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Por que nova cédula de 1 milhão de bolívares da Venezuela será 'moeda de troco'

8.mar.2021 - Novas notas de 200 mil, 500 mil e 1 milhão de bolívares começam a circular na Venezuela - Divulgação/Banco Central da Venezuela
8.mar.2021 - Novas notas de 200 mil, 500 mil e 1 milhão de bolívares começam a circular na Venezuela Imagem: Divulgação/Banco Central da Venezuela

Guillermo D Olmo

Da BBC News Mundo, em Caracas (Venezuela)

09/03/2021 16h33

A espiral de hiperinflação na Venezuela chegou a um novo marco nesta semana.

O Banco Central da Venezuela (BCV) colocou em circulação uma nova nota que reflete a hiperinflação que o país experimenta há anos: a cédula de 1 milhão de bolívares, a de maior denominação da história do país.

Apesar do número alto, seu valor real é muito baixo: US$ 0,52 pelo câmbio oficial da semana passada, quando o BCV anunciou sua introdução ao conjunto de notas e moedas em circulação.

A previsão, contudo, é que ela se desvalorize rapidamente, já que a escalada de preços segue fora de controle e a Venezuela vive uma das mais graves crises econômicas da história recente.

Segundo o BCV, os índices de preços subiram 2.665% no último ano.

O que o Banco Central anunciou?

Além da cédula de 1 milhão de bolívares, a conta do Twitter do Banco Central da Venezuela anunciou o lançamento de outras duas novas notas, de 200 mil e 500 mil, "para atender às necessidades da economia nacional".

Em 2018, já tinham sido retirados cinco zeros da moeda, o que não impediu que o valor do bolívar continuasse a cair.

A BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, procurou o governo venezuelano por meio do Ministério das Comunicações da Venezuela, mas não recebeu resposta imediata.

Em meio a uma dolarização de fato (66% das transações já são feitas com o dólar, segundo a Ecoanalítica), a medida tem sido interpretada como a resposta ao problema da falta de câmbio, que torna as transações mais comuns extremamente difíceis no dia a dia dos venezuelanos.

Como o dinheiro em bolívares é escasso e o valor real do que está disponível está diminuindo, muitas pessoas tentam pagar por serviços de baixo valor, como passagens de transporte público (150 mil bolívares ou US$ 0,07), com notas de um dólar e motoristas raramente têm troco suficiente para devolver.

A desvalorização irrefreável do bolívar tornou o dólar americano a moeda preferida nos últimos anos — e o bolívar foi deixado apenas para transações menores e para o varejo. Mas, uma vez que não há dinheiro suficiente, ele também não cumpre este papel.

Tres nuevos billetes serán incorporados al Cono Monetario vigente, como parte de la ampliación de la actual familia de especies monetarias.#BCV ?? pic.twitter.com/HdUDbrrZ5F

-- Banco Central de Venezuela (@BCV_ORG_VE) March 5, 2021

Pelas estimativas da consultoria Econométrica, apenas 1,9% dos bolívares que circulam no sistema o fazem em espécie.

E a escassez de bolívares em dinheiro se soma a falta de dólar em baixo valor, tornando coisas como pagar por um pacote de farinha ou uma passagem de ônibus uma dor de cabeça para muitos.

O economista Luis Vicente León, da consultoria Datanálisis, disse à reportagem que "estão lançando uma cédula que terá o valor mais alto de uma nota em bolívares, mas, na realidade, funcionará mais como uma moeda para dar o troco".

A nota de um milhão é a solução?

O lançamento da nova nota foi recebido com ceticismo. A previsão geral é que perderá seu valor já baixo tão rapidamente quanto muitos de suas antecessoras.

León acredita que "esta medida só terá efeito durante algumas semanas ou, talvez, meses, porque o bolívar não inspira qualquer confiança".

A história recente não inspira muitos motivos para otimismo.

No verão de 2018, o presidente Nicolás Maduro anunciou o lançamento de um novo cone monetário (conjunto de notas e moedas) como parte de seu Plano de Recuperação Econômica, Crescimento e Prosperidade para enfrentar a "guerra econômica" dos Estados Unidos, a quem ele culpa pelos problemas da economia venezuelana.

Nasceu ali o bolívar soberano, um novo bolívar de cujo valor nominal foram retirados cinco zeros para compensar o efeito acumulado da hiperinflação.

Maduro continuou na linha de seu antecessor, Hugo Chávez, que adotou medida semelhante anos antes.

Essas sucessivas reavaliações do valor nominal do bolívar como resultado de uma decisão política são medidas paliativas para a erosão que a hiperinflação impôs à moeda venezuelana.

O economista e político da oposição José Guerra calcula que, se somarmos todos os zeros eliminados pelo governo nos últimos anos, a nova nota de 1 milhão seria, na verdade, de 100 bilhões.

Futuro do bolívar

Embora a Constituição da Venezuela estabeleça que sua moeda é o bolívar, parece difícil que, no contexto atual, a moeda possa recuperar seu valor e seu papel na economia.

"Remover zeros da moeda ou renomear não é a solução", diz Léon.

A Venezuela está mergulhada em uma crise econômica há anos que consumiu mais da metade de seu Produto Interno Bruto (PIB) e foi agravada pela pandemia do coronavírus.

Depois de anos proibindo o uso do dólar, o governo nos últimos meses permitiu o uso crescente da moeda como "válvula de escape", nas palavras de Maduro.

"Não vejo mal (...) esse processo que chamam de dolarização; pode servir para a recuperação e o desenvolvimento das forças produtivas do país e o funcionamento da economia (...), graças a Deus ele existe", disse o presidente há alguns meses.

"A Venezuela sempre terá sua moeda (...), sempre teremos o bolívar, e vamos recuperá-lo e vamos defendê-lo", acrescentou.

O presidente disse recentemente que quer levar adiante um plano para que este ano a economia do país seja totalmente digital. Nesse sentido, já foi implementado o pagamento do metrô de Caracas com cartão eletrônico.

O dirigente chavista sustenta que as sanções dos Estados Unidos e o "bloqueio internacional" são a causa dos problemas da economia venezuelana. Mas especialistas e vários organismos internacionais alertam que, até que as reformas estruturais sejam realizadas, não será possível estabilizar o bolívar —e recomendam que o governo abandone sua prática de monetizar o déficit fiscal (cobrindo com a emissão de dinheiro o desequilíbrio entre receitas e despesas do Estado).

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