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#Instaperfect: como a desigualdade pode estar impulsionando as selfies sensuais

Pablo Uchoa - Do Serviço Mundial da BBC

22/09/2018 08h23

Uma imagem vale mais que mil palavras. Da mesma forma, parece que há mais por trás das selfies do que pode parecer à primeira vista.

A obsessão online que vivemos hoje tem sido vinculada à vaidade e até à opressão de gênero. Mas poderia ser também um comportamento guiado pela economia?

Asma Elbadawi é uma artista visual de origem inglesa e sudanesa. Ela acha que o capitalismo moderno impulsiona as mulheres a se fotografarem como objetos de desejo. Recentemente, ela postou uma selfie no Instagram com desenhos no rosto, lembrando as marcas feitas em pacientes antes de uma cirurgia plástica.

Na imagem, ela citou uma frase de um de seus poemas, intitulado "Shades" (sombras, em português): "mantenha-se na moda em um mundo que cria inseguranças e oferece-as como alimento para sua população".

Elbadawi, ativista reconhecida pelo empoderamento de jovens muçulmanas, afirma que sua intenção era usar a linguagem de cartazes publicitários, criando uma mensagem irônica.

"Eu percebi, ao longo dos anos, com o crescimento das redes sociais e a queda nos preços de cirurgias cosméticas, que as mulheres ao redor do mundo têm mudado seus traços faciais para se parecerem mais com as europeias, além de colocarem implantes para realçarem suas curvas", afirmou.

"Eu era constantemente bombardeada com imagens de mulheres sensuais e perfeitas. E com propagandas que tentavam me vender produtos cosméticos e para emagrecer. Isso me fez perceber que, de muitas formas, o capitalismo cria inseguranças por meio de publicidade, para então lucrar com os consumidores - bem como fazer com que as mulheres se vistam e tenham uma aparência específica para o público masculino".

Selfies sensuais são sinal de discriminação de gênero

O trabalho de Elbadawi levanta uma questão interessante. Conquistas femininas possibilitaram às mulheres denunciarem tudo que as objetifica, desde a cantada na rua até a cultura machista do teste de sofá de Hollywood.

Apesar disso, a disseminação das redes sociais faz com que sejamos bombardeados com imagens sexualizadas de mulheres. Por quê?

Khandis Blake, psicóloga na Universidade de New South Wales, em Sydney, pesquisa o que a sexualização das mulheres pode nos dizer sobre as sociedades. Segundo ela, as selfies são geralmente tiradas como um sinal de discriminação de gênero. Ou seja, as mulheres tiram selfies porque elas sentem que precisam parecer atraentes para os homens.

Mas, além disso, a última pesquisa de Blake encontrou um aspecto econômico. Em um artigo publicado no periódico científico Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), Blake descreve suas descobertas depois de analisar centenas de milhares de selfies tiradas em 113 países - dentre as quais foram selecionadas 68 mil selfies "sexy".

Selfie sexy é mais comum em países mais desiguais

O resultado é que o fenômeno da selfie sexy é mais prevalente em países educados e desenvolvidos, afirma Blake. "São as mesmas sociedades que passaram décadas lutando contra a objetificação sexual de mulheres e garotas - e que estão fazendo com que homens poderosos expliquem seu comportamento em relação a mulheres".

Para entender essa aparente contradição, a equipe da psicóloga avaliou indicadores econômicos e de gênero nesses países. E descobriu que as mulheres são mais propensas a investir tempo e esforço em tirar e postar selfies sexy em países onde a desigualdade econômica está subindo.

Isso explicaria, segundo ela, por que os Estados Unidos, Reino Unido e Cingapura - onde a desigualdade de renda está aumentando - estão entre os países mais viciados em selfies, juntamente com um conjunto de países menos desenvolvidos mas muito desiguais - como Brasil, México e Colômbia.

As pessoas em países desenvolvidos com baixa desigualdade de renda - como Noruega, Suécia, Islândia e Dinamarca - tiram menos selfies sexy.

Assim, "a sexualização pode ser uma marca de ascensão social" e competição feminina.

Blake afirma que suas conclusões são consistentes com dados econômicos. As mulheres que vivem em regiões com grande desigualdade econômica nos Estados Unidos gastam mais em salões de beleza e lojas de roupas, por exemplo.

Quem está no controle?

Kim Kardashian, celebridade de TV e magnata dos cosméticos, tem uma fortuna de US$ 350 milhões, segundo a Forbes. Ela tem sido chamada de a mulher mais fotografada da história.

Segundo Blake, parecer atraente ou sexy nos dias de hoje "pode dar grandes retornos, econômicos, sociais e pessoais". "Falar para as jovens pararem de postar selfies sexy é como pedir que renunciem ao que o capitalismo lhes oferece".

O problema surge quando mulheres são pressionadas a terem uma aparência específica, que pode se tornar algo opressivo, afirma.

Asma Elbadawi teme que as jovens nunca aprendam a gostar de si mesmas e de seus corpos. Em algumas culturas, "as jovens sentem medo de desenvolverem músculos se praticarem esportes. Na verdade, alguns dos namorados delas pedem que parem de jogar. Eles acham que isso pode torná-las menos femininas e atraentes", diz ela, que também é instrutora de basquete.

É uma pena, diz Elbadawi, porque as garotas podem aprender muito sobre "desenvolvimento pessoal e como conectar mente e corpo para dar o seu máximo. Mas isso é desprezado. Instrutores de academia, blogueiros de moda e artistas da maquiagem têm milhões de seguidores porque focam em como obter o corpo e aparência perfeitos".

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