiros, a Petrobras está realizando também esclarecimentos específicos para seu público interno. Exemplos desses temas são a política de preços da Petrobras, comparativo de preços em outros países e carga processada nas refinarias, entre outros", afirmou a companhia.

Guerra de versões

Como vem ocorrendo nas redes sociais desde o início da greve dos petroleiros, a política de preços da Petrobras é um dos principais focos de tensão entre os empregados.

"A gente não pode vender o filé mignon abaixo do custo do boi", diz um dos gerentes executivos da empresa nos vídeos enviados pelo WhatsApp.

Até 2015, no governo Dilma, os preços da gasolina e do diesel eram controlados por decisões do governo, independentemente do valor do petróleo no exterior.

Desde o início do governo Temer, em 2016, os reajustes nos preços dos combustíveis nas refinarias passaram a ser determinados pela Petrobras de acordo com variações do dólar e do petróleo no mercado internacional.

A partir de julho de 2017, a empresa passou a realizar ajustes nos preços "a qualquer momento, inclusive diariamente", como afirmou na época. Em dezembro, pela primeira vez desde o início da nova política, o litro de gasolina ultrapassava a barreira dos R$ 4 nos postos.

Para os diretores da empresa, o controle nos preços reduziria a competitividade da Petrobras em leilões e aprofundaria a dívida da empresa.

"Em 2015 por exemplo, nossa taxa de juros chegou a 15%, com uma concentração em torno de R$ 40 bilhões de dívida vencendo em 2 anos", diz uma das gerentes nos vídeos enviados por WhatsApp. "(Isso) criou uma grande incerteza no mercado em relação à nossa capacidade de pagamento."

A ala descontente discorda da estratégia.

"Abrir a discussão com os funcionários é ótimo. Mas os argumentos são superficiais, inconsistentes, são um convencimento emocional sem fatos e dados", avalia o engenheiro Herbert Teixeira.

Segundo a associação dos engenheiros, a alta nos preços do combustível com a nova política abre espaço para os concorrentes, encolhendo a atuação da Petrobras no país - consequentemente, reduzindo seus lucros que poderiam aplacar a dívida.

"A estatal perdeu mercado e a ociosidade de suas refinarias chegou a um quarto da capacidade instalada. O diesel importado dos EUA, que em 2015 respondia por 41% do total, em 2017 superou 80% do total importado pelo Brasil. Ganharam os produtores norte-americanos, os traders multinacionais, os importadores e distribuidores de capital privado no Brasil. Perderam os consumidores brasileiros, a Petrobras, a União e os estados federados com os impactos recessivos e na arrecadação", diz a AEPET.

Judicialização da greve

A decisão pela aplicação de multa pelo TST foi recebida com surpresa pelos sindicalistas.

Na opinião da empresa, a "decisão liminar do Tribunal Superior do Trabalho reconhece a abusividade do movimento grevista".

"Sobre a paralisação dos petroleiros, a Petrobras informa que todas as suas unidades estão operando. A greve já foi encerrada em mais de 95% de suas unidades. Onde ainda é necessário, equipes de contingência atuam e a situação caminha para a normalidade e para o encerramento do movimento. Não há impacto na produção nem risco de desabastecimento", diz a estatal em nota.

Já a porta-voz do Sindipetro classifica a decisão do TST como inconstitucional.

"São os trabalhadores que autonomamente devem definir os interesses que buscam defender. A política interfere no nosso dia a dia de trabalho", disse Natalia Russo à BBC Brasil

"A decisão do (Michel) Temer e (Pedro) Parente de vender refinarias, dutos, terminais, FAFENs (fábricas de fertilizantes) e campos de petróleo é política. O aumento dos preços dos combustíveis também foi uma medida política (....) Não podemos protestar através de uma greve mesmo que isso esteja interferindo diretamente na nossa segurança no emprego e nos nosso direitos?", prossegue. "O que é abusivo é a privatização e o aumento dos preços dos combustíveis em mais de 50%", diz Russo.

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